Wings Of Despair
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Em uma casa, uma república de estudantes protegida por muros e grades pesadas, em uma cidade do interior, ela observa as ruas vazias. A jovem está trancada ali desde que a loucura começou alguns meses.
Mariana havia se mudado há poucas semanas antes do primeiro infectado ser notícia na televisão, escolhera fazer faculdade de veterinária naquela cidade, ficando bem longe dos pais na capital. Agora não sabia se havia sido uma sábia decisão. Há dias não tem mais notícias da família, dos amigos. De ninguém.
Havia se trancado ali com um grupo de amigos. Tinham comida e água para vários dias, mas o grupo decidiu que iria sair e procurar outros sobreviventes. Não era possível que eram os únicos vivos naquela cidade, mas Mariana sentia medo demais para sair do casulo que criara naquele lugar e se aventurar.
Eles insistiram, mas ela se recusou. Desistiram e pegaram mantimentos e a deixaram só. Mariana apenas trancou a porta e reforçou a barreira que improvisara contra ela e se encolheu em um canto, observando pela janela. Viu o número de pessoas vivas diminuírem e o dos mortos vagantes aumentarem.
Andavam a ermo, sem rumo, com passos letárgicos e murmurando sons guturais que lembravam rosnados de suas gargantas. Atentos a ruídos que indicassem comida a ser devorada, sem qualquer sinal de inteligência. Mas não eram menos perigosos por causa disso. Até que a população de mortos também diminuíssem, como se impulsionados pela procura incessante de comida os levassem para fora da cidade em enormes manadas devoradoras.
Ela teve por semanas esperanças de que os pais a encontrariam. Que o exército chegaria nela, que a levariam a algum acampamento de sobreviventes. Mas a esperança se findou junto com suas provisões.
Por fim a solidão, a falta de comida, conseguiram fazer com que saísse do entorpecimento que a mantinham presa naquele lugar e a tomar uma decisão. Primeiro pegou um bloco e rabiscou algumas palavras nele, depois prendeu os cabelos negros em um rabo de cavalo improvisado e saiu de seu abrigo pela primeira vez em dias, levando apenas o bilhete em sua mão.
Abriu a porta devagar, em silêncio observou as ruas abandonadas e vazias. Apenas os sons dos pássaros era audível naquele instante. Passou por ruas que em outros tempos eram cheias de vida, de crianças brincando, de pessoas sentadas na calçada conversando sobre o tempo, um programa de televisão ou sobre a crise política do país.
Agora não havia ninguém. Um gato de rua passa assustado perto dela e se esconde em uma casa vazia, onde seus moradores aparentemente fugiram com pressa há algum tempo.
Mariana sorri para o pequeno e arisco animal e continua a sua caminhada. Avista um daqueles... como seus amigos se referiram a eles? Zumbis? Sim, ela avista um daqueles zumbis e pára chocada ao reconhecer quem era pelas roupas.
Era um dos seus amigos que partira com o grupo com a intenção de encontrar ajuda dias atrás. Seu nome era Hermes. Lembrava que era um rapaz quieto, estudioso. Ele não queria acompanhar o grupo, mas foi pressionado por Victor, que era seu amigo, a segui-los.
Um enorme ferimento em seu pescoço indica que fora atacado por outro zumbi e certamente foi isso a causa da sua morte. Na TV, antes das transmissões deixarem de ser feitas, avisaram para tomarem cuidado com a mordida dos infectados, que isso tornaria quem foi ferido um zumbi também.
Notou que ele não percebeu sua presença, aparentemente eles não conseguiam enxergar nada. Aquele gato arisco que havia passado há pouco por ali havia feito barulho ao derrubar algumas latas de lixo e o som atraiu a atenção do cadáver ambulante. Mariana constatou que eles se guiavam pelos sons, então teria que ser a mais silenciosa possível para afastar-se dali sem denunciar sua presença.
Enquanto se afastava, ficou imaginando o que aconteceu com os demais. Victor, Alice, Carol... Será que conseguiram encontrar ajuda? Foram resgatados? Ou estão mortos e vagando por aí como o pobre Hermes? De todo modo, a resposta não era tão importante assim para ela no momento.
Chegou ao prédio onde funcionava sua faculdade, e como já esperava estava abandonada. Havia sofrido depredações no auge da loucura que a epidemia que assolou a Terra, mas agora estava vazia.
Ou quase. Passou por um dos cadáveres que havia perdido as pernas por algum motivo e se arrastava pelo chão. Seria de algum aluno? Alguém com quem cruzou pelos corredores nas poucas semanas que teve uma vida de universitária normal? Ele estendeu a mão descarnada na sua direção, mas não representava perigo algum, então o ignorou e entrou no prédio.
Percebeu que ao forçar a porta para entrar, fazendo um grande barulho, chamou a atenção de outros zumbis. Correu para despistá-los e subiu pelas escadas até o quinto andar, onde ficava sua sala de aula.
Foi até a janela e ficou sentada nela, olhando os poucos cadáveres que caminhavam a ermo, segurou o bilhete firmemente na mão e quando alguns zumbis entraram na sala ela fechou os olhos e saltou.
Algumas horas depois...
A queda fraturou os ossos da perna, o rosto estava manchado pelo sangue que escorreu em abundancia sujando o chão e o bilhete de despedida que escrevera antes de sair de casa. Foi o traumatismo craniano juntamente com a perda de sangue que findou sua vida. Agora ela era como os demais cadáveres sem vida, tentando se arrastar no chão, soltando sons guturais da garganta olhando para o nada.
Primeiro foram os sons de motores de caminhões que atraíram sua atenção, em seguida ela estendeu a mão, fitando com seus olhos esbranquiçados como os de um tubarão, o homem de roupas verdes com estampa de camuflagem que se aproximava cauteloso.
—Que acha, tenente? -o homem perguntou a outro que se aproximava ao seu lado. — Morreu há pouco tempo. Pelos ferimentos se jogou do alto.
O companheiro dispara sua arma na cabeça de Mariana, fazendo-a ficar finalmente em silêncio.
—Não importa mais, soldado. –disse secamente.
O soldado se abaixa e pega o bilhete manchado de sangue lendo suas palavras de despedida.
—Mariana...
—Largue isso, temos que ir! -ordenou o tenente antes de virar-se para os demais. –VAMOS! TEMOS QUE CHEGAR NO ACAMPAMENTO DE REFUGIADOS AINDA HOJE!
Um grupo grande de soldados brasileiros acompanhados por civis, alguns armados, passavam pela cidade naquele instante a procura de sobreviventes e eliminando o maior número de zumbis que pudessem em sua passagem. Um ônibus de turismo cheio de crianças e outros refugiados passava devagar em frente ao corpo de Mariana. A cabeça destruída pelo fuzil não possibilitou que três de seus passageiros... Victor, Alice e Carol... a reconhecessem.
Estavam esperançosos em passar pela República e trazer a amiga. Dizer a ela que agora estavam a salvo.
FIM
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