Era por volta das três da manhã quando me levantei. Um banho quente, dentes escovados, cabelos penteados e bem presos e minha roupa de sempre. Estava quase pronta para mais um dia ‘‘emocionante’’ de caça aos demônios.

— Então – Dean me assustou. Eu não tinha notado que ele havia acordado. – Pensei que só usasse essa roupa pro trabalho voluntário na igreja, com o padre Kellan.

— Eu gosto dessa roupa – puxei o zíper lateral do vestido, o ajustando ao meu corpo.

— Então agora você e Castiel são uma dupla dinâmica? ‘‘Sobretudo e Batina’’?

— Pode-se dizer que sim – me sentei em uma cadeira, colocando minhas meias.

Quase dei um grito ao ver que Castiel estava parado perto da janela.

— Está mal acostumado de novo, Cass – o repreendi. – Bater na porta, lembra? Essa é uma das regras.

— Me desculpe. Vou tentar me lembrar disso. É que eu... Me preocupo com a segurança de vocês.

— Olha só pra ele, tão fofo! – Dean brincou, se deitando de costas na cama, colocando um braço atrás da cabeça. – Todo preocupado com a gente! Todo gente boa, me tirando do inferno... Você não tá tentando roubar a minha mulher, né?

— Eu não... – Castiel franziu o cenho. – Não ousaria.

— É bom mesmo – Dean cruzou os braços.

— Apesar de que, tecnicamente, vocês não são mais casados – Castiel desviou o olhar, pensativo.

— Que? – o encarei.

— Bem, os votos implicam que vocês são um casal até que a morte os separe, e a morte já separou vocês, então...

— Não usa essa brecha, não – Dean fingiu estar ofendido. – Enquanto usarmos alianças, tá valendo.

— Imaginei que diria isso. De qualquer forma, posso assegurar que não tenho vis intenções para com Santa Isabella – ele pigarreou.

— Uau, olha só como ele é formal – Dean riu. – Ele é sempre assim?

— É, sim – eu sorri, terminando de calçar minhas botas. – Não é, irmão? – sorri para o anjo, que assentiu, um tanto quanto embaraçado.

Me levantei para pegar minha faca de prata em minha mochila, a prendendo em meu braço, de baixo de uma das minhas mangas, como de costume.

— Não vai levar a Glock? – Dean perguntou confuso.

— Não. Eu tenho evitado usá-la, mas ela tá aqui, se precisar dela – apontei para a bolsa, colocando meu rosário no pescoço em seguida. – Tem dinheiro na minha carteira, vou deixar meu celular com você, e o mais importante... – mostrei as chaves do Chevelle. – Dirija ele com carinho, tá? Ele é um garoto sentimental.

— Pode deixar, benzinho – deu uma piscadinha.

— ‘‘Benzinho’’? – Castiel franziu o cenho.

— Mas será possível que até você vai me zoar com isso? – Dean se indignou. – Ninguém mais leva romantismo a sério aqui?

— Eu levo – me aproximei da cama e beijei sua bochecha. – Eu te amo. Tome cuidado e coma alguma coisa antes de ir atrás do Sam, por favor.

— Sim, senhora – ele beijou minha bochecha em retorno.

Castiel pigarreou, desviando o olhar. Dean e eu reviramos os olhos.

— Se fica desconfortável com a proximidade humana, deveria ter batido na porta, para começo de conversa – caminhei para perto do anjo.

— Você tem razão – ele assentiu. – Me lembrarei disso.

— Te vejo mais tarde, amor – acenei para Dean.

— Espera, como vai me encontrar?

— Eu encontro – respondeu Castiel, e nós dois saímos dali.

~

Tudo estava quieto no lugar onde estávamos, obviamente por conta do horário. Estávamos do outro lado da rua, observando a lanchonete do Johnny Mac. Senti o cheiro de enxofre de longe.

— Qual é o lance? – perguntei à Castiel.

— Há pelo menos quatro demônios lá dentro.

— A essa hora? – franzi o cenho. – Sabe do motivo?

— Estão esperando pelo seu cunhado.

— Como assim ‘‘esperando’’? – o encarei.

— Sam está na cidade e eles sabem disso. Ele estava os seguindo desde outro estado e agora eles estão aqui por causa do Dean. A ressureição dele chamou a atenção dos demônios e eles querem descobrir quem foi que o trouxe de volta.

— Então estamos aqui para matá-los e fazer os outros desistirem da caçada?

— Exatamente.

— Beleza.

— Eu preciso confirmar uma coisa. Precisamos deixar ao menos um vivo.

— Por que?

— Explico quando tiver permissão – ele me fitou.

Assenti, levemente irritada. Aquele lance de esperar permissão alheia para descobrir informações ou fazer o que precisava ser feito era realmente irritante.

Entramos sorrateiramente e fizemos o serviço como de costume. Matei dois, e Castiel um, deixando um demônio apenas cego e atordoado antes de nos retirarmos, voltando para o lado de fora e esperando em silêncio por qualquer movimentação.

Então, depois de meia hora, eu vi o Impala se aproximando e me alarmei.

— Ele vai nos ver aqui.

— Não vai, você está em baixo da minha asa, ele não pode te ver ou ouvir.

— Oh – franzi o cenho. – Obrigada.

— De nada.

O rosto de Sam...

Estava... Diferente. Eu não sabia explicar o motivo, mas seu formato não era o mesmo. Mas o pior era sentir cheiro de enxofre ao seu redor. Encarei Castiel, confusa. Ele apenas me pediu calma e que observasse o desenrolar dos acontecimentos.

Sam entrou na lanchonete e não demorou muito para que o demônio cego o atacasse. Por instinto, eu quis entrar e o defender, mas Castiel não permitiu. Insistiu que eu me acalmasse e observasse, e nós nos aproximamos um pouco mais para ver melhor.

Então, lá estava.

Eu vi Sam estendendo a mão na direção do demônio, expulsando-o de volta para o Inferno. Com o poder da mente.

— Tá, Sam tá usando a paranormalidade dele. Qual é o problema nisso, Castiel? – o encarei. – Eu mato demônios com as mãos e ninguém vê nada de errado nisso.

— Você é uma Santa Guerreira, de uma linhagem específica para o cargo, ordenada por Deus para esse serviço. Olhe para Sam. Por acaso lhe parece que ele é um santo ordenado por Deus? Sei que percebeu que ele parece diferente. Acha que isso é normal para um humano?

— Eu deveria dizer algo a ele.

— Deveria, mas nós dois sabemos que ele não ouvirá você.

— O que eu faço, então?

— Absolutamente nada.

— Castiel! – franzi o cenho.

— Essas são as nossas ordens, Santa Isabella – ele me encarou.

— Por que me trouxe aqui, então?

— Porque eu fui ordenado a fazer isso e não questiono os motivos. Sei que em algum momento as coisas farão sentido.

Senti cheiro fresco de enxofre no ar, o que me distraiu um pouco.

Foi quando a vi.

A cadela ainda estava viva e inteira, plena em outro corpo. Entrou na lanchonete para falar com Sam, elogiando o fato de que ele estava pegando o jeito para a coisa.

Ela enfim conseguiu que ele fizesse o que ela queria.

Como pode ser tão cego e ingênuo a ponto de não notar que isso não pode ser bom, seu idiota?!

Me virei de costas, irritada demais para continuar olhando. Eles me davam nojo.

— Temos mais trabalho por hoje? – perguntei.

— Temos.

— Então vamos logo. Não vamos perder mais tempo aqui.