As coisas começaram a lentamente se organizar. Algumas coisas, na realidade, eu não sabia como haviam se ajeitado, como o fato de que eu e Charlie não estávamos mais dados como desaparecidos. Eu não reclamei, aceitei qualquer que tivesse sido o meio de resolução, porque eu tinha outras preocupações em mente.

Dean, Castiel e eu começamos a estudar como preparação para os testes que precisaríamos para fazer nossos testes de GED.

E nós descobrimos que Cass era um gênio.

Quando Sam percebeu isso, começou a testar Castiel com questões gradualmente mais difíceis, imaginando quando o ex-anjo encontraria um limite, mas era como se ele não encontrasse. Ele não demorava muito respondendo a uma prova escrita, e cálculos eram moleza para ele.

Nós tínhamos, ao que parecia, o novo Einstein em casa?

Muito para a decepção de Sam, Castiel não queria saber de ciências matemáticas. Ele mostrava um grande interesse em ciências naturais – particularmente estudos sobre abelhas e qualquer coisa que as envolvessem de alguma forma. Cass podia ser o que quisesse, já que com aquele conhecimento intrínseco ele era imparável, mas tudo o que o nosso amorzinho queria era algo que não o afastasse muito de nós.

Então, enquanto eu me preparava para estudar teologia, e Dean, culinária, Castiel mostrou interesse na área da educação. Precisamente um interesse em ser professor de jardim de infância – coisa familiar a mim, já que Renée trabalhou na área por algum tempo. Ele acreditava que a chave para que os pequenos humanos se desenvolvessem bem estava em uma boa instrução no começo, e não estava errado.

Nossas vidas agora eram radicalmente diferentes.

Sam, depois de alguns meses, decidiu se mudar de volta para Palo Alto, na Califórnia, para se preparar para sua nova tentativa na faculdade de Direito. Com o QI que tinha, sabíamos que ele conseguiria.

E, conforme nós três planejamos, eu estava grávida de novo. Dean e Castiel eram os pais mais babões que eu já tinha visto. Cuidavam bem de Charlie, sempre brincavam com ela, a incentivando a arriscar seus próprios passos, a falar, e quando souberam que tínhamos um rapazinho a caminho, ficaram ainda mais bobos.

— Você vai ser uma irmã mais velha, Charlie! – Dean disse animado, brincando com Charlie em seu colo. – Você vai ter um irmãozinho!

A questão do nome logo surgiu. Qual nome dar a ele? Castiel pensou em muitos possíveis nomes, todos celestiais, é claro, mas eles não me conquistaram muito. A questão é que não tínhamos muitas ideias para nomes masculinos e a questão ficou em aberto.

Dean e Cass haviam concordado que deveriam providenciar um novo cômodo na casa, um quarto para o mais novo, e foi preciso muita conversa para convencer os dois a chamar especialistas em vez de eles mesmos porem a mão na massa.

No fim, o quarto de Charlie apenas foi aumentado, já que o quarto que costumava ser de Sam estava vazio. Quando eles fossem mais velhos poderiam decidir no jokempô quem ficaria com o quarto.

De uma forma ou de outra, decidimos, por segurança, fazer uma divisão entra a biblioteca e a área das armas. Não sabíamos se seria sábio nos livrarmos delas, mas sabíamos que não queríamos nenhuma delas perto das crianças, então a sala dentro da sala tinha uma fechadura alta e vários cadeados para que ninguém tentasse mexer onde não deveria, e mesmo dentro da sala as armas estavam bem guardadas.

O ano enfim estava terminando. O ano mais louco de nossas vidas.

Dean segurou Charlie para que ela colocasse a estrela na ponta da nossa árvore de Natal, e ela quase não soltou a estrela.

Naquele ano, havíamos comprado uma mesa de jantar maior para acomodar todo mundo para a ceia de natal. Sam logo chegaria com Gabriel e ficariam conosco até o Ano Novo. Quando a campainha tocou, logo fui abrir a porta, mas me assustei ao perceber que não eram eles.

Alexis sorriu amarelo.

— É, sei que não tava me esperando, mas precisamos conversar. Posso entrar?

Um pouco sem reação, acabei lhe dando passagem para que ela saísse do frio. Dean, quando a viu, não ficou muito animado, e Castiel definitivamente ficou assustado.

— Por favor, não me diz que temos trabalho – Dean pediu.

— Não, claro que não. Vocês tão aposentados, eu cumpro as minhas promessas – respondeu ofendida. – Acho melhor se sentarem. É coisa boa, prometo.

Desconfiados, nós quatro nos sentamos na sala de estar enquanto ela ficava de pé.

— Prometi um final feliz pra todo mundo e eu pretendo cumprir essa promessa, mas não é tão simples assim.

— Significando...? – Dean arqueou uma sobrancelha.

— Sendo bem honesta, eu não tava a fim de trazer seus pais de volta, não – ela o encarou. – E sendo mais sincera ainda, eu odeio os dois – fez com que ele arqueasse as duas sobrancelhas, descrente. – John foi um pai horrível pra você e eu ainda tenho vontade de jogá-lo no Limbo por isso.

Dean estava prestes a falar algo quando ela ergueu o indicador no ar, o silenciando.

— Mas, por consideração a você e ao Sam, eu não fiz isso. O que eu fiz foi mandar os pais de vocês pra terapia antes de trazer eles de volta.

Ele pestanejou repetidamente.

— Como é?

— É isso mesmo que você ouviu. Teus pais foram pra terapia, porque de jeito nenhum eu ia deixar aqueles dois palhaços perto de vocês e das crianças se continuassem sendo dois imbecis. Eles estão melhorados agora, mas não totalmente. E se não me falha a memória, eu mandei você e o seu irmão fazerem terapia também – ela semicerrou os olhos em censura.

— Estamos ocupados – ele resmungou, Charlie pulando no sofá, para os braços de Castiel.

— É, percebi. Enfim. E eu não esqueci do Charlie, tá? – ela me encarou. – Conversei com ele e com a Renée a respeito de voltar... – e ela prendeu a respiração por um momento, mordendo o lábio inferior. – Não me odeie, tá?

— Por que eu odiaria? – indaguei.

— Porque a Renée não quis voltar.

— Ela... Não quis?

— Não – suspirou. – Ela tá feliz da vida lá em cima com o Phil – deu de ombros. – Mas Charlie? Ele ficou interessado em voltar, especialmente quando eu disse que ele tinha uma neta com o nome dele e outro neto a caminho! – sorriu.

— Papai voltou? – perguntei ansiosa.

— Bom, tecnicamente nenhum deles tá aqui ainda. Eles voltam à vida oficialmente amanhã, então acalme seu coração, por favor – pediu preocupada.

Assenti, ainda que aquela fosse uma missão impossível.

— E tem outra coisa.

— Tem mais? – Castiel perguntou surpreso.

— Eu trouxe os Cullens de volta – ela disse animada, quase aos pulinhos.

— O que? – eu estava quase chorando.

— Trouxe todos eles de volta, e com um bônus: todos são humanos novamente!

— O Jasper deve estar... – eu ri descrente. – Feliz de não sentir mais sede. E Alice...!

— Alice é de longe a mais ansiosa de todos, e Rosalie está radiante com o fato de que ela e o Emmett poderão fazer seus próprios bebês – ela completou. – Gabriel acha que eu estou interferindo demais fazendo isso, mas sinceramente? – nos entreolhou. – Queria ter feito isso há muito tempo.

— Eu nem sei como te agradecer...!

— Não precisa – ela sorriu sem graça. – Ah, e o Kellan também não quis voltar – mordeu o lábio inferior. – Ele pediu pra te dizer que ele está em paz e que confia que as suas são as melhores mãos pra cuidar da igreja dele. Eu já a registrei no seu nome, aliás.

— Você o que? – arregalei os olhos. – Eu ainda não comecei a estudar teologia.

— Não importa. A igreja é sua. Enquanto não tira sua licença pra propagar seja lá qual for a fé com a qual você se identifica, fique à vontade pra tocar os projetos de caridade. Eles são necessários.

— É, eu sei – desviei o olhar, envergonhada por não ter voltado para igreja durante todo aquele tempo.

— Ah, a propósito... – ela pigarreou. – Os Cullens estão a caminho.

— Sério? – Dean se assustou.

— Eu tentei segurar a Alice, mas vocês sabem como ela é.

— Edward está vindo também? – ele perguntou, claramente incomodado.

— Sério? – o encarei. – Ciúmes dele? Você sabe que eu amo vocês dois – me referi à ele e Castiel.

— Não é isso, benzinho. O cara te perseguia, ele não tem exatamente um bom histórico de comportamento.

— Não tem nada com o que se preocupar com aquele emo – Alexis brincou.

— O que isso quer dizer? – Dean indagou.

— Edward mudou muito, Dean. Ele reconhece que as ações dele foram mais danosas que qualquer outra coisa. E digamos que eu... Talvez tenha... Sabe? Dado uma namoradinha pra ele – ela riu.

— Há quanto tempo eles voltaram? – perguntei confusa.

— Há pouco mais de um mês.

— Por que só me falou agora? – me irritei.

— Porque eles precisavam de um tempo pra se adaptar ao renascimento deles, porque você estava estudando, e porque a Alice decidiu num ímpeto que amanhã vai ser o dia que vocês se veriam de novo – deu de ombros. – Foi mal. Quer que eu diga pra ela vir outro dia?

— O que? Claro que não!

— Tá bom, então, mas se acalma, por favor, tu tá grávida – me encarou seriamente. – Eles vão chegar amanhã, então tudo isso será uma gigantesca reunião de família e amigos. Estão preparados para isso ou preferem que...?

— Não! – Dean e eu nos recusamos prontamente, assustando Castiel.

— Tá tudo bem, sério – eu completei. – Sam, Gabriel, Os Cullens, meu pai, meus sogros, Bobby, Ellen, Jo... Vai ser incrível.

Alexis se esticou um pouco, olhando para a sala de jantar.

— Essa mesinha ali não vai dar pra todo mundo.

Estalou os dedos e em um instante, a sala de jantar havia dobrado de tamanho, bem como a mesa e a quantia de cadeiras.

— E como eu gosto de mimar vocês, saibam que seus pais já estão com residência própria garantida – ela disse confiante. – Então é isso! – deu de ombros. – Feliz Natal pra vocês todos – acenou.

— Espera! – pedi, me levantando do sofá.

Apesar de todas as coisas que haviam acontecido, eu ainda devia aquilo a ela. Me aproximei, a abraçando.

— Obrigada. Por tudo.

Ela me deu dois tapinhas nas costas.

— Por nada, querida.

— Eu... – Dean chamou nossa atenção, pigarreando enquanto se levantava. – Eu devo um pedido de desculpas por não ter confiado em você.

— Ah, não esquenta com isso – ela riu desconcertada. – Eu também não teria confiado em mim.

— De uma forma ou de outra, você nos deu a chance de ter uma vida. De ter uma casa, uma família... E por mais que eu queira acreditar que o eu de anos atrás não faria questão dessas coisas, eu sei que não é verdade. Então... Por essa vida, obrigado.

Ela mordeu o lábio inferior, assentindo, e então...

Um gesto inesperado.

Dean se aproximou e a abraçou. Isso pegou a todos nós de surpresa.

Mais ainda quando ela o abraçou de volta e firmemente. Dean geralmente se recusava a dar longos abraços em pessoas com quem ele não costumava interagir, mas os dois passaram um longo tempo naquele abraço antes de ele enfim se afastar. Alexis estava com os olhos marejados.

— Você tá bem? – Castiel perguntou a ela.

— Uhum – ela murmurou, claramente tentando não chorar.

— Chegamos na hora do abraço coletivo? – ouvi a voz de Gabriel, que adentrava a sala de estar acompanhado de Sam. – Oi, Lexi! – ele se aproximou para abraçar a escritora.

— Oi, chuchu – o abraçou de volta e então o soltou. – Oi, Sam.

— Oi – Sam sorriu, também a abraçando.

Logo ele se virou para mim, também me abraçando, e abraçando Dean. Assim que Charlie o viu, começou a dar pulinhos para que ele a segurasse, e assim ele o fez.

Ouvimos alguém pigarrear, no que nos assustamos ao constatar que era Crowley.

— O que tá fazendo aqui? – Dean questionou.

— Não precisa ficar na defensiva, esquilo. Só vim buscar minha rainha – sorriu. – Estamos atrasados, querida.

— Ah, eu tinha me esquecido – fez uma careta assustada. – Bem, é isso – nos entreolhou. – Feliz Natal adiantado, blá, blá, blá – revirou os olhos. – Não bebam demais, se comportem, etecetera – disse enquanto se aproximava de Crowley. – Até mais!

E ambos sumiram no ar, no que Sam logo constatou que havia alguma coisa que ele não sabia.

— Impressão minha ou um furacão passou por aqui?

— Sammy, senta aí – Dean indicou o sofá. – Tem umas coisas que você precisa saber.