Notas iniciais
fiz uma one-shot do Sam com o Gabriel que se passa antes desse capítulo aqui o link, caso alguém queira matar a saudade do ship https://fanfiction.com.br/historia/801751/Love_Me_Again/

Tudo estava estranho agora.

Nenhum de nós se olhava mais da mesma maneira. Eu sempre imaginei que descobrir mais do que eu sabia me deixaria perturbada, mas o que ela havia nos contado havia mexido com a cabeça de todo mundo.

Saber que havia um plano que não podíamos controlar era uma coisa, mas saber como era o plano era bem diferente.

Dean, especialmente, não estava nada feliz. Não gostou do plano suicida, e a ideia de ficar preso em uma jaula com os dois arcanjos mais filhos da puta que existiam não melhorava sua ansiedade, e nem o ajudava a confiar na estranha. Sam, por outro lado, tentou enfrentar a situação com mais frieza, já que não estávamos sozinhos naquilo, e tentou relevar a parte em que Gabriel havia escondido o que sabia da gente.

Depois de deixarmos a casa a prova de demônios e depois de Castiel nos ensinar a banir anjos quando fosse preciso para o caso dos saquinhos de bruxa não funcionarem, decidimos ficar quietos.

Eu aproveitava meu tempo com Charlie. Era bom apenas estar com ela em meus braços, conhecer aquela criaturinha bochechuda que sorria quando estava sonhando. Castiel dizia que ela sonhava conosco, e que sorria quando ouvia nossas vozes. Seus cabelos eram de um castanho quase loiro, provavelmente puxando aos de Dean, e seus olhos eram do mesmo tom de chocolate que os meus.

E, talvez porque os dois fossem igualmente geniosos, quando ela chorava sem parar, por algum motivo que não entendíamos, Dean era o único que conseguia acalmá-la. Ele se gabava muito com isso, e não era pra menos, porque Charlie, quando chorava, chorava muito.

Mas uma das coisas que mais o deixaram feliz naquilo tudo era saber que seu nome estava na certidão de nascimento dela. Eu já havia voltado a usar meu nome verdadeiro, também, porque, aparentemente, quando os anjos queriam, eles ajudavam e muito com certos problemas.

As coisas gradualmente começavam a se ajeitar em casa.

A maior prova disso foi quando eu estava na cozinha, finalmente comendo algo entre as pausas que Charlie me dava, e Sam deu as caras, parecendo desconfortável.

— Algum problema? – perguntei enquanto ele se aproximava.

— É, acho que sim.

— Posso ajudar?

— Na verdade, eu... Preciso me desculpar com você.

Segurei minha vontade de dizer que ele não precisava e que estava tudo bem. Nós não tínhamos uma conversa de verdade há meses, então deixei que ele falasse.

— Eu fui um completo imbecil com você – ele suspirou, desviando o olhar, provavelmente com vergonha de si mesmo. – E não tem nada que justifique o que eu fiz e o que eu falei. Chamei você de covarde, mas o covarde era eu. Eu te deixei e fugi, banquei o suicida e fiz um monte de coisas das quais eu me arrependo agora. Só queria... Me desculpar. E eu vou entender se você não quiser mais olhar pra minha cara, mas eu sinto muito por tudo, porque, destino ou não, eu ainda fiz aquelas escolhas, e foram as piores que eu poderia ter feito. Eu sinto muito por ter sido o pior melhor amigo e o pior cunhado do mundo quando você mais precisou de mim.

Eu assenti em silêncio por um momento, absorvendo suas palavras e a sinceridade nelas. A verdade era que, frente à tudo que estava a caminho, aquilo parecia pequeno, o menor dos problemas. Larguei minha caneca de café com leite e me levantei, me aproximando para abraçá-lo.

E como era bom abraçá-lo sem que ele estivesse queimando! Sam me abraçou de volta, como há muito tempo não fazíamos, e o alívio em sentir que estávamos finalmente nos entendendo foi tamanho que eu não consegui conter as lágrimas. Eu estava feliz de finalmente estarmos nos reaproximando. Éramos uma família, afinal.

— Me desculpa, Bella – ele encostou a cabeça à minha.

— Tá tudo bem, Sammy. Me desculpa, também. Eu fui terrível.

— Não, eu mereci – ele riu sem jeito, fungando. – Eu mereci.

— Eu tenho que perguntar... – me afastei para fitá-lo. – Isso tem alguma coisa a ver com o meu patrono?

— É, tem – ele riu sem jeito, enxugando as lágrimas. – A gente... A gente se entendeu, também.

— Vocês voltaram? – me animei.

— É, voltamos.

— Isso! – o abracei forte, quase o derrubando por um momento. – Amém, Senhor!

— Shhh!

Logo ouvimos Dean se aproximando, o cenho franzido em irritação.

— Charlie finalmente dormiu, seus barulhentos – nos censurou e então se assustou. – Vocês tão chorando? O que tá pegando? Quem morreu?

— Ah, ninguém, a gente só... A gente fez as pazes – expliquei.

— Ótimo – ele assentiu. – Tava na hora mesmo.

— Também te devo desculpas, Dean.

— Não, Sammy, relaxa, tá tudo bem. Sério.

— Que bonitinho vocês todos se acertando.

Nos viramos assustados ao ouvir a voz de Gabriel na cozinha. Obviamente a primeira coisa que ele fez foi comer um pedaço da torta que Dean havia feito e deixado para esfriar na dispensa, e nem fez cerimônia. Dean o encarou com os lábios franzidos e as mãos na cintura, descrente com a audácia do arcanjo.

— Nossa, Dean, essa aqui tá perfeita! – ele sorriu. – Tá boa mesmo, já pode abrir uma padaria só pra vender essa belezinha aqui.

— Valeu? – perguntou confuso. – Qual é a ocasião especial que te trouxe aqui?

— Vim roubar a sua esposa rapidão – deu uma piscadinha. – Treinamento, bora.

— Agora? – arqueei as sobrancelhas.

— Meu bebê, é uma questão de dias até o primeiro Cavaleiro dar sinais claros de onde tá, a gente não pode perder tempo, não. Vambora! – ele saiu da cozinha, dando um tapa no traseiro de Sam enquanto passava, o que deixou o grandão com as bochechas vermelhas.

— Peraí, eu preciso me trocar antes!

— Não precisa, não – ele estalou os dedos.

Quando percebi, estava com uma variação dos vestidos que eu costumava usar.

— Tá ainda mais gata, benzinho – Dean sorriu.

— Sem tempo pra flerte! – Gabriel chamou a nossa atenção.

— Volto depois – sorri para os dois antes de seguir Gabriel escadas abaixo para a biblioteca.

Tal como havia prometido, a estranha colocou mesmo uma porta lá. Gabriel, agora mais sério, me parou antes de abri-la.

— Tem uma coisa que precisa entender sobre essa sala.

— Okay... – estranhei seu tom.

— O tempo flui diferente aqui dentro, isso é proposital. A gente não tem nesse mundo o tempo necessário pra te deixar em forma a tempo de irmos para a batalha. Não precisa se preocupar com efeitos colaterais, você não vai envelhecer fisicamente e a sala não vai afetar seu corpo, não vai atrapalhar você e a Charlie. O que eu quero que entenda é que a Bella que vai sair daqui talvez não seja a mesma Bella que vai entrar.

— Tá me assustando, Gabriel.

— A intenção é só de te deixar ciente. Você precisa alcançar seu potencial aqui dentro. Na prática, matar demônios aqui fora te deixaria mais forte, mas não temos tempo pra isso aqui. Nessa sala é diferente. Teremos todo o tempo do mundo pra te deixar pronta pra tudo. Digamos que vai entrar como uma santa graduada e vai sair daqui com um doutorado, entendeu?

— Certo – assenti, respirando fundo.

— Vai botar aquele bando de olhos pretos pra correr – ele sorriu. – Vai colocar ordem na casa, assim como a gente.

Engoli a seco, olhando para trás uma última vez. Quanto tempo passaria aqui fora? Charlie era a minha maior preocupação na questão de ausência, apesar de eu ter estocado meu leite para ela na geladeira.

— Não se preocupe, ela vai ficar bem – ele tentou me tranquilizar. – Pronta? – pôs a mão na maçaneta.

— Pronta – assenti.

Gabriel abriu a porta que nos levava à completa escuridão e nós dois entramos.