Eu sempre imaginei que Charlie me daria trabalho na hora de nascer, por ser a minha primeira, mas imaginar que ela me faria passar por aquele martírio...

Faltava um dia para o Dia dos Namorados. Oficialmente, aquela seria a primeira vez que Dean e eu comemoraríamos a data.

E Charlie já dava indícios de que queria chegar.

A princípio, eu não estava alarmada com contrações, porque sabia da existência de falsos alarmes, as contrações de treinamento, que não necessariamente conduziriam ao parto, mas meu desconforto não diminuía com o tempo.

Eu não queria alarmar ninguém, então tentei lidar com o meu desconforto sozinha. Charlie não deveria nascer naquele período, ainda faltava algum tempo para a data prevista do parto, então eu não disse nada quando Sam e Ruby apareceram como uma pista sobre o paradeiro de Lilith.

Sam rapidamente começou a fazer as malas com Ruby enquanto Dean e eu nos entreolhávamos, ele na cozinha, preparando o café da manhã, e eu em baixo de um manto, sentada no sofá da sala, me aquecendo de frente para a lareira acesa.

Quando Sam e Ruby voltaram, ele nem mesmo hesitou:

— Me liguem quando tiverem certeza – Dean os disse.

— Não vem com a gente? – Sam franziu o cenho, a mochila em mãos, pronto para passar pela porta.

— Não vou deixar a Bella sozinha, cara.

— Dean, vai – o encorajei. – Não se preocupa com a gente, Anna está comigo.

— Ela não está aqui agora.

— Ela está fazendo a ronda dela. É sério, pode ir, não deixa eu te prender aqui.

— Falta pouco tempo pra Charlie nascer, eu não vou te deixar só.

— Se alguma coisa acontecer, Anna me leva pro hospital. É sério, não se preocupa com a gente. É uma pista fresca da Lilith, vocês precisam trabalhar nisso juntos. Dean, vai, por favor, Sam precisa de você nisso.

E Sam claramente estava desconcertado em me ouvir falar daquela forma. Algum lampejo de culpa escondido em seu rosto ilustrava que, apesar de ele querer o irmão naquela caçada, também entendia o nervosismo dele em ficar.

Dei meu melhor para disfarçar uma onda de dor quando senti uma contração chegando, me virando de frente para a lareira, respirando fundo, contando até dez.

— Bella? – ouvi Sam me chamar.

Engoli a seco, me virando para olhá-lo.

— Hm? O que?

— Tá tudo bem? – ele franziu o cenho.

— Sim, claro – tentei disfarçar. – Só tô com frio.

Se ele havia comprado a mentira eu não sabia, mas Ruby sabia que eu estava mentindo e guardou pra si. Dean ainda estava em cima do muro, terminando de preparar ovos fritos e bacon para o café quando Sam o olhou fixamente, esperando por uma resposta. Irritado, ele desligou o fogão e tirou seu avental da cintura.

— Me dá dois minutos.

Enquanto Dean pegava o que precisaria para a viagem, Sam foi até a cozinha, desligando a cafeteira para encher uma caneca, misturando com leite e adicionando açúcar. Tirou as torradas da torradeira, colocando-as com os ovos e o bacon e trazendo tudo para mim. O encarei com surpresa, no que ele logo se defendeu.

— Que foi? Não posso fazer uma gentileza?

— Claro que pode. Eu só não... Esperava – disse enquanto aceitava o prato.

— Mas tá tudo bem mesmo ele ir? – franziu o cenho.

— Claro – assenti.

— Bella, eu percebi a cara que você fez – admitiu. – E eu sei que isso já tem uns dias. Vou perguntar de novo: tá tudo bem pra você se ele vier com a gente?

— Tá – assenti de novo, engolindo a seco, desviando meus olhos para o prato em meu colo. – Pegar a Lilith e acabar com isso é mais importante, sério. Vão, vocês, e cuidem uns dos outros.

Dean saiu do quarto com uma mochila, me olhando com preocupação. Se aproximou, beijando minha testa, afagando minha barriga uma última vez.

— Qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, me liga – me encarou. – Vou perturbar aquele bando de frangos celestiais pra ficarem de guarda, juro por Deus.

— Relaxa, Dean – ouvimos a voz de Anna, logo atrás de mim. – Vou cuidar dela. Sou a guarda-costas número um dela agora, lembra?

— Tá, não dá bobeira, não, hein? Diz pro Castiel ficar esperto, a gente vai pra Maryland. Convento de Santa Maria.

— Tudo bem, vou informá-lo.

— Eu te amo – ele me beijou e então se afastou. – Voltamos assim que der.

— Boa sorte.

— Vou trazer a cabeça dela numa bandeja pra você – Dean deu uma piscadinha.

— Por favor, não – eu ri.

— Nos vemos depois – Sam o seguiu para a garagem, assim como Ruby.

Anna se sentou ao meu lado, me fitando com as sobrancelhas arqueadas, inquisitiva como sempre.

— Por que não contou pra ele?

— Não quero que ele se preocupe com a gente logo agora – mordisquei uma torrada. – Estamos há meses sem saber onde ela tá escondida. Não quero atrapalhar.

— O que o Sam vai fazer com a Lilith... A quantidade de sangue de demônio que ele vai ter que beber pra ter poder suficiente pra matá-la... Isso vai mudá-lo, Bella.

— Imaginei que sim.

— E eu não sei dizer... Se você, no estado em que está, conseguiria consertar o dano que ele fará em si mesmo. É um dano grande demais até mesmo para um anjo consertar.

— O que está dizendo?

— Que talvez Deus precise intervir nisso – ela me encarou. – Talvez... Talvez só Deus possa fazer o Sam voltar a ser o que era antes.

— Bela maneira de tranquilizar uma grávida, valeu – suspirei, continuando a comer.

— Sei que não é o que deveria ouvir agora, mas considerando o cenário em que a gente tá agora... Precisa entender que é uma situação grave, e que é reversível, mas que não será fácil. É preciso ter mais do que apenas fé agora, Bella.

Obviamente. Era uma questão de fé, conhecimento, habilidade e muita, muita força de vontade.

E eu não tinha ideia de onde tiraria aquilo tudo.

As horas passavam, a neve continuava caindo, e eu continuava com um crescente mal-estar. Apesar de já poder respirar melhor, o que, segundo Anna, se devia ao fato de Charlie já estar bem encaixada dentro de mim, as cólicas só pioravam.

Comecei a me preparar para a eventualidade de precisar ir ao hospital. A ideia por si só me fazia suar frio, mas eu não tinha para onde fugir.

Escolhi as roupas mais confortáveis que eu tinha comprado e tudo o que eu precisaria levar, além de fazer a mala da Charlie.

— Está tudo bem aí? – Anna abriu a porta do quarto.

— Dentro do possível, eu acho. Notícias lá de fora?

— A guarnição está ocupada hoje. Os demônios estão agitados, o que significa que a Lilith realmente está fazendo algo grande. Castiel está escoltando Sam e Dean pessoalmente pra que ninguém se meta no caminho e atrapalhe.

— Bom. Bom que faça isso.

Senti outra contração chegando, uma cólica desgraçada que me deixava cada vez menos tolerante à dor. Anna se aproximou de mim, afagando minha barriga, e a dor logo passou.

— Os intervalos das suas contrações estão começando a diminuir – me ajudou a sentar. – Charlie vai nascer em breve, Bella.

Engoli a seco, sentindo um arrepio.

— Tá brincando, né?

— Não, e você sabe melhor que eu.

— Vou completar 37 semanas amanhã. Não é um pouco cedo?

— Não necessariamente. Mas ei, se ela quer vir... – deu de ombros. – Não há nada que possamos fazer.

— É a pior hora pra isso.

— É, bem... Me avise quando estiver pronta para ir.

— Tá bem – respirei fundo.

Mas a verdade era que pensar em ir para o hospital somente com Anna ao meu lado não era uma ideia reconfortante. Queria Dean e Castiel comigo, queria estar cercada da minha família e me sentir segura.

Em vez disso, Lilith estava no caminho, atrapalhando nossas vidas.

Já era noite. As dores não diminuíam, mesmo que Anna as fizesse passar por algum tempo, e mesmo quando eu dormia ainda estava cansada.

Então eu senti.

Senti quando se rompeu. Foi o que me acordou, fazendo eu me levantar da cama assustada, chamando por Anna.

E Anna não veio.

Anna... Não veio.

— Anna?! Castiel?!

As luzes começaram a piscar. Engoli a seco, nervosa, procurando pelas armas que mantínhamos nas mesinhas de cabeceira. Peguei meu facão de ferro e corri para a cozinha para pegar o sal grosso e começar a colocar nas portas e janelas do quarto, mas eu não conseguia me abaixar tão rápido.

Ouvi uma porta se abrir violentamente e só tive tempo de pegar a espingarda de sal em baixo da cama.

Vi o demônio entrar no quarto e me preparei para atirar, então Anna surgiu logo atrás dele, enfiando sua espada na garganta dele.

— Onde você estava?!

— Na ronda, ocupada – ela se aproximou, me ajudando a levantar. – Tem um monte de demônios vindo pra cidade e eu não sei o motivo. Precisamos sair daqui agora mesmo.

— Anna, minha bolsa estourou!

Ela ficou ainda mais pálida do que já era.

— Não podemos ir a um hospital. Os demônios vão nos seguir até lá, vai colocar todo mundo em risco. Solo sagrado, santuário.

— A igreja – eu sugeri.

— Certo – ela pegou as bolsas que eu tinha deixado prontas. – Vamos embora.