Winds of Fortune
24 Capítulo 23
Greybull, Wyoming.
‘‘E ele acabou com a Morte sob o novo céu. Tinha gosto doce, mas amargo quando devorada’’.
Em outras palavras: matar um Ceifador sob a lua do solstício. Revelações. Mais um selo, conforme Anna e Castiel suspeitavam.
Sam sugeriu que investigássemos primeiro sobre o caso de um homem que levou um tiro de uma arma de 9mm e não morreu. Eles foram conversar com o mesmo, mas não conseguimos nenhuma informação relevante. Ele não fizera um pacto, não cruzara com um demônio...
— Não entendo o motivo da Anna ter dito que tinha demônio envolvido nisso – ele resmungou quando voltou para o carro. – Não tem nenhum vestígio de demônio.
— Nenhum que vocês percebam – completei. – Porque o enxofre tá na brisa – comentei enquanto observava a cidade. – Tem demônio metido nisso, sim, pode apostar.
— E onde é que eles estão? – Dean perguntou enquanto dava a partida.
— Te aviso quando ver um.
— Acho que tá na hora de fazer uma visita à família do garoto – Sam olhou para Dean, que logo franziu o cenho.
— Tá doido? A gente vai falar o que pra ela? ‘‘Ah, oi, gostaríamos de saber se a senhora notou alguma coisa demoníaca na sua casa quando o seu filho morreu’’! A gente não tem nem pretexto pra bater na porta dela, a morte do garoto não foi suspeita, nem nada disso.
— Mas precisamos verificar a casa assim mesmo – eu apoiei a ideia. – Pode ter vestígio de alguma coisa.
— Se o ceifeiro local sumiu, talvez o garoto ainda esteja aqui – Sam me olhou.
— Exatamente.
— E o que exatamente quer fazer? – Dean indagou.
— Se ele ainda estiver por perto, vou perguntar o que ele sabe e mandá-lo pro descanso – dei de ombros.
Cole Griffith foi a última pessoa a morrer na cidade, um adolescente que morreu em decorrência de um ataque de asma. Um luto recente como aquele poderia ser um problema na hora de lidar com sua mãe.
Dean estacionou em frente à casa, nós três ainda sem sair.
— Qual é o plano? – Dean nos olhou.
Sam abriu a boca, mas logo a fechou, dando de ombros.
— Benzinho? – me olhou pelo retrovisor. – Tem um plano?
— Tenho.
— Ótimo, e qual é?
— Entrar lá e falar a verdade.
— Tá zoando, né?
— Não, não tô – respondi enquanto olhava pra janela do andar de cima da casa. – O garoto tá lá e sabe que eu o vi.
— E se ele se irritar?
— Ele vai se irritar se você entrar com uma espingarda de sal pra atirar nele, e pode apostar que a mãe dele também não vai gostar – suspirei. – Ainda bem que eu vim de uniforme – chequei minha ‘‘batina’’.
— O que quer que a gente faça? – Sam se virou para mim.
— Me esperem aqui. Ela vai ficar assustada se um bando de estranhos aparecer lá. Rezem à Cass e Anna, perguntem o que eles descobriram.
— Mas...
Eu abri a porta e saí, depois de me certificar de que nenhum carro estava passando e atravessei a rua até chegar na casa, onde bati na porta.
Não surpreendentemente, fui recebida pela mãe do garoto.
— Posso ajudá-la? – perguntou, os olhos vermelhos, olheiras fundas em baixo dos olhos, e a palidez típica de alguém abatido.
— Sim, bem – pigarreei. – Isso vai parecer meio estranho, mas estou aqui para falar com o seu filho.
Uma situação realmente tensa, aquela. Eu aparecer do nada, uma completa estranha, para falar sobre o filho falecido dela, que eu por acaso conseguia ver e ouvir claramente enquanto conversava com ela.
Tentei parecer o mais genuína possível, dizendo que era auxiliar de um padre em uma igreja em Lawrence, e que tinha uma certa mediunidade, o que não era mentira, mas até que o filho dela me contasse algo sobre si que eu, uma estranha, não teria como saber e falar para ela, ela não tinha acreditado.
Eu contei o máximo que podia da verdade. Que havia espíritos malignos por perto e que eu queria proteger a alma de seu único filho, o enviando para o Céu, onde era o lugar dele.
E o rapazinho, um amor de pessoa, me contou sobre os demônios, sobre o momento em que os viu levarem o ceifador que estava ali para levá-lo. Ele se recusou a ir e deixar a mãe, e logo o ceifador foi sequestrado.
Então ele continuava ali, porque até então, nenhum outro ceifador havia chegado.
Nenhum outro até aquele momento, quando as luzes começaram a piscar e o garoto fugiu de vista. Só o reencontrei de novo em seu quarto, e correr escadas acima não era uma coisa que eu gostei muito de fazer, e que definitivamente assustou a mãe dele, mas ali estávamos.
O garoto escondido em seu armário e eu à sua frente, barrando a ceifadora que havia dado as caras para levá-lo.
— Santa Isabella – ela se aproximou, meneando a cabeça em sinal de... Respeito? – À que devo a honra da sua presença?
— Como sabe quem eu sou?
— Como eu poderia não saber? Você fez o trabalho de muitos colegas meus, mandando almas diretamente para onde deveriam ir. Além do mais, é uma Santa. Todo mundo sabe sobre você.
— Você é uma Santa? – o garoto me perguntou.
— Sim, longa história – me voltei para ele rapidamente.
— Mas, se não se importa, eu estou aqui para fazer o meu trabalho.
— Tá, legal, eu não tô aqui pra te impedir, mas você precisa saber que o ceifador daqui foi pego por demônios. Você não tá segura aqui, precisa ir embora.
— Ah, deixa eu adivinhar: o lance de anjos e demônios? Eu não ligo.
— Pois deveria, porque o seu tá na reta! Desculpe o linguajar – me desculpei com a mãe do garoto. – Sério, moça, saia da cidade, por favor. Nos deixe resolver o problema primeiro e então vocês podem fazer o que tem que fazer.
As luzes começaram a piscar de repente, e um tremor tomou conta da casa.
— Eles estão aqui! – o garoto gritou assustado.
Me coloquei na frente da mãe dele assim que vi a nuvem de demônios adentrar o quarto. Abri meus braços para mantê-los longe dos dois, mas não consegui evitar que a ceifadora fosse tomada e levada por eles.
O cheiro de enxofre logo inundou o quarto de Cole, mas ao menos os dois estavam à salvo.
— A senhora está bem? – ajudei-a a levantar do chão.
— O que foi aquilo?! – perguntou assustada.
— Demônios, senhora – não havia motivos para mentir. – Levaram a ceifadora que estava aqui para levar o seu filho.
— Eu não entendo... – franziu o cenho.
— Não precisa se preocupar com isso. Cole – o chamei, abrindo o armário. – Está tudo bem agora, pode sair.
— Ele está mesmo aqui? – ela perguntou aflita.
— Está. Ouçam, vocês dois – os entreolhei. – Eu realmente sinto muito pelo que aconteceu, mas Cole, você não pode ficar aqui. Está na hora de se despedirem. Me dê sua mão – estendi a minha a ele.
— Por que? – ele franziu o cenho.
— Apenas confie em mim.
Receoso, ele segurou minha mão, e então eu toquei o ombro de sua mãe. Ela arfou assustada quando enfim o viu.
— Meu menino...! – ela começou a chorar.
— Mãe? Você pode me ver?
— Eu posso! – ela se aproximou para abraçá-lo por um momento.
Não chora, não chora, não se desconcentra— engoli a seco.
— Mãe, me desculpa – ele chorava nos braços dela. – Eu não deveria ter ficado lá fora! Eu não consegui tomar o remédio a tempo!
— Tá tudo bem, querido – ela o abraçava com força. – Me desculpe por não ter te ouvido, eu sinto muito!
— O que aconteceu foi uma infelicidade – suspirei. – Não é culpa de nenhum de vocês. Precisam aceitar isso e seguir em frente. Precisa deixá-lo ir – a fitei. – E precisa se desapegar desse plano – o olhei. – Sinto muito, mas aqui não é mais o seu lugar.
— E pra onde eu vou agora? Pro Céu? Como?
— Eu o mandarei pra lá.
— Pode fazer isso?
— Posso. Tá na hora de se despedirem.
Dei a eles algum tempo para se abraçarem e dizer um ao outro tudo o que precisavam botar pra fora, e então ordenei a alma do garoto a ir para a luz, no que ele foi tragado para ela na nossa frente.
Sua mãe estava em choque, é claro, e tive que ajudá-la a se sentar para que se recuperasse e conseguisse falar de novo. Ela me acompanhou para o andar de baixo, onde demos de cara com Sam e Dean e tive que explicar a ela quem eles eram.
— Nós vimos aquele monte de demônios entrando aqui e não conseguimos passar pela porta antes – disse Dean. – Vocês estão bem?
— Sim, mas a ceifadora que veio para levar o Cole foi levada pelos demônios.
— Castiel sabe onde ela tá, precisamos ir.
— Tudo bem. A senhora está bem? – afaguei as mãos dela uma última vez.
— Não – respondeu com os olhos marejados. – Mas vou ficar – sorriu um pouco. – Obrigada – ela me abraçou, no que eu a abracei de volta, tentando consolar sua alma, ao menos um pouco.
Nos despedimos dela, retornando ao Impala, no que Sam me olhou curioso.
— O que fez com o garoto?
— O mandei para a luz – dei de ombros. – Para o Céu, onde é o lugar dele.
— Consegue mandar almas diretamente pro Céu e pro Inferno?
— Vai me dizer que não tinha percebido isso até agora? – quase revirei os olhos.
— Ganhou bastante autoridade – ele fez um biquinho. – Tá poderosa, hein?
— Não tanto quanto eu gostaria, mas dá pro gasto. Então, pra onde estamos indo?
— Pra funerária da cidade – disse Dean. – Ela está a prova de anjos, então vamos ter que ir nós mesmos pegar aquele bando de arrombados. Tem certeza de que quer fazer isso? Pode ser perigoso.
— Enquanto estivermos juntos, tudo ficará bem – sorri, afagando minha barriga. – Vamos resgatar uns ceifadores.
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