Nossa próxima parada era a igreja onde o pai de Anna era diácono. Os vitrais combinavam com os desenhos dela.

Trocamos de roupa rapidamente antes de irmos até lá, Sam e Dean indo na frente, armados, e eu atrás, atenta à possível presença de demônios na nossa cola.

Subimos a um andar da igreja que servia de depósito, entregue às traças e à poeira. Atrás de um vitral de santo, avistei alguém. Pedi aos dois que guardassem suas armas.

— Anna? Anna Milton? – me aproximei um pouco, esperando que ela respondesse. – Não tenha medo, não estamos aqui pra machucá-la. Meu nome é Bella, e este é Dean, meu marido, e Sam, meu cunhado.

— Winchester? – ouvimos sua voz tímida.

— Isso – respondemos juntos.

— Santa Isabella Winchester?

— É – confirmei, trocando um olhar confuso com eles.

Ouvimos passos e logo Anna saiu de onde estava escondida.

— Você é o Dean? – olhou para ele. – O Dean?

— É, eu sou – franziu o cenho.

— Ai, meu Deus. Os anjos falam de você – ela começou a se aproximar de nós. – Que foi pro Inferno, mas Castiel tirou você. Alguns acham que você pode nos salvar. E alguns não gostam de você – ela disse a Sam, que logo ficou desconcertado.

Nem imagina o motivo, não é, seu sonso?— pensei enquanto o encarava.

— E você – ela se aproximou de mim. – É a primeira Santa Guerreira em séculos – sorriu pra mim. – Matou um cão do inferno com as próprias mãos e têm lutado ao lado de Castiel. Conseguiu o milagre de converter e salvar um demônio, permitindo que sua alma fosse levada pela própria Virgem Maria.

Eu apenas assenti, mordendo o lábio, no que Sam e Dean me olharam assustados.

— Os anjos a amam muito – ela segurou minhas mãos. – Admiram sua bravura, mas temem a sua desobediência por amar demais a sua família.

— Oh... – desviei o olhar, sem saber o que dizer.

— Até parece que eu os conheço – ela sorriu sem graça.

— Você fala com os anjos? – Dean perguntou.

— Ah, não, não mesmo, eles nem devem saber que eu existo. Eu só escuto as conversas. Eles falam e às vezes eu escuto na minha mente.

— Tipo agora?

— Não, não nesse momento, mas em outros. Não posso evitar, são tantos!

— Então eles internaram você achando que era louca, mas na verdade você só sintonizou a rádio dos anjos?

— É isso. Obrigada – disse ela, no que Dean franziu o cenho, sem saber como reagir.

— Anna, você se lembra quando começou a ouvir os anjos? – Sam perguntou.

— Eu lembro a data exata. 31 de maio.

— O dia em que eu saí do Inferno – os dois se olharam.

— As primeiras palavras ouvi claramente. ‘‘Dean Winchester foi salvo’’ – ela sorriu.

— Pelo menos agora sabemos porque os demônios querem você – Dean a olhou. – Você é o 0800 dos anjos. Se os demônios te pegam, vão saber o que o outro lado tá planejando.

— Precisamos tirar ela daqui – disse a ele. – Precisamos levá-la pro Bobby, o quarto do pânico vai ser seguro pra ela.

— Vocês tão com a garota? – ouvimos Ruby falar. – Ótimo, vamos embora daqui!

Anna imediatamente recuou, com medo do rosto da demônio, e eu logo fui atrás dela, segurando suas mãos para acalmá-la.

— Também vê o rosto dela? – perguntei a ela enquanto os outros discutiam.

— Eu vejo o de todos eles. Eu vejo o seu, banhado em luz, e auréola em sua cabeça – ela tentou sorrir, mas estava nervosa.

— O demônio seguiu vocês – Ruby chamou minha atenção. – Nós temos que ir agora!

Mas eu já podia sentir uma presença sufocante no recinto. O cheiro de enxofre fresco, a atmosfera ao nosso redor ficando mais quente. Sam apontou para a estátua da Virgem Maria em um canto, e ela vertia lágrimas de sangue.

— Tarde demais – Ruby reclamou. – Ele já está aqui.

Me coloquei à frente de Anna instintivamente, Ruby, Sam e Dean à nossa frente, sem saber o que esperar.

Castiel, precisamos de ajuda. Por favor, nos ajude.

A porta foi violentamente arrombada e o horror que passou por ela eu desconhecia o nome. Tinha uma aparência muito pior que a de qualquer outro demônio que eu tinha visto até então. Não era um soldadinho qualquer. Aquele parecia ser um dos generais.

Sam tentou exorcizá-lo com a mente, mas o demônio fez pouco caso disso, pigarreando para mostrar que a tentativa dele não lhe fazia sequer cócegas. Eu tinha poder para ao menos feri-lo, mas não podia deixar Anna desprotegida se outros demônios aparecessem, e não podia arriscar Charlie. Eu não sabia contra quem estaria lutando.

O demônio lançou Sam escadaria abaixo e Dean, com a faca de Ruby, entrou em luta corporal contra o demônio.

Foi quando Castiel finalmente deu as caras, pegando o demônio pelo pescoço e o lançando para longe de Dean.

— Saiam daqui! – ele ordenou, e não pensamos duas vezes em obedecer, escoltando Anna e ajudando Sam a se levantar nas escadas para irmos pro Impala.

Dean dirigiu a toda velocidade sem olhar pra trás. Ruby o instruiu a pegar a estrada para uma cabana abandonada onde poderíamos nos esconder por um tempo, um lugar que ela já tinha preparado antes para esconder a Anna quando a encontrássemos. Ruby foi na frente pra se assegurar de que não teríamos companhia.

E eu só conseguia imaginar se Castiel estava bem.

Pra variar, quando Anna perguntou sobre os pais, nós precisamos contar a verdade, e sobrou pra mim a tarefa de consolar a pobrezinha. A abracei a viagem inteira e nós rezamos juntas pelas almas de seus pais. Eu podia entender perfeitamente como ela se sentia e odiava que ela tivesse que sofrer como eu.

Maldita vida injusta.

Chegamos à cabana com o cair da noite, Ruby nos recebendo, mostrando que estava preparada para se proteger dos demônios.

Mas tinha algo errado ali e eu só percebi quando Anna ficou alarmada de repente, dizendo que tinha gente chegando quando eu só conseguia sentir a presença de Castiel e outro anjo se aproximando de nós.

Para que ela não ficasse mais alarmada sem necessidade, nós a colocamos no quarto dos fundos e eu esperei que Castiel chegasse e se explicasse.

A porta se abriu em um estrondo. Castiel entrou, com uma expressão séria e nada boa no rosto, e outro anjo entrou em seguida, provavelmente um de seus subordinados.

— Viemos buscar Anna.

— Preciso de uma explicação melhor que essa.

— Cale essa boca – o outro anjo me repreendeu.

— Não tô falando com você, seu mal educado – e me voltei para Castiel. – O que tá acontecendo? Quais ordens foram dadas?

— As ordens são de vocês nos entregarem Anna.

— Por que? – Dean perguntou.

— Ela tem que morrer.

— Desde quando nós matamos civis inocentes? Ela não tem culpa de ouvir vocês, ela não pediu por isso!

— Ela está longe de ser inocente, Isabella.

— Nós não temos que nos explicar para esses macacos! – o outro anjo se intrometeu.

— SILÊNCIO! – gritei com mais intensidade do que gostaria, liberando energia o suficiente para balançar as estruturas da cabana. – Não sou sua subordinada e você não fala dessa maneira comigo! – o repreendi.

— Não vou baixar a cabeça pra você, santa ou não! Você é só um macaco com poder demais e sabedoria de menos!

Aquele ali estava me tirando do sério, a ponto de eu considerar usar a autoridade que Gabriel havia conferido a mim por ser uma Santa Guerreira, sobre os subordinados de Castiel, autoridade essa que eu nunca usava por não haver necessidade.

Por trabalharmos juntos, eles precisavam responder à mim, também, em campo. Eu não era qualquer uma, e eu havia morrido em nome da fé antes.

— Você me deve respeito. Ponha-se no seu lugar – ordenei.

E com um forte bater de palmas, o expulsei dali para lhe ensinar boas maneiras, assustando os demais.

— Não deveria ter feito isso – Castiel suspirou. – Ele vai ficar furioso.

— Isso é problema dele. Poderia nos dizer o que tá acontecendo? – o olhei. – Por que querem matá-la?

— Anna não é o que acha que é. Ela cometeu um pecado grave e todos nós recebemos ordens para matá-la.

— Qual é o pecado? – insisti. – Eu não vejo pecado nela, só vejo uma garota assustada que acabou de perder os pais.

— Isabella, você não entende, ela...!

Subitamente, Castiel foi envolto em uma forte luz branca e desapareceu de vista.

— Por que o expulsou logo agora que ele ia contar as coisas pra gente? – Sam se irritou comigo.

— Não fui eu! – me virei para eles.

Mas a assinatura de energia partia da cabana. Dean se virou rapidamente, abrindo a porta do quarto, e nós nos assustamos ao perceber que Anna havia cortado o pulso e usado seu próprio sangue para desenhar um símbolo no espelho da penteadeira.

Sigilo enoquiano de banimento angelical.

A encarei perplexa.

— Quem é você? Como sabe fazer isso?

— Pergunte depois, benzinho, cura ela, por favor!

Me aproximei para tocar seu pulso, cicatrizando o corte no mesmo instante.

— Anna? – a encarei. – Como fez isso?

— Não sei, eu só... Fiz. Foi um lance da minha mente.