Winds of Fortune
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu estava aninhada nos braços dele de novo.
Era a manhã de natal, e estávamos em baixo dos edredons, com preguiça demais para levantar cedo. Olhamos um para o outro e sorrimos.
— Bom dia – ele beijou minha bochecha.
— Bom dia, amor.
— O que acha, depois que tudo isso acabar, da gente, sei lá... Ir pro Havaí ou algo assim? Curtir um solzinho, quem sabe?
— Eu adoraria – o abracei mais forte. – Mas precisamos te salvar primeiro.
Abri meus olhos sentindo um nó em minha garganta. As lágrimas vieram mais rápido do que eu gostaria.
Aquela lembrança não estava ajudando em nada. Naquele dia fazia um ano que havíamos nos casado. 31 de maio.
Já tinha mais de quatro meses que eu havia me tornado viúva e que Sam fora embora de casa.
Dean só havia me pedido uma coisa e eu não conseguia cumprir seu último desejo. Eu estava morta de vergonha e remorso, com as mãos atadas e andando em círculos. Me sentia completamente inútil.
Ouvi batidas na porta do quarto e logo me sentei na cama, respirando fundo. Castiel abriu a porta, colocando apenas a cabeça para dentro.
— Com licença.
Depois de um mês tentando, eu havia conseguido fazer com que aquele anjo tivesse mais noção de modos humanos.
Castiel não costumava ser sutil, aparecendo do nada, especialmente me assustando de manhã, em momentos que eu havia acabado de acordar, ou aparecendo dentro do Chevelle, quase me fazendo bater o carro algumas vezes.
— Bom dia. Posso entrar?
— Pode – respondi sem muito ânimo.
— Temos trabalho pra você.
— É claro que têm. Se não se importar, preciso fazer minhas coisas de humana primeiro. Poderia esperar um pouco?
— É claro – e então se afastou, fechando a porta.
Eu nem queria sair da cama naquele dia. Ultimamente minha rotina havia se tornado insana. Eu nunca sabia quando estaria ocupada. Quase nunca pegava um caso para resolver, porque sempre era chamada por Castiel em momentos aleatórios para alguma missão que envolvesse matar demônios.
Parte do plano deles de aumentar a minha santidade consistia em me fazer matar o maior número de demônios possível, mas eu estava me sentindo cada vez mais drenada. Meu corpo estava inteiro, funcionando corretamente.
Mas a minha cabeça estava cada vez pior.
Eu acordava todos os dias desejando não estar viva. Não via uma solução, não via uma saída, por mais que Castiel tentasse, à sua maneira, me convencer a continuar lutando, a continuar procurando por respostas sobre o motivo de Lilith querer tanto que Dean fosse para o Inferno.
Eu só... Queria que a dor parasse.
Eu não queria sentir mais nada.
Havia momentos em que eu queria esquecer tudo aquilo. E no entanto, eu sabia que nem que eu me matasse, eu não teria descanso. Ou iria direto pro Inferno, ou seria ressuscitada e forçada a continuar trabalhando.
Eu estava a ponto de surtar.
Não havia nada que Alice ou Jasper pudessem fazer para ajudar. Os poderes de Jasper nem mesmo me afetavam mais, e Alice não podia mais ver o meu futuro.
Às vezes eu só desejava não ter um, mesmo.
Alice bem tentou me fazer melhorar, mas a verdade era que eu só estava vivendo porque era obrigada. Não via mais sentido nas coisas. Matava demônios porque era minha obrigação e nada mais.
Respirar e me manter funcionando era um fardo pesado demais pra mim.
Depois de tomar um banho gelado e me obrigar a ficar desperta, me obriguei a comer alguma coisa antes de deixar Castiel me teleportar pra onde quer que fosse que ele queria me levar.
Ele, sentado na banqueta da bancada da cozinha, à minha frente, me observava quase sem piscar.
— O que? – o encarei.
— Eu não sabia que luto era algo tão insuportável.
Suas respostas cruas sempre me pegavam desprevenida. Eram tão honestas que me deixavam sem reação.
— Você já se apaixonou, Castiel?
— Eu amo a humanidade.
— Não tô falando de amor fraternal. Não tô falando de amar os seus irmãos, ou a humanidade, ou as outras criações de Deus. Se apaixonar por alguém, humano ou não. Já sentiu isso?
— Eu não saberia dizer. Não reconheço o sentimento.
— Se apaixonar é como... – olhei para a aliança em meu dedo. – É como se as cores do mundo fossem mais bonitas. As músicas de amor começam a fazer sentido, sabe? Então paixão vira amor, e você olha para o mundo e sente esperança no futuro, se sente... Completo. Se sente forte, como se pudesse enfrentar tudo e todos. E quando tudo isso é tirado de você... Não resta nada além de um buraco em sua alma.
— Por que os humanos querem tanto algo tão doloroso? – ele franziu o cenho.
Dei de ombros.
— Eu não estava procurando por ninguém quando Dean apareceu na minha vida. Eu não planejava me apaixonar por ele.
— Você se arrepende de ter tomado as decisões que te trouxeram até aqui?
Arrependimento?
— Só me arrependo de não ter feito o pacto no lugar dele. Ele não merecia isso.
— Tenha fé, irmã – ele afagou minha mão.
— Fé no que, Castiel? – o olhei.
— Tenha fé nos planos de Deus.
Era mais fácil falar do que fazer. Deus havia nos dado as costas e eu era obrigada a servi-Lo, impossibilitada de acabar com a minha própria miséria, porque Castiel havia me impedido de terminar o serviço toda vez.
Fé?
Qual era a utilidade daquilo naquele momento?
Naquela manhã, Castiel me levou a um depósito abandonado, mais um dos muitos onde costumávamos trabalhar. Pestanejei descrente, o encarando.
— Se importaria de me esclarecer o que eu estou fazendo aqui?
— Há um demônio na sala ao lado que eu descobri ter grande proximidade com Lilith. Há uma grande chance de ele saber o que ela pretende obter de Dean. Quero que o interrogue e faça o que for necessário para obter uma resposta concreta.
— Eu não estou entendendo.
— Qual parte?
— Como isso vai nos ajudar? É mais um teste? Matamos centenas de demônios durante meses e não conseguimos nada, Castiel.
— Esse você não poderá matar.
— Por que?
— Quero que use salvação como moeda de barganha para obtermos respostas.
— Como assim? Quer que eu ofereça salvação ao demônio? Desde quando demônios podem ser salvos? – franzi o cenho.
— Desde sempre, mas é uma tarefa árdua e praticamente impossível. Para um demônio ser salvo, é preciso que ele queira, e eles nunca querem. Ofereça salvação ao demônio na sala ao lado para descobrirmos o que Lilith planeja para Dean.
— Tá falando sério?
— Sim.
— Como isso vai ajudar o Dean? Ele já está no Inferno!
— Se Lilith planeja usá-lo para algum de seus objetivos, precisaremos tirá-lo de lá o quanto antes. Não entende? Essa é a sua chance nos ajudar a tirá-lo do Inferno.
Respirei fundo, cobrindo o rosto com as mãos por um momento. Eu não estava no auge da minha fé ou da minha boa vontade para fazer algo do tipo.
É pelo Dean, preciso fazer isso pelo Dean.
— Isabella – Castiel pôs suas mãos em meus ombros. – Eu acredito em você. Você é capaz de fazer isso. Consiga respostas e salve uma alma condenada. Essa pode ser a única chance de tirarmos Dean do Inferno.
Fale com o autor