Já era tarde da noite quando Castiel me teleportara para o ferro-velho do Bobby.

— Quer entrar? – perguntei a ele enquanto subia os degraus da entrada dos fundos.

— Eu gostaria, mas tenho que me reportar aos meus superiores – esboçou um sorriso.

— Nos vemos amanhã, então, Cass.

— Na verdade...

Eu me virei para olhá-lo, confusa.

— Eu não virei ao seu encontro amanhã.

— Por que não? – desci os degraus para me aproximar dele.

— Hoje era o nosso último dia de missões por enquanto.

— Quando ia me contar isso?

— Bem... Agora, acho.

— Cass! – pus as mãos na cintura.

— Me mandaram informá-la de que deverá acompanhar Dean nas caçadas, como faziam antes. É possível que outros demônios apareçam no encalço dele, também, então seria adequado que ficasse para ajudá-los com isso.

— Mas e você, o que vai fazer?

— O que me ordenarem.

A forma crua como ele respondia as coisas sempre me pegava de surpresa.

— Tá bem – suspirei. – Tenha cuidado, tá?

— Sempre tenho.

Me aproximei para lhe abraçar, algo que o pegou totalmente desprevenido, a julgar pela falta de reação.

— Essa é a parte que você me abraça de volta – eu ri um pouco.

— Isso é apropriado?

— É só um abraço, Castiel. É uma forma dos humanos mostrarem que se importam uns com os outros e que os têm em alta estima.

— Ah. Entendi.

E me abraçou de volta, me dando dois tapinhas nas costas. Quando me afastei, baguncei um pouco seu cabelo.

— Se cuida. E se precisar, basta me chamar. Ah, e nada de aparecer do nada, viu?

— Sim, senhora – sorriu antes de bater suas asas e desaparecer de vista.

Eu ia sentir falta daquele grande bobão. Dean abriu a porta dos fundos de repente.

— Cadê ele?

— Acabou de ir embora.

— Ele é fujão, né?

— Demais – eu ri.

— Poxa, eu ia chamar o cara pra beber.

Taí uma coisa que eu pagaria pra ver – subi os degraus, o encontrando com um beijo. – Um anjo enchendo a cara – franzi o cenho. – Nem consigo imaginar.

— Talvez na próxima. Vem, comprei pizza pra gente.

Entramos em casa, indo para a cozinha, onde Bobby estava sentado à mesa, bebendo. Com Sam. Assim que me viu, Bobby largou sua cerveja e veio ao meu encontro, me abraçando.

— Como é bom ver você, filha! – me abraçou firme antes de se afastar um pouco e afagar meu rosto. – Você perdeu peso. Têm comido direito?

— Sim, claro – franzi os lábios por um momento. – Só estive muito ocupada caçando, mas eu tô comendo sim, juro. Desculpa não vir aqui antes.

— Não se esquenta com isso – deu dois tapinhas em meu ombro. – Vem, come uma pizza com a gente. Vou pegar uma cadeira pra você.

E enquanto Bobby procurava por uma cadeira pra mim na biblioteca, um silêncio desconfortável se seguiu na cozinha. Era óbvio que Dean já tinha percebido algo estranho rolando, mas até o momento, não comentou nada.

Me sentei na cadeira, Dean colocando a dele ao lado da minha, nós quatro à mesa, dividindo uma pizza grande de queijo e eles bebendo cerveja.

— Então, o que você e o Castiel tavam aprontando hoje? – Dean quebrou o silêncio.

— Ah, eu não tenho permissão pra entrar em detalhes – fiz uma careta. – Mas, basicamente, o de sempre: caçando demônios.

— Então você tá comprometida com eles até os dentes, mesmo? – Bobby me olhou.

— Tô. Não posso me negar a fazer nada, não posso desobedecê-los, tenho que andar sempre na linha... – dei de ombros.

— Liguei pra uma caçadora amiga minha pra falarmos sobre esse negócio de anjo, já que ela entende disso melhor que eu, mas ela não tá atendendo. Se ela ainda não atender amanhã, vou até a casa dela pessoalmente, ver o que ela sabe. Vai querer vir com a gente?

— Sim.

— Pensei que tivesse trabalho com o Castiel – Dean me olhou.

— Ele disse que eu fui temporariamente dispensada do trabalho com ele. As ordens são pra eu caçar com vocês até ser chamada de novo. Tem muita coisa rolando.

— O que sabe sobre o que tá rolando com os demônios ultimamente? – Sam me olhou. – Eles estão com uma atividade louca nos últimos dias.

Encarei Sam por um minuto, tentando, ao máximo, conter a crescente raiva que me rasgava por dentro. Eu precisava manter minha compostura e não queria brigar, não na frente dos outros, que não tinham nada a ver com o que Sam tinha feito.

— Poderia me dar as chaves do Chevelle? – olhei para Dean, que logo as entregou.

Eu me levantei e saí sem dizer nada. Talvez ar fresco me ajudasse a me acalmar. Fui até o carro, abrindo o porta-malas para ver roupas limpas em minha mochila, procurando por alguma que servisse para dormir.

Então ouvi passos em minha direção, no que eu respirei fundo.

— Olha, Bella, me desculpa, eu...

— Cala a boca – disse sem encarar Sam. – Não quero falar com você.

— Por favor, só me deixa...

— Cala a boca! – gritei, me virando para ele. – Eu não quero falar com você! Sai de perto de mim!

— Eu não podia ficar parado, entendeu? Eu não podia ficar parado em casa chorando como um covarde enquanto o Dean queimava no inferno!

Eu o encarei sem dizer nada, no que ele logo começou a pedir uma série de desculpas. Me virei para o porta-malas, tirando meu rosário do pescoço e a adaga de baixo do meu braço e os colocando na mochila.

— Quer dizer que ficar de luto depois de ver meu marido ser mastigado por um cão do inferno enquanto eu mesma era mastigada por um e ser atacada por dezenas de demônios de uma só vez é coisa de covarde? – o encarei.

— Me desculpa, não foi o que eu quis dizer.

— Foi sim. Foi sim, Sam – me aproximei dele. – Mas sabe o que mais? Eu posso até ser uma covarde, mas eu não dei as costas pra minha própria família – disse entredentes, o encarando de perto. – Eu não sumi por meses, impedindo qualquer um de entrar em contato comigo enquanto me enfiava de cabeça em uma missão suicida atrás da outra.

Ele estava surpreso, não esperava que eu soubesse daquilo.

— E eu definitivamente não larguei o Bobby às traças, mesmo que não pudesse vir aqui o tempo todo. E sabe o que mais? Essa covarde aqui conseguiu converter um demônio e salvar sua alma. É isso que essa covarde aqui é capaz de fazer.

— Bella, escuta, eu precisava tentar tirar o Dean do inferno e sabia que você não concordaria com o que eu tentasse fazer, então eu...

— Agiu sozinho e fez o que queria? Hm.

— Qual é? Você sabe que eu só tentei ajudar o Dean!

Desferi um soco em sua mandíbula, um forte o suficiente para fazê-lo recuar alguns passos, atordoado.

— Eu estava disposta a ir pro inferno no lugar do Dean só pra vocês dois continuarem juntos! – acabei berrando, me descontrolando mais do que eu deveria. – Você era como um irmão pra mim, Sam! Nós éramos uma família! Depois que o Dean foi levado, eu só tinha você e o Bobby, e você sumiu no meio da madrugada, sem me dar explicações, sem me deixar um mísero bilhete, como se eu não fosse nada!

Ele não tentou se justificar daquela vez.

Logo vi Dean e Bobby saírem da casa, correndo em nossa direção.

— O que foi?! – Dean nos entreolhou. – Por que tão brigando?!

Ah, claro.

— Não contou pra ele, né? – encarei Sam.

— Não contou o que? – Dean olhou para o irmão.

— É, Sam, diz pro Dean o que você não contou. Ao menos pra ele tenha a decência de se explicar e tentar ser convincente!

— Bella, por que isso agora? – Bobby suspirou.

— Eu tava na minha, ele que veio atrás de mim! Sabe o que mais? Eu tô cansada. Foi um dia infernal – fechei meu porta-malas. – E ele acabou de ficar pior.

Abri a porta do carro e logo o liguei, ansiosa pra sair de perto de Sam.

— Bella, espera! – Dean me chamou. – Pra onde vai?

— Pra um hotel! – disse enquanto dava a ré e virava para ir embora.

Se eu passasse mais algum minuto ali, acabaria falando mais do que deveria. Mas o pior era a sensação que veio depois, enquanto eu dirigia e tentava não chorar.

Ele era o meu melhor amigo. Era como um irmão pra mim.

E mesmo depois de tudo que passamos juntos e sofremos, me deu as costas sem pensar duas vezes e estava andando com um demônio, fazendo as coisas que o irmão nunca quis que ele fizesse.

Será mesmo que eu era a covarde?

Notas finais
eu tô triste ;_; coitada da Bella