Notas iniciais
https://www.youtube.com/watch?v=7GLkvCrcExU

Quando eu imaginava aquela luta, eu imaginava que seria brutal, sangrenta, dolorosa, e definitivamente barulhenta.

Mas as coisas que estavam acontecendo enquanto presenciávamos a luta eram bem piores do que eu poderia ter imaginado.

Não apenas isso, como Lúcifer não calava a boca, tentando, de todas as formas, fazer com que seus irmãos se sentissem culpados pelo fato de ele ter sido expulso, reclamando dezenas de vezes por não ter recebido o apoio deles, reclamando do fato de Miguel ter o chamado de monstro.

Além de uma prima-dona irritante, era uma criatura detestável por natureza.

Do jeitinho que Deus queria.

Ele não levava em consideração toda a dor que seus irmãos tiveram que suportar por culpa dele, e o mesmo valia para Miguel, que nunca se importou verdadeiramente com nenhum deles.

De certa forma, Miguel conseguia ser terrivelmente pior que Lúcifer.

Porque Lúcifer era o rebelde, o sanguinário, todos já sabiam que não podiam confiar nele e que sempre deveriam esperar o pior de sua parte.

Mas Miguel conseguiu enganá-los direitinho, com discursos pomposos sobre união, sobre família, sobre o plano de Deus e obediência cega, e o fez com tanto empenho que mesmo Rafael caíra em sua lábia.

Agora o filho mais velho e o filho mais novo e rebelde se enfrentavam, finalmente, como Ele havia planejado por puro sadismo.

Me fazia pensar que mesmo que tudo aquilo tivesse seguido seu curso calculado, ainda não mudava o fato de que eles haviam escolhido ser daquele jeito.

Lúcifer atacava com raiva, expondo seu ego monstruoso, e Miguel apenas deixava que ele gastasse sua energia, que reclamasse como uma criança irritada.

Porque, quando Miguel decidia que Lúcifer já tinha falado demais, e decidia atacar, a coisa ficava ainda pior.

Miguel não brigava brincando, como o mais novo. A impressão que eu tinha era de que Lúcifer, de alguma forma, ainda esperava que o irmão ficasse ao lado dele. Os dois contra o mundo, e tudo mais.

Ele não podia estar mais enganado.

Lúcifer parecia não entender, ou não querer aceitar, que Miguel apenas queria matá-lo. Não havia mais nenhum resquício de amor fraternal ali. Aquela era uma tolice a qual Lúcifer tentava se agarrar para nutrir esperanças, talvez.

A noite já tinha caído, e nada da luta se encerrar. Estávamos todos impacientes com o fim, e, no entanto, era preciso esperar a hora adequada de abrir as portas da jaula.

Abrir na hora errada poderia custar nossas vidas, e mesmo que eu soubesse que poderia ser trazida de volta, eu não estava nem um pouco entusiasmada com o conceito de morrer de novo. Uma vez foi mais que o suficiente para me fazer agradecer por ainda respirar e ter uma chance de continuar lutando.

Um golpe ousado da parte de Lúcifer me tirou dos meus devaneios.

Ele havia cortado o braço do mais velho com sua lança.

Miguel, lentamente baixando os olhos para o corte em seu braço esquerdo, tocando o sangue fresco, mostrou um sorrisinho maligno.

Fodeu.

Foi ali que ele decidiu lutar pra valer, finalmente. Com golpes sequenciais e intensos, ele tentava desarmar Lúcifer ou quebrando sua lança, ou cortando um de seus braços, mas Luci, como imaginávamos, tinha uma excelente defesa.

Afinal de contas, tinha seu orgulho, e não planejava perder para o mais velho.

A luta se tornou gradualmente mais rápida, mais difícil para que meus olhos acompanhassem, mas eu sabia que ambos estavam cada vez mais feridos. Por mais que fossem arcanjos e que sua tolerância à dor fosse maior que as nossas, suas lanças ainda eram especialmente feitas para o propósito de os matarem.

O que significava que cada corte, cada golpe, lhes custava um pouco mais da resistência. Castiel e eu nos olhamos por um momento, no que trocamos olhares com Rafael e Gabriel, também.

Miguel fincou sua lança no abdômen de Lúcifer, e aquele foi o sinal que eu precisava para começar a agir. Com o consentimento de Gabriel, me afastei em um giro rápido, tirando os anéis da bolsa em minha cintura, os jogando na relva e dizendo o feitiço ensinado por Morte.

Mas é óbvio que não seria assim tão simples.

Quando o chão cedeu e uma enorme cratera começou a se abrir no chão, eu me afastei rapidamente, somente para quase ser acertada por um golpe de Miguel. Com minha lança nova, rapidamente tentei bloqueá-lo, mas estava com dificuldades. Ele era muito mais rápido e mais treinado que eu.

— Humana insolente! – gritava comigo, seus olhos azuis brilhando. – Como ousa se meter nisso?! Eu devia ter te matado naquela noite!

— Deveria! – retruquei, concentrando energia em minhas mãos para que fluísse pela lança e o acertasse com mais impacto. – Mas você foi orgulhoso demais pra isso!

Gabriel se aproximou, cortando a lança de Miguel com um único golpe, perfurando seu peito em uma área não mortal e o deixando de joelhos. Finquei minha lança no peito do maldito, e logo Castiel veio por trás, fincando a sua nas costas dele.

Atrás de Castiel, Rafael tinha dificuldades para manter Lúcifer no lugar, e Gabriel logo correu para socorrê-lo, quebrando a lança de Lúcifer ao desarmá-lo.

Era a nossa melhor oportunidade, não teríamos outra melhor.

Eles eram orgulhosos demais para se matarem em questão de algumas horas e não podíamos arriscar que a luta durasse mais.

Que se matassem no Inferno, então.

Nós quatro tentamos, em sincronia, empurrar os dois na direção do precipício.

Rafael e Gabriel precisavam desferir golpes com as mãos nuas para desestabilizar Lúcifer e continuar o empurrando.

Castiel e eu não tínhamos tanta sorte ou força para lidar com Miguel, mas não tinha nada a ser feito além do nosso máximo ali.

Lúcifer não era nada bobo. Ele sabia que suas chances de fuga eram pequenas enquanto estivéssemos ali, e todo o exército do Céu estivesse por perto, prontos para fritá-los em fogo sagrado, se fosse preciso.

Então, um gesto inesperado.

Ele segurou Miguel, o puxando consigo, ambos quebrando nossas lanças com as próprias mãos, o que lhes causou grande desconforto.

Os dois contra nós, porque seu instinto de autopreservação era maior que seu orgulho, e entendemos isso talvez tarde demais.

Rafael e Gabriel começaram a lutar com os dois para empurrá-los ao precipício e eu senti meu peito afundar ao perceber que eles estavam mais perto do que deveriam.

Lúcifer puxou Miguel, se jogando, e Miguel puxou Gabriel consigo.

Em um ato rápido, Rafael segurou Gabriel, se agarrando ao chão como podia para tentar puxar meu patrono de volta.

Castiel e eu rapidamente fomos ajudá-lo, oferecendo nossas mãos a Gabriel, mas ele não as aceitava.

— É a nossa melhor chance! – ele disse.

— Não, irmão! Não faça isso! – Rafael pediu.

— ‘‘Tudo o que for preciso’’ – Gabriel repetiu as palavras de Morte, me encarando.

Um sorriso, um maldito sorriso. Eu entendi o que ele ia fazer e não podia...!

— Não, Gabe!

Gabriel acertou Rafael com um facho de luz que o lançou para longe do precipício, assim como Cass e eu.

E então a cratera se fechou.

Os quatro anéis tornaram a aparecer, dourados com o calor do Inferno, e eu os encarei em descrença.

Dean.

Sam.

Miguel.

Lúcifer.

E Gabriel.

Todos presos na jaula. No Inferno.

Juntos.

— Não! Droga! – praguejei ao me levantar. – Por que ele fez isso?! Não era pra ele fazer isso! Maldição!

O círculo de fogo ao nosso redor se dissipou e morreu, no que os demais anjos que serviram como testemunha começaram a se aproximar.

— Senhor? – um deles se aproximou de Rafael. – O que fazemos agora?

— Seguimos o plano – o arcanjo respondeu e se voltou para os demais. – Vamos sitiar o Inferno!