— Bella? Bella, tá me ouvindo? Isabella, você tá consciente?

Franzi o cenho, me sentindo incomodada com o volume da voz de Sam em meu ouvido. Minha cabeça doía, assim como o meu corpo. O mais estranho era sentir que meus seios estavam vazios, o que não fazia muito sentido.

Era como se alguma coisa tivesse me atropelado e me quebrado inteira.

Quando abri meus olhos, percebi que estava sentada no banco da frente do Impala, Sam sentado no lado do motorista.

— Graças a Deus! – ele respirou aliviado. – Eu tava ficando preocupado.

Me endireitei no banco, pestanejando algumas vezes para ajustar minha visão à claridade do dia. Me virei para trás, constatando que Castiel também estava ali.

— Onde estamos?

— Davenport, Iowa.

— Como eu vim parar aqui?

— Eu não faço ideia – ele suspirou, me fitando. – Crowley e eu fomos atrás do demônio que atende aos Cavaleiros e conseguimos o endereço de Peste, e aí eu recebi uma mensagem de um número desconhecido me mandando te encontrar aqui.

Olhei ao redor, percebendo que o Impala estava no estacionamento de uma lanchonete. Franzi o cenho.

— Qual é a sua última lembrança? – ele perguntou.

— Fort Collins – engoli a seco. – Alexis e Chuck tinham lutado, e...

— Quem venceu? – perguntou ansioso.

— Eu não sei, eu não vi quem saiu inteiro, mas uma cabeça foi jogada na direção dos arcanjos.

— Uma cabeça? – arqueou as sobrancelhas. – Caramba...! Talvez seja bom sinal.

— Como uma cabeça poderia ser bom sinal? – fechei os olhos, massageando minhas têmporas.

— Talvez Deus tenha morrido. Pensa: por que uma cabeça seria jogada aos arcanjos se não fosse pra mandar uma mensagem?

— Se ela ganhou, onde ela tá agora? – o fitei.

— Me pegou – deu de ombros. – Então, Zacarias disse onde a Charlie tá?

— Não – desviei o olhar. – Só ele e Miguel sabem. Então eu matei Zacarias.

— Ótimo, menos um idiota com quem nos preocuparmos. Você... – ele pigarreou. – Acha que o Dean tá bem?

Do pouco que me lembrava das lutas que presenciei...

— Duvido muito. À essa altura, Miguel já sabe o que planejamos fazer. Lúcifer não é nenhum idiota, então provavelmente também já sabe. Sam, eu tenho que perguntar... – o encarei. – Qual é o plano? Como vai fazer Lúcifer se jogar na jaula com Miguel?

Ele não respondeu. Baixou os olhos para as próprias mãos, suspirando.

— Eu não faço ideia, mas eu vou dar um jeito.

Me virei para Castiel.

— Como você tá?

Ele estava observando a rua, uma expressão cansada em seu rosto.

— Eu não sei como estou – respondeu sem me olhar. – Eu deveria estar... Aliviado em saber que ela ganhou, mas... Ele ainda era meu pai. Apesar de tudo, ainda era o pai de todos nós. E agora que ela está no comando, eu... Não sei como deveria me sentir. A verdadeira forma dela, lá no campo de batalha, uma sombra com chifres... Por um momento eu acreditei que ela fosse o próprio Anticristo.

— Se ela é o Anticristo eu não sei – me virei para a frente. – Mas AntiDeus ela com certeza é.

— Tenho medo de estarmos do lado errado.

— Que? – Sam se virou para ele. – Cass, não! Não estamos! Eu sei que Deus era o seu pai, mas o cara literalmente não se importava com nenhum de vocês, ou com a gente, ou com o mundo que corre o risco de ser destruído com o Apocalipse! Não estamos do lado errado, Castiel, acredite nisso.

— Não sei como – respondeu baixinho.

— Se não quiser ter fé nela, tenha fé na gente.

— Também não sei como fazer isso.

Arqueei minhas sobrancelhas, surpresa em ouvir aquilo. Verdade fosse dita, ele tinha todo o direto de se sentir assim. Nossas vidas foram viradas do avesso, estávamos sem Charlie, sem Dean, e eu não fazia ideia do que tinha acontecido à Gabriel.

E Castiel, pra completar, sumiu do Impala sem nenhum aviso prévio. Não adiantava eu me preocupar com ele naquele momento, pois tínhamos problemas maiores.

— Então, onde Peste tá?

— Tá aqui na cidade.

— Tá, mas você sabe exatamente onde?

— Sei. Casa de convalescença Serenity Valley.

— Tá, como quer fazer isso? Atacamos agora ou à noite?

— Talvez à noite seja melhor. Seria bom se Castiel estivesse com a gente, já que ele é imune. Guerra não o afetou, então provavelmente Peste também não vai afetá-lo.

Suspirei, me recostando ao banco, tombando minha cabeça para trás.

— O que será que ele tá fazendo?

Tudo estava muito quieto e se tinha uma coisa que eu odiava naquilo tudo, era silêncio. Não tínhamos notícias de Gabriel ou Castiel, Crowley também havia sumido, e apesar de querermos ligar para Bobby e desabafar, sabíamos que havia uma grande chance de fazermos ele enfartar quando disséssemos que Dean aceitou ser a casca.

Depois de comermos algo na lanchonete, nos escondemos em um hotel para tentar descansar. Só tentar, realmente, porque nós não conseguíamos nem cochilar. Pra piorar, eu estava sem minha armadura e sem minha lança, o que tornaria a investida do dia um pouco mais difícil sem aquela proteção extra.

Alexis havia me deixado mal acostumada com todas aquelas comodidades.

Afiei meu facão, como há muito tempo eu não fazia, enquanto Sam fazia a mesma coisa, tragando uísque barato na tentativa de ganhar mais coragem para aquela noite. Por um momento, cogitei tomar um gole da bebida, mas talvez fosse má ideia. Precisaria criar coragem por conta própria.

Quando a noite caiu, entramos no Impala e seguimos até o endereço do Cavaleiro. Uma casa de enfermos, algo bem óbvio. Checamos nossas armas uma última vez antes de eu nos teleportar para dentro da casa.

Sam queria que fôssemos discretos, mas não tinha como ser discreto ali. Eu podia ouvir orações de alguns enfermos desesperados por uma cura, mas não havia nada que eu pudesse fazer enquanto a própria Peste estivesse ali.

Fui à frente, Sam me dando cobertura enquanto eu matava alguns demônios fazendo o mínimo de barulho possível enquanto procurávamos pelo Cavaleiro.

Ao virarmos em um corredor, sentimos o impacto.

Comigo, uma onda de dor em meu ventre. Eu tinha quase certeza de que era alguma coisa errada com o meu útero, e era uma dor tão violenta que logo me obrigou a me apoiar na parede para tentar continuar. Sam estava tossindo sangue, e reclamou que sua visão estava cada vez pior. Enquanto ele me ajudava a caminhar, eu nos conduzia pelo o que deduzia ser o caminho certo.

Um demônio apareceu à nossa frente, vestida de enfermeira, com um sorriso maldito enquanto nos olhava com curiosidade.

— O doutor vai vê-los agora – ela indicou a sala à frente.

Eu me esforcei para continuar de pé, e assim que ela estava ao meu alcance, segurei-a pelo pescoço e matei o demônio dentro da enfermeira. Por mais que eu quisesse curar a coitada, eu mal conseguia me curar, cambaleando para dentro da sala de um paciente, onde Peste nos esperava com um sorrisinho cretino.

— Sam e Bella Winchester – ele cruzou as pernas, sentado na cama de uma paciente já morta. – Estou surpreso que ainda consigam andar com todos os cânceres que eu dei à vocês – ele riu. – À que devo a desonra da presença de vocês?

Nos aproximamos da cama com dificuldade, Sam avançando para tentar enforcá-lo enquanto eu pegava o facão e tentava cortar o dedo do desgraçado.

Me senti imediatamente melhor assim que o dedo portador do anel foi fatiado, e Sam também parecia aliviado. Nos olhamos em confusão, estranhando a facilidade toda daquela situação.

— É uma cilada? – perguntei à Sam enquanto ele pegava o anel e o tirava do dedo decepado. Ele deu de ombros. – Por que nos deixou fazer isso tão facilmente? – encarei o Cavaleiro que segurava a própria mão ensanguentada.

— Porque já é tarde demais.

E com aquela frase macabra, ele sumiu perante os nossos olhos.

Nos encaramos por um momento, sem saber o que fazer.

— O que ele quis dizer com isso? – Sam indagou.

— Nada de bom, considerando a epidemia de gripe suína.

— Ah, aí estão vocês!

Nos viramos assustados ao ouvir a voz de Crowley às nossas costas.

— Fácil assim? – ele arqueou as sobrancelhas.

— Fácil? – Sam se irritou. – Onde você estava?

— Ocupado fazendo um favor à vocês – ele sorriu.

— Vá direto ao ponto – suspirei.

— Eu e seu amigo, Bobby Singer, fizemos um feitiço para conseguir descobrir a localização do último Cavaleiro. E adivinhem só? Sabemos onde Morte está.

Eu engoli a seco, desconfortável.

— Então? O que acham que acabarmos logo com isso?