Winds of Fortune
41 Capítulo 40
Charlie dormia em meus braços. A única entre nós que conseguia dormir, realmente.
Sam estava bem, apesar do meu nocaute. Gabriel havia o curado, assim como Dean. Eu me curei sozinha, com o tempo, apesar de ainda sentir dores de cabeça.
A cidade permaneceu de pé, e os moradores sobreviventes... Eu não fazia ideia do que aconteceria com eles ou como suas vidas continuariam depois daquilo.
Ellen e Jo, que estavam caçando juntas, continuaram estrada com Rufus.
E nós voltamos para casa. Dean me pedindo perdão mil vezes, morrendo de culpa, assim como Sam, mesmo que eu tivesse dito várias vezes eu eles estavam perdoados e que tava tudo bem.
O anel de Guerra estava no bolso da minha jaqueta, me incomodando enquanto eu observava Castiel na cama à minha frente.
Perdi a noção do tempo sentada naquela poltrona.
Não havia nada que pudéssemos fazer por ele além de esperar que ele acordasse.
Segundo Gabriel, quando um anjo era ferido por coisas mundanas ou por alguma criatura inferior a ele em poder, não demoravam muito para se recuperar, mas apanhar daquele jeito, e de algo tão... Primordial como Guerra era...
Aquilo requeria tempo e repouso para Castiel para que ele pudesse funcionar normalmente de novo.
— É como Seiya, em ‘‘Prólogo do Céu’’ – Gabriel tentou explicar. – Depois de ser ferido pela espada de Hades, ele precisou de tempo pra se recuperar, mas a diferença entre ele e Castiel é que Castiel não vai acordar e ficar vegetando. Quando ele acordar, estará 100% de novo.
Eu não entendia aquela referência, mas não importava, realmente.
Gabriel entalhou as costelas de Sam e Dean em uma forma de mantê-los longe do radar dos anjos, o que significava que nem mesmo ele conseguiria encontrá-los. Precisariam de mim para isso.
Era a melhor forma de tirar Zacarias da nossa cola também. Era o penúltimo recurso para manter os dois seguros enquanto estivéssemos atrás dos Cavaleiros. Eu não podia ser entalhada por causa da minha função, e não deixei ele entalhar as costelas de Charlie porque não sabia o quão doloroso isso seria pra ela e a ideia me perturbou muito.
Ouvi a porta do quarto de Charlie se abrir, no que Dean entrou. Colocou as mãos em meus ombros, beijando minha cabeça.
— Você precisa dormir um pouco, benzinho.
— Não consigo, mas relaxa. Tá tudo bem.
Mas nada estava nada bem. Não quando eu olhava para Castiel naquele estado. Como as coisas poderiam ficar bem se ele estava daquele jeito?
Nada nunca derrubava Castiel, e, no entanto, ali estava ele, e eu não conseguia parar de pensar em como as coisas piorariam, em como seria o fim da estrada.
Era só o primeiro Cavaleiro e já havíamos apanhado daquele jeito. Como sobreviveríamos ao resto? Como sobreviveríamos aos arcanjos?
Ouvi alguém bater na porta.
— Bella? – Anna me chamou.
— Anna, dá um tempo – Dean se irritou.
— Eu sinto muito, de verdade, mas nós temos as nossas ordens. Ainda há três Cavaleiros pra caçar e outros demônios à solta. Você também precisa vir.
— Discutam depois – eu me levantei, acariciando minha bochechudinha dorminhoca antes de colocá-la em seu berço.
Charlie agora estava de volta em seu quarto, e Castiel repousava na cama de solteiro que colocamos lá para ele até que acordasse. Eu odiava aquela quietude.
Saí do quarto com Dean, acompanhando Anna. Sam estava sentado à mesa da sala de jantar e estava com o notebook ligado, trabalhando.
— Então... Sabem aqueles casos bizarros de Cheyenne que estávamos pesquisando nas últimas semanas? O número tá aumentando, e de tudo um pouco. Suicídios, suicídios duplos, crimes passionais, roubos, estupros, e até canibalismo.
— Isso tudo em três semanas?! – perguntei chocada.
— É, pois é – ele pigarreou desconfortável. – Crimes sem precedentes agora tão rolando em um nível alarmante, a cidade tá em estado de alerta e as autoridades não sabem o que fazer. A cidade tá sendo virada do avesso, as pessoas tão em pânico.
— Não pode ser Guerra, tiramos o anel dele – Dean coçou a barba por fazer.
— Nem Peste – disse Anna. – Não tem rastro de doenças venéreas acima do normal lá, mas os casos de gripe suína estão aumentando gradualmente em vários lugares. Não é necessariamente um sinal de Peste, mas... – deu de ombros.
— Se fosse Morte, as pessoas só... Morreriam? – Dean a encarou.
— Não, se fosse Morte, os mortos se levantariam, seria o apocalipse zumbi – expliquei. – É Fome, e não tá de brincadeira.
— Era só o que faltava – Dean suspirou, indo para a cozinha e enchendo uma caneca com café. – Como a gente vai pegar esse desgraçado se ele pode ser qualquer um?
— Nós seguimos alguns demônios durante essa semana – Anna cruzou os braços. – Ouvimos rumores. Fome está acompanhado de outros demônios de baixo escalão, ele... Funciona de um jeito diferente em comparação à Guerra, pelo que estamos entendendo.
— Como assim?
— Esses demônios são tipo babás pra ele, fazem tudo o que ele precisa, dão tudo o que ele quer.
— Tipo um bebezão?
— Tipo um idoso – Anna franziu os lábios. – A julgar pelo rastro de destruição, ele está em Cheyenne com um pequeno exército.
— Quantos de nós podem se juntar no ataque? – perguntei.
— Além de vocês? – Anna suspirou. – Ninguém. Gabriel e a guarnição estão atrás de pistas dos outros Cavaleiros, e eu preciso ficar aqui cuidando da Charlie e do Castiel, com Ariel e Daniel, então... É com vocês, gente.
Respirei fundo, massageando minhas têmporas e fechando os olhos por um momento antes de criar coragem.
— Vou fazer as malas.
— Opa, opa, calminha aí – Dean se aproximou de mim. – Não vai, não, você precisa descansar. Você tá direto nisso há dias, Bella, sendo arrastada de um lado pro outro, matando mais demônios do que a gente já matou a vida toda em questão de dias!
— É o meu trabalho!
— Não vai conseguir fazer seu trabalho se não cuidar de si mesma! Até a gente, nos nossos piores dias de trabalho, tivemos uma pausa! Se continuar assim, vai ter um colapso pela exaustão!
— Okay, pessoal, entendo o estresse de vocês... – Sam nos interrompeu. – Mas vocês precisam se acalmar, tá? Brigar não vai adiantar nada. Além disso, o Dean tá certo, Bella, você precisa dormir.
— Tá de sacanagem? – perguntei indignada. – Tem pessoas morrendo, Sam!
— E pessoas vão continuar morrendo! Nós somos apenas humanos e mesmo os anjos não conseguem fazer tudo sozinhos! São bilhões de pessoas com as quais nos preocuparmos, mas somos...! Só pessoas.
— Sabe o que mais? Por que aquela estranha não move um dedo nisso? – Dean me encarou. – Ela diz que se importa e o cacete, mas eu não vejo ela fazendo nada aqui!
Um telefone começou a tocar. Sam e Dean se entreolharam, confusos. Dean tateou o bolso da jeans, franzindo o cenho ao abrir o celular. Ouviu alguma coisa do outro lado da linha que o deixou sem reação, no que ele se aproximou da mesa, deixando o celular aberto e no viva-voz.
— Em primeiro lugar...!— ouvimos a voz da estranha. — Eu sei o que tá rolando, eu não sou cega! Em segundo lugar: eu também tenho vida, sabia? Acha que esse é o único mundo no qual eu tô metida? Se toca, Dean! Eu também tenho coisas pra fazer! Em terceiro: eu não posso ficar zanzando por aí, interferindo nas coisas como eu bem entender, porque não sei se vocês já consideraram a possibilidade, mas eu tô sendo caçada! Deus já sacou que eu tô mexendo nas coisas Dele e não tá de boa com isso, não! O meu tá na reta, entendeu? Se eu for pega, vocês estão ferrados, e é por isso que eu não posso me arriscar à toa! Eu tô tentando poupar energia pra nossa luta no Inferno, então me economiza, viu, meu filho? Ah, outra coisa, é a Fome mesmo que tá lá em Cheyenne. Ele tá na forma dum velhinho que precisa de cânulas e anda numa cadeira de rodas motorizada, e tem dez demônios acompanhando ele. Satisfeitos?! Mais alguma reclamação?!
— Não, senhora – Dean pigarreou sem jeito, baixando a cabeça.
— Acho bom mesmo! Posso não ser omnipotente nesse mundo ainda, mas omnisciente eu sou, tá? E Bella?
— Sim?
— Vai dormir! Se continuar assim, vai acabar desmaiando! Recupera suas forças antes de sair caçando a Fome. Aliás, Fome vai atiçar em vocês todos os seus vícios e desejos, então eu sugiro que fiquem saciados o máximo que puderem pra resistir o máximo que puderem. Vocês têm três dias pra ficar em casa fazendo nada, então encham a cara, transem pra caramba, e fiquem de estômagos cheios, fui clara?
— Sim, senhora – respondemos em uníssono.
— Ótimo. E não se preocupem com o Castiel, ele tá bem, só tá recarregando as baterias. Mamãe tá de olho em vocês, crianças, se comportem!— e desligou.
Dean pegou seu celular de volta, o fechando, me encarando com vergonha. Sam riu consigo mesmo, se recostando em sua cadeira.
— A gente sempre reclamou que Deus nunca fazia nada pela gente... E agora a gente tem uma mãe, que é divina de alguma forma que a gente não entende, pra puxar as nossas orelhas. Alguém que cuida da gente. É meio... Estranho – Sam franziu o cenho.
— Prefiro essa estranheza a não ter nada, como era antes – disse Anna. – Largados à própria sorte, sem instruções, sem direcionamento, sem esperanças...
— Não leva à mal, não, mas... – Dean fez uma careta tensa. – Eu tenho é medo.
— Tá, então... – Sam suspirou. – Vamos todos recarregar nossas energias antes de ir pra Cheyenne pra pegar a Fome. Temos três dias pra isso – mordeu o lábio inferior. – Vamos fazer esses três dias valerem a pena.
A primeira coisa que fiz foi ir pro chuveiro, deixando a água quente relaxar meus ombros doloridos. Dean veio logo atrás de mim, lavando meus cabelos, me ajudando a tomar banho, já que eu estava tão cansada que mal conseguia parar em pé. Até mesmo me secou e me ajudou a vestir o pijama, se deitando comigo na cama, puxando o edredom sobre nós.
A babá eletrônica estava na mesinha de cabeceira, mas ao menos algumas horas de descanso nós teríamos antes de Charlie nos acordar.
— Ei – ele sussurrou, seus braços ao meu redor, suas mãos ocupadas em um cafuné.
— Hm?
— Eu te amo.
Rocei meu rosto ao peito dele, sentindo seu cheiro.
— Também te amo.
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