Não havia descanso pra mim.

Eu havia me deitado com Dean, Charlie em seu berço, ao meu lado, dormindo depois da última mamada. E eu não conseguia dormir por mais que tentasse.

Porque Zacarias não calava a boca. Estava colocando os anjos contra mim, ou ao menos tentando. Tentando inflamá-los para a batalha, tentando fazê-los acreditar que o lado deles estava certo.

Ouvi Charlie começar a chorar e logo me levantei, pegando-a no colo e a embalando.

— Não consegue dormir também, meu amor? – beijei sua testa, embrulhando-a em seu manto enquanto a colocava para mamar. – Aquele anjo chato também tá te perturbando? Mamãe vai dar uma surra nele.

— Que anjo? – ouvi Dean perguntar, grogue, se sentando na cama.

— Zacarias. Ele não calou a boca a noite toda.

— Tá ouvindo ele?

— Acho que todo mundo tá.

— O que ele tá dizendo?

— Ah, o de sempre. Tentando colocar os outros anjos contra a gente. Parece que Miguel tirou a autoridade de Gabriel, mas Miguel pode ir pro inferno.

— Ah, ele vai, pode ter certeza – ele se levantou, vindo até a gente e me abraçando por trás. – Vou fazer de tudo pra isso acontecer. Não vou deixar nenhum frango celestial machucar a minha família.

— Ei.

— Hm?

— Por que falou dos anéis pro Bobby? Ela mandou a gente não falar.

— Eu sei, eu sei, mas... Com tudo que tá acontecendo eu não posso simplesmente esconder essas coisas dele.

— Falou sobre ela?

— Não. Eu disse que Gabriel nos falou dos anéis.

— O que ele disse sobre o plano da jaula?

— Ele é totalmente contra, mas ele não é bobo. Ele sabe que não tem outro jeito.

Isabella— ouvi a voz de Anna. Aconteceu uma coisa. Precisa vir.

Posso pelo menos terminar de amamentar a Charlie?

Cinco minutos. E venha armada.

— Amor? – ouvi Dean me chamar. – Ouviu o que eu disse?

— Não, desculpa, a Anna tava falando comigo.

— O que houve?

— Não sei, mas tenho que ir – e olhei para Charlie, que já havia parado de mamar porque acabou dormindo de novo. A embrulhei bem antes de entregá-la a Dean e procurar por roupas limpas em minha mochila.

— Bella, você tá acordada direto há horas – ele me fitou.

— Eu sei.

— Você passou doze anos naquela sala sem descanso.

— Eu sei, amor – suspirei, parando de mexer na mochila. – Mas eu não tenho tempo.

— Os anjos vão ter que arranjar tempo pra você, porque você ainda é humana e ainda precisa descansar e comer direito, e não é só pela Charlie.

— Eu sei – me aproximei dele, descansando o rosto em seu pescoço por um momento. – Mas agora não dá. Me desculpa colocar todas essas responsabilidades nos seus ombros.

— Não tão só nos meus ombros. Todos nós estamos carregando esses fardos. Eu só me preocupo... Eu tenho medo.

— Também tenho. Tenha fé, tá bem? A gente vai conseguir.

Dean beijou minha testa e então minha boca e eu me afastei para me vestir.

— Volto assim que der – disse antes de sair do quarto.

Me apressei, correndo para a cozinha, colocando minha armadura de volta e pegando minha lança, encontrando Anna não muito longe da porta.

— O que houve?

— Uma estrela cruzou o céu essa madrugada – disse preocupada.

Pestanejei algumas vezes, pensando em qual presságio poderia ser.

— Artemísia?

— Talvez.

— Onde?

— Perdemos o rastro. Nosso palpite é que tenha passado pelo Colorado.

— O que nos deixa com um estado inteiro pra investigar.

— Exatamente. Precisamos ir logo.

Era até uma referência de mau gosto, aquela. Uma estrela cruza o céu assim que declaramos guerra, a estrela sendo o próprio prenúncio da chegada do Cavaleiro no país.

Só conseguia pensar no Cometa Vermelho cruzando os céus westerosi em As Crônicas de Gelo e Fogo, logo após o nascimento dos dragões de Daenerys Targaryen.

Passamos dias procurando pelo estado inteiro. Eu estava exausta, quase não dormia, e precisava sempre me teleportar de volta para a casa de Bobby para atender Charlie e comer alguma coisa.

Então, quando eu estava perto de ter um surto, encontramos uma pista significativa no rio de uma cidadezinha. A água estava contaminada, o que significava que Artemísia provavelmente era a responsável.

Voltei para a casa de Bobby, que também não parecia muito tranquilo.

— Senhores, Guerra está entre nós – suspirei.

— Onde? – ele perguntou.

— River Pass, Colorado.

Bobby e Dean se encararam.

— Rufus tinha ligado agora há pouco falando de coisas estranhas na cidade – disse Bobby. – Parece que tem uma infestação de demônios lá.

— Isso não faz sentido – franzi o cenho.

— Por que? – Dean perguntou.

— Porque não tem cheiro de enxofre vindo da cidade. Se estivesse infestada, eu sentiria de longe. Gente, se tem demônio lá, apareceu de última hora. Não tinha nada quando estávamos lá.

— Você não notou nada estranho lá? – Dean perguntou.

— Nós não entramos na cidade, só investigamos o rio, que poluiu do nada, ao que parece. Não é uma contaminação do tipo que se espera. É como se fosse algo...

— De outro mundo? – Sam completou, aparecendo na cozinha com Charlie dormindo em seu colo.

Eu quase derreti com toda aquela fofura dos dois, mas me recompus, pigarreando.

— É.

— Beleza – Dean se levantou de onde estava sentado. – Quem vai ficar com a Charlie enquanto estivermos com a mão na massa?

Diga a ele que eu vou ficar com ela em um lugar seguro, com Daniel e Ariel— ouvi a voz de Anna. Preciso apenas que deixe leite pra ela, por favor.

— Anna vai ficar com ela. Me deem meia hora – disse enquanto rumava para as escadas.

Precisava bombear leite pra Charlie e precisava de um banho urgentemente.

Eu sabia que estava fazendo o que era necessário, que estava cumprindo com as minhas obrigações, mas às vezes eu só sentia falta da simplicidade de antes. Despachar uma alma pro descanso, mandar um demônio pro inferno, matar uns vampiros...

Apocalipse era doido demais pra mim e a coisa nem tinha ficado feia ainda.

Não tinha mais tempo pra Dean ou Castiel, e quase nada com Charlie, e aquilo não era certo. Não queria que ela crescesse desapegada de mim. Só queria acabar logo com aquele caos.

Quando estávamos todos prontos, saímos ao encontro de Anna. Sam entregou Charlie a ela e eu engoli a seco.

Só queria ficar um tempinho com ela, queria tempo pra ser mãe dela e aproveitar sua fofurice, e eu não dispunha daquele luxo.

— Não se preocupe com ela – Anna me fitou. – Cuidarei como se fosse minha.

Eu assenti, dando um último beijo na testa de Charlie antes de Anna, Daniel e Ariel sumirem, indo para o desconhecido lugar seguro.

— Prontos?

Castiel, surgindo subitamente às nossas costas, perguntou. Estávamos todos com as mochilas preparadas para um verdadeiro massacre.

Mas quando Castiel nos levou à cidade, eu percebi que um massacre já tinha acontecido. Deveríamos ter notado antes e feito algo, mas estávamos preocupados apenas em confirmar o sinal de Guerra.

Alguns carros haviam batido uns nos outros, uns haviam capotado. Pessoas haviam morrido nas colisões, outras foram atropeladas. Estavam mortas há muito tempo, não havia nada que eu pudesse remediar.

Quando vi um carrinho de bebê preso em baixo de um carro, como se tivessem passado por cima de propósito, senti um desespero aterrador.

Era Santa oficialmente há pouco tempo e já havia falhado terrivelmente.

— Bella, fique calma – senti as mãos de Castiel em meus ombros.

Como podia ficar calma com uma coisa daquelas?!

— Olho neles – disse a Cass, me teleportando pra longe dali.

Precisava investigar a cidade mais à fundo e precisava encontrar o tal de Rufus. Se minha memória estava certa, era o mesmo cara que havia descoberto informações sigilosas sobre Bela Talbot tempos antes, e alguém que eu não sabia dizer se era ou não amigo do Bobby, mas que era um caçador.

Como uma cidadezinha pequena daquela podia estar infestada com demônios se não havia cheiro de enxofre em lugar algum? Não fazia sentido.

Eu esperava sentir algo diferente, já que, em teoria, Guerra estava ali, mas eu não sentia nada além do cheiro de sangue e cadáveres pela cidade, não havia nada de estranho que eu pudesse notar a olho nu.

Estava quase desistindo de procurar sinais de vida quando notei que havia uma chaminé acesa na cidade e me teleportei pra perto dela, imaginando o que os demônios, se é que havia algum, estariam aprontando.

Mas quando cheguei lá e observei movimentação nas janelas, só havia gente comum. Apenas humanos acuados.

Ouvi passos atrás de mim e me virei.

— Jo? – me surpreendi ao vê-la. – O que está fazendo aqui?

— Eu podia perguntar a mesma coisa – ela baixou sua espingarda para o chão, no que o homem ao seu lado fez o mesmo. – Qual é o lance da roupa? Tá fazendo cosplay de amazona?

— Ah... Não – fiz uma careta. – Sou uma Santa solenizada agora, Jo. Esse é... Meu uniforme de trabalho, por assim dizer.

— Eu ouvi direito ou você falou que é uma ‘‘santa solenizada’’? – o homem perguntou descrente.

— É isso aí – eu assenti.

— Ah, isso... – Jo pigarreou. – Vai ser bem útil, agora. A cidade tá infestada de demônios, Bella, precisamos de ajuda.

— Eu sei, foi por isso que eu vim. Estava fazendo uma varredura na cidade e não encontrei demônio nenhum – franzi o cenho.

— Que? Tá falando sério?

— Sim. Cara, eu sou Santa há muito tempo, eu sinto cheiro de demônio há quilômetros, e tô te falando: não tem demônio nenhum aqui.

— E o que é, então? – o homem inquiriu.

— Não sei como, mas de alguma forma, isso é coisa de Guerra.

— Como é que é? – ouvi a voz de um segundo homem se aproximar. – Quem é você e que história é essa?

— Ah, Rufus, essa é a Bella, esposa do Dean – Jo me apresentou.

— Espera, você é o Rufus? – me virei pra ele. – Cara, o Bobby e os meninos tão te procurando! Você disse que a cidade tava cheia de demônio, mas não tem nenhum aqui!

— Como pode ter tanta certeza, garota?

— É uma longa história, que não vem ao caso agora, mas eu sou uma Santa e eu sinto o cheiro deles de longe e não senti nada deles aqui na cidade. O que tem na cidade é Guerra.

— Guerra? Tá falando do Cavaleiro?

— O próprio.

— O Cavaleiro do Apocalipse, Guerra? – Jo me encarou.

— Exato. Não sei o que ele tá fazendo, mas não tem demônio, eu juro. O Cavaleiro tá na cidade e a gente precisa encontrá-lo e pará-lo antes que mais alguém se machuque. Precisamos nos reunir. Quantos de vocês estão aqui?

— Não muitos – disse Rufus.

— Os demais estão na igreja.

Ouvi a voz de Castiel atrás de nós, e logo as armas apontaram pra ele.

— Calma, gente, tá tudo bem, ele é um anjo.

— É o que? – o outro homem perguntou.

— Eu sou um anjo do Senhor, meu nome é Castiel – ele se explicou.

— Achou algum demônio por aí? Eu não achei nenhum.

— Não há demônio na cidade.

— Algum sinal de Guerra?

— Eu não senti nenhuma presença diferente além da sua.

— Também não senti nada.

— Talvez o Cavaleiro esteja se camuflando.

Pode ser qualquer um, mas precisamos nos atentar à anéis— o encarei.

— Vamos escoltar vocês pra igreja – olhei para Rufus. – Precisamos reunir todos os sobreviventes e tirar vocês daqui em segurança. Posso contar com a ajuda de vocês?

— Pode – ele respondeu desconfiado. – Vou trazê-los. Jo, me ajuda aqui – ele a chamou, e o outro homem logo os seguiu.

— Pensei que sentiríamos quando a coisa estivesse perto – fitei Castiel.

— É, eu também, mas se você parar pra pensar, faz sentido que nós não o notemos.

— Como assim?

— Os quatro Cavaleiros representam coisas intimamente ligadas a esse mundo. Guerra é algo intrínseco à humanidade, uma coisa que beira o mundano. Não é natural, mas é comum, e está em todo o lugar em algum nível. Por isso não percebemos.

Respirei fundo, irritada.

— A gente não pode matar os Cavaleiros, não é?

— Não, porque a essência deles não pode ser exterminada.

— Que merda – praguejei entredentes. – Me lembra de moer a cara desse palhaço no soco.

— Faço questão de ajudá-la nisso.