Winds of Fortune
18 Capítulo 17
Estávamos em um hotel, acordados, inquietos. Ruby deitada na cama do Sam, ainda se recuperando, sendo remendada por ele, e eu em pé, de um lado para o outro, roendo minhas unhas, coisa que eu não fazia há muitos anos.
Dean havia saído para comprar alguma coisa para comermos, mas eu não conseguia comer nada. Estava nervosa demais, e ficando cada vez mais nauseada.
— Bella, você precisa pelo menos descansar – Dean me olhou. – Tá acordada há muito tempo, isso vai te fazer mal.
— Eu vou descansar quando o Castiel aparecer.
— Talvez ele demore pra aparecer – disse Sam. – Mas não fica preocupada com ele, ele é um anjo, vai dar tudo certo.
— Isso é pra servir de consolo? Porque, não sei se você lembra, mas tinha outro anjo lá e não deixou nenhum de nós tranquilos – o encarei. – Nós desobedecemos. Estamos ferrados. O fato de ainda estarmos respirando pode ser um milagre, sabia? Se eu perder minha santidade, eu tô mais ferrada ainda porque teremos uma arma a menos pra lutar contra os demônios.
— Olha só, não é culpa sua que isso tenha acontecido, tá legal? – Dean me encarou.
— Na verdade, é sim.
— Como assim? – Sam me olhou.
— Eu confrontei ele... – suspirei. – O lance de ‘‘ou eles ou a gente’’. Eu não devia ter feito isso. Eu deveria ter ficado quieta e ter deixado ele fazer o lance dele.
— Se tivesse deixado ele fazer o lance dele, Anna estaria morta – Dean me encarou.
— É, e agora, por causa do que eu falei, talvez todos nós acabemos mortos.
— Bella, escuta, você fez a coisa certa, tá? A gente fez a coisa certa. Não deixamos uma pessoa inocente morrer, e eu não tô nem aí se pros anjos o que ela cometeu é um crime que merece pena de morte. Ela só quis ser humana, isso não faz dela Lúcifer 2.0!
— Acho que eu fui ingênua de achar que poderia resolver algumas coisas na conversa, né? – me sentei na outra cama.
— É, foi mesmo – disse Ruby.
— Cala a boca – Dean a encarou. – A conversa não chegou no chiqueiro.
— Qual é? – Sam revirou os olhos. – Dá pra parar?
Apenas tirei minhas botas e me deitei na cama, de costas para a dupla dinâmica. Deixei que o sono me abatesse, porque me exaurir não seria bom para a Charlie.
E tão logo eu dormi, acordei em outro lugar.
Estava na sala branco onde havia me encontrado com Gabriel, onde havíamos nos conhecido. As coisas pareciam um pouco diferentes, mais aconchegantes, menos intimidadoras. Eu estava sentada em um sofá irritantemente branco, Gabriel sentado em outro à minha frente. Sem sorrisinho debochado, sem piadas.
Como se soubesse o que eu ia perguntar, ele apenas ergueu o indicador próximo à boca, me pedindo silêncio. Confusa, obedeci.
Ouvi uma porta se abrindo, e dela passou uma desconhecida. Uma mulher mais baixa que eu, gorda, vestida como um verdadeiro tomboy, de preto da cabeça aos pés, com uma bermuda na altura dos joelhos e uma camiseta extra grande do Linkin Park. Ela se aproximou de nós e ajustou os óculos quadrados ao rosto.
— Olha, só quero deixar claro que eu não planejei nada disso, mas você, dona Bella, me obrigou a vir aqui.
— Eu? – arqueei as sobrancelhas.
— É, você – ela se jogou no sofá onde Gabriel estava, se sentando com as pernas esticadas, as mãos repousando sobre a barriga, me encarando. Me analisando? – Qual parte do que o Gabriel te falou você não entendeu?
Pestanejei algumas vezes, confusa.
— Pelo visto ela não entendeu nada – Gabriel a fitou.
— Imaginei isso – ela suspirou irritada. – Olha só, dona Bella, o negócio é o seguinte – ela mudou de postura, se sentando mais inclinada à frente, os antebraços apoiados nas pernas enquanto me encarava. – Você quer vencer essa guerra? Quer manter a sua família a salvo no final pra todo mundo ficar bem?
— Quero, é claro que quero!
— Então você tem que confiar no plano! – me encarou. – Tem que confiar no que o Gabriel te falou, tem que confiar na nossa palavra, tá ligado?
— Mas do que você tá falando, afinal de contas? E quem é você?
— Quem eu sou não importa. Eu tô tentando manter vocês vivos até a batalha final, mas você tá se precipitando, agindo impulsivamente, deixando tuas emoções falarem mais alto. Não pode, Bella. Não pode fazer isso se quer vencer. Eu não te dei santidade à toa, mulher, te orienta!
Arregalei meus olhos, me recostando ao sofá.
— Você... Você é...
— Não, não sou Deus, tá? – revirou os olhos. – Eu até queria ser, mas eu não sou, agora escuta só: o arrombado que criou o universo onde vocês estão inseridos, que você pode chamar de Deus, tá solto por aí, entendeu? Ele já tá ligado que tem coisa estranha rolando, mas não sabe o que é exatamente porque eu e o Gabriel tamo dando nossos pulo, sacou? Eu tô me camuflando como eu posso pra não entregar o que eu tô fazendo, mas tu tem que facilitar o nosso trabalho, mana, senão a gente tá ferrado! Eu não posso fazer o que eu bem entender a hora que eu bem quiser, porque se eu fizer isso, tamo tudo lascado, entendeu?
Semicerrei os olhos, a olhando com desconfiança.
— Então... O que quer que eu faça?
— Quero que tu siga o plano, mana! Te faz de besta pra melhor passar, entendeu? Banca a sonsa, a Kátia Cega, faz a egípcia!
— Hã? – franzi o cenho.
— Resumindo: interpreta o seu papel – Gabriel me encarou. – Continue com as suas obrigações de santa, se for chamada, e continue caçando até não dar mais, porque quando a Charlie nascer, você estará muito ocupada com ela.
— É, imagino que sim – suspirei.
— Tu fez um movimento arriscado no jogo e agora o Castiel vai ter que se foder pra não entregar o nosso plano – ela cruzou os braços, se recostando ao sofá.
— Como assim? – me assustei.
— Castiel desobedeceu e será punido por isso – disse Gabriel. – Será castigado por ter devolvido a graça de Anna.
— E o que vai acontecer com a gente?
— Zacarias vai aparecer pra te dar uma prensa – ela disse, suspirando.
— Quem é Zacarias?
— O superior do Castiel, o que ameaçou você antes – Gabriel explicou. – Ele é insuportável, mas você tem que jogar o jogo dele pra não piorar a situação. Bella, você precisa agir conforme é ordenada, tem que seguir o plano, entendeu?
— Você não poderia simplesmente estalar os dedos e resolver tudo? – encarei a estranha, que arqueou as sobrancelhas e riu descrente.
— Amada, tu tá pensando que eu sou o que? – ela me encarou. – Esse universo tem regras, regras que não fui eu quem criou! Quer pegar o capeta no final? Quer que o mundo fique numa boa? Faz o que a gente tá mandando você fazer e fica suave. Presta atenção: a coisa vai ficar feia.
— Quão feia?
— Feia pra caralho. Tu vai sofrer, o Dean vai sofrer, o Sam vai sofrer, e vamos todos chorar horrores com isso porque vai doer muito, mas confia na mãe aqui, a gente vai conseguir. Confia no plano, segue ele. A gente vai arrebentar aquele bando de filho da puta no final e vai ser lindo. Vai rolar um monte de coisa que tu não vai gostar, e tu vai querer se meter e impedir essas merdas de rolarem, mas não faz isso, entendeu? Não. Faz. Deixa rolar, precisa rolar, faz parte do plano.
— Se esse plano é tão bom, por que Dean e Sam não estão aqui pra ouvir isso?
Ela suspirou, irritada, me encarando.
— Bella, tu é meu xodó e eu te amo, mas tu tem que entender que o buraco é mais em baixo.
— Vá direto ao ponto – me irritei.
— Eu conheço os dois melhor que você e dum jeito que você nunca vai conhecer, e sei exatamente quais são as reações que eles podem ter. Se tivessem aqui com a gente agora a coisa toda ia desandar.
— Por que acha isso?
— Eu não acho, eu tenho certeza. Sabe por que? Porque eu vi outra versão dessa história e sei como ela acaba, e eu odeio essa versão com todas as forças.
— Que versão?
Ela desviou o olhar por um momento, mordendo o lábio inferior. Por um momento, eu poderia jurar que ela tentava não chorar.
— Porque existe uma versão dessa história em que tudo dá errado. Tudo, Bella. Uma versão que o Dean vira um Cavaleiro do Inferno. Consegue imaginar o amor da tua vida virando um demônio? Dean sendo a coisa que você caça e mata, Bella! Dean sendo demônio, matando gente, ferindo o Sam e o Castiel, é esse o tipo de merda que eu fui obrigada a ver sem poder fazer nada!
O conceito me horrorizava mais do que eu podia suportar.
— Essa versão da história é a versão original, onde tu não existe pra ser o porto seguro dele ou do Sam. Uma versão onde o Castiel tem um final horrível e inaceitável, assim como o Dean. Eu e muitos outros que amamos eles de todo o coração fomos obrigados a engolir isso! Fomos obrigados a ver as vidas deles sendo destruídas de novo e de novo e de novo, num ciclo vicioso do caralho onde nada nunca podia dar certo porque Deus não permitia, porque Deus é um filho da puta do caralho, um desgraçado sem coração!
— Até eu morro nessa versão – Gabriel desviou o olhar.
— E foi uma merda isso também – ela completou. – Eu tive que ver todos eles morrendo sem poder fazer nada – a voz dela embargou e ela começou a chorar. – Porque eu não tinha poder pra mudar isso, entendeu? – ela fungou. – Eu quero salvar eles, eu quero te salvar, e eu quero que todos vocês tenham as vidas mais felizes e completas que puderem, mas eu não posso passar por cima das regras pra conseguir isso. Se eu deixar a cortina cair agora, a gente tá fodido, entendeu? Tem como você confiar em mim? Tem como você confiar no fato de que vai sofrer, mas que vai ficar feliz com isso porque no final nós vamos conseguir? Tem como, Bella?
Eu tinha muito a perder. Eu tinha tudo a perder, tudo o que me era mais precioso, todas as coisas sem as quais eu não poderia viver.
— Se eu obedecer as suas ordens... – pigarreei. – Pode me prometer que minha família ficará bem no final? Que os nossos amigos sairão ilesos?
— Sim. É o que eu mais quero, que vocês fiquem bem. Só preciso que mantenha segredo sobre o que a gente falou e que siga o plano.
— Castiel sabe do plano?
— Sabe partes dele. É mais fácil não saber de tudo.
— Então por que me contou tudo?
— Porque tu é fundamental pro plano dar certo. A gente tem que trabalhar junto, Bella. Tu é o pilar da família Winchester agora e não vai ser fácil pra ti. Vai doer, Bella, vai ser quase insuportável, mas é uma provação que tu pode superar. Pensa que quando tudo isso acabar a Charlie vai ter vocês e o tio dela, e vocês vão ter uma vida normal, segura e feliz, como sempre quiseram.
— Não sei se vou conseguir esconder essas coisas do Dean – desviei o olhar.
Ela se agachou a minha frente, segurando o meu rosto.
— Essa vai ser a sua maior provação. A mais insuportável, mas tu precisa aguentar. Tu ama eles?
— É claro que eu amo.
— Então confia. Confia em mim, confia no Gabriel, confia na tua força de vontade. Segue o plano e a vai dar tudo certo.
Confia, Bella.
Abri meus olhos de repente, percebendo que o quarto estava escuro. Dean estava dormindo ao meu lado, um de seus braços ao meu redor, me mantendo perto dele. Afastei seu braço devagar para não acordá-lo, me levantando da cama.
Ruby não estava mais na cama. Sam estava dormindo sozinho.
Ouvi um bater de asas e me virei rapidamente. O anjo que me ameaçou estava ali. O tal Zacarias.
— Olá, Isabella. Vamos conversar?
Fale com o autor