Notas iniciais
crianças, estão com os seus lencinhos? não? peguem seus lencinhos! eu só queria dizer que: sim, o que vai acontecer é uma coisa que eu tinha planejado, mas não, não era pra acontecer nesse capítulo. não sei, a história se escreveu sozinha.

Aquela foi uma manhã horrível.

Dean havia dirigido a noite toda para chegarmos no lugar onde Sam havia concluído que a graça de Anna havia caído, um lugar que podíamos chamar de Marco Zero da pura criação a partir da caída da graça naquele ponto.

E no momento em que Anna tocou o enorme carvalho onde a graça deveria estar, soube que já havia sido removida.

Não tínhamos plano B, não tínhamos nenhuma arma que pudesse matar anjos. E mesmo que tivéssemos, eu não a usaria para matar Castiel. Não havia realmente nenhum lugar onde pudéssemos nos esconder e não havia tempo para fugir de volta para a casa do Bobby. Nem mesmo era uma decisão inteligente, já que isso poderia colocá-lo em perigo por culpa nossa.

Só me restava apelar. Eu não sabia se já havia deixado de ser Santa, que receberia uma condenação, também, por desobediência. Tecnicamente, eu não havia feito nada de errado, nada além de defender uma vida humana, o que era parte do meu dever.

Estávamos escondidos em um celeiro abandonado no meio do nada, esperando pela morte, praticamente. Dean e Sam estavam de guarda com Anna. Ruby havia sumido no meio da noite, provavelmente para nos trair.

E eu fiquei caminhando um pouco do lado de fora do celeiro, olhando para o nada, pensando em tudo.

Desobediência.

Qual preço eu teria que pagar pela minha desobediência? Acariciei minha barriga, pensando em Charlie. Pensando na nossa casa, na nossa família. Eu precisava apostar na crença de que ela não seria ferida, precisava contar com aquilo.

— Castiel – eu o chamei, olhando para a noite sem estrelas. – Por favor. Não quero brigar. Eu só quero conversar.

Ouvi o bater de suas asas atrás de mim. Me virei para vê-lo, e ele não parecia muito tranquilo. Parecia... Apreensivo.

— Cadê aquele mal educado?

— Uriel está falando com Dean nesse exato momento – ele engoliu a seco. – Em sonho, pelo menos.

— Castiel, Anna não merece morrer.

— Não questionamos as nossas ordens! – ele esbravejou, no que eu recuei. Ele pareceu envergonhado em fazer isso, depois. – Não cabe a nós fazer isso. Sabia disso quando começou a trabalhar comigo.

— Não sabia disso quanto eu te disse sim para salvar a vida do Dean. Nós deveríamos proteger as pessoas, Cass.

— Anna desobedeceu, assim como Lúcifer!

— Lúcifer quer destruir a humanidade, ou por ciúme ou por inveja! Você ao menos olhou pra Anna? Ela só queria uma família, assim como eu.

— Vocês duas são completamente diferentes. Você sempre foi humana, Bella.

— E desde quando isso me isenta de alguma coisa? Não tá vendo, Castiel? Deus não se importa! Ele não se importa com o que fazemos!

— Como pode dizer isso?!

— Se ele realmente quisesse que Anna morresse, bastaria que estalasse os dedos! Ele é o Todo-Poderoso, governante de tudo que há! Mas em vez de Ele mesmo arregaçar as mangas e colocar ordem na casa, em vez de Ele se fazer presente, Ele coloca irmão contra irmão, e pelo que? Uma futilidade! Mandou vocês a matarem só porque ela teve vontade própria, não está vendo?

Me aproximei dele, no que ele desviou o olhar, envergonhado.

— O Deus a quem eu rezo e o Deus que nos dá ordens, Castiel... Acha que é o mesmo? Acha que o Deus que me concedeu graça e poder para salvar milhares dos seus faria isso?

— Não faça isso, eu imploro, não desobedeça – ele engoliu a seco.

— Não estou fazendo nada. Anna conhece vocês melhor que eu, ela já sabia que ameaçariam Dean. Que nos ameaçariam – respirei fundo, fechando os olhos. – E é isso que eu não entendo. Se você nos ama tanto, por que permitiria que algo assim acontecesse conosco só pelo fato de tentarmos salvá-la?

— Eu não amo vocês – me deu as costas.

— Então por que me vigiava todas as noites? Por que impediu tantas vezes que eu botasse uma bala na minha cabeça? Por que me acudiu quanto eu estava aos prantos?

— Eu fiz o que precisava ser feito para que você ficasse viva.

— Por que tranquilizou a mente do Dean quando ele teve pesadelos? Se realmente não nos ama, por que estava na nossa casa, o ajudando a preparar o quarto da nossa filha? Se realmente não se importa com nenhum de nós, por que fez tudo isso? Não eram essas as suas ordens – me aproximei para vê-lo.

— Bella, eu não posso. Não posso fazer isso.

— Eles ou a gente, não é? – olhei para o céu. – Bem... Se Gabriel me destituir do posto, eu só gostaria de dizer que foi uma honra servir ao seu lado. Foi uma honra servir a esse Deus de amor e misericórdia que me permitiu salvar tantas vidas. Obrigada por tudo, Castiel. Dean e eu nos lembraremos de você com carinho.

Me aproximei, beijando-o na bochecha, e lhe dando as costas em seguida, refazendo meu caminho de volta ao nosso esconderijo.

Por mais que me doesse, e por mais que eu chorasse, eu não olhei pra trás. Eu não podia. Desobediência. Fazer a coisa certa nem sempre significava obedecer ordens.

Dean logo percebeu que tinha algo errado quando eu voltei. Me abraçou forte, deixou que eu chorasse o tempo que precisava. Contei o que havia feito, e ele me contou sobre a ameaça de Uriel.

Estávamos ferrados.

Anna sem sua graça, eu sem saber se ainda tinha algum poder, e Ruby desaparecida. Só tínhamos uma pequena faca para lidar com os demônios, e nada mais.

Aquele amanhecer não nos inspirou esperança.

Estávamos dentro do celeiro, ansiosos, sem saber o que esperar. Ninguém havia cochilado muito.

— Eu agradeço que tenham tentado – Anna tentou nos animar. – Arriscaram tanta coisa por mim, e eu sou só uma desconhecida.

— Precisávamos fazer a coisa certa – disse Sam. – Você não merece morrer porque pensou por si própria. É injusto e cruel.

— Assim como as ordens de Deus.

Os ventos se agitaram ao nosso redor e foi o que bastou para que Sam e Dean ficassem na defensiva à nossa frente. Anna e eu demos as mãos, tentando inspirar coragem uma na outra, mas, verdade fosse dita, estávamos morrendo de medo.

Castiel e Uriel, o anjo mal-educado, surgiram à nossa frente, depois de arrebentar a porta do celeiro para entrar. No pescoço de Uriel estava um frasco com a graça de Anna. Tinha que ser coisa daquele espertinho, chegar na graça dela antes de nós.

— Nos entregue a traidora – disse ele. – Não vou falar duas vezes.

— Como foi que nos acharam? – Sam perguntou perplexo.

Dean baixou os olhos para o chão, envergonhado. Anna largou minha mão, tocando o ombro dele por um momento.

— Fez o melhor que pôde. Agradeço por tudo. Todos vocês – nos entreolhou antes de se afastar, dando alguns passos à frente. – Sejam rápidos.

— Ah, não, não, não, não toquem em um fio de cabelo dessa pobre garota!

Nos viramos para ver quem chegava. O demônio terrível de antes, acompanhado de mais dois, que carregavam uma ensanguentada Ruby consigo. O que a idiota tinha feito para ser capturada?

Quando a tensão começou a aumentar, nós saímos do meio. Eu não tinha o mínimo interesse em me meter naquela briga, eu tinha Charlie com quem me preocupar.

Ruby foi jogada ao chão, no que ela saiu se arrastando, enquanto nós quatro procurávamos abrigo em outro lugar, deixando que céu e inferno discutissem o quanto quisessem. Uriel não perdeu tempo, avançando para os outros dois demônios, com quem lutou ao mesmo tempo, enquanto Castiel se ocupou com o pior.

Ele tentou matá-lo, sem perder tempo, mas, para o nosso choque, ele nem chegou perto de ferir o desgraçado.

E o pior foi quando o demônio tentou expulsar Castiel do corpo de Jimmy. Dean e eu não pensamos, apenas nos levantamos para ajudá-lo. Dean foi pra cima do demônio, o acertando com um pé de cabra e o deixando atordoado por um momento, tempo o suficiente para eu colocar minhas mãos nele e queimar seu rosto.

Ainda sou digna!

Sam me tirou de perto dele antes que ele conseguisse me golpear e eu nunca antes fui tão grata à aquele fujão. Ele tentou acertar o demônio usando a faca de Ruby, mas acabou levando um soco e a faca foi ao chão.

No meio daquela confusão, Castiel se levantou e correu até Uriel, tirando o frasco de seu pescoço, e o entregando a Anna. Todos nos entreolhamos em choque.

— O que pensa que está fazendo, Castiel?! – Uriel gritou com ele assim que matou o demônio que restava.

— O que eu deveria ter feito há muito tempo!

Anna jogou o frasco no chão, o quebrando, e todos vimos a graça retornar ao corpo de sua verdadeira dona. Ela logo caiu, provavelmente atordoada por receber tudo aquilo de uma vez, e nos mandou fechar os olhos, mas eu não resisti. Estava hipnotizada com aquela quantidade absurda de luz emanando dela.

Então ela explodiu, sua graça nos transpassando por um momento. De alguma forma, o demônio que sobrou, o mais perigoso, foi tragado pela luz e desapareceu.

Mas ainda restava um problema. Uriel estava perplexo, encarando Castiel.

— Por que nos traiu? Por esse bando de macacos pelados?! Eu sou seu irmão! Nós somos a sua família, não eles!

— Você sempre será o meu irmão, Uriel – disse ele enquanto se aproximava. Então, de dentro da manga do sobretudo, eu vi sua espada descer, e ele a segurou firme. – Mas eu tenho outra família com a qual me preocupar agora – ele nos olhou por um momento.

— Traidor! – Uriel avançou para ele.

Uma violenta briga se deu início. Eu queria ajudar, mas nem ao menos sabia como.

— Saiam daqui! – Castiel gritou. – Eu cuido dele!

Sam correu para pegar Ruby em seus braços, e Dean pegou a faca dela do chão, nós quatro correndo para fora dali. Eu nem ao menos tive tempo de vê-lo uma última vez antes de sairmos do celeiro abandonado.

Entramos todos no carro, eu tentando estancar o sangramento de Ruby fazendo pressão sobre o mesmo, barrando meu contato à pele dela com a minha jaqueta, e Dean acelerou com o Impala para longe dali.

Deus, se você realmente se importa, proteja Seu filho desobediente.