Winds of Fortune
16 Capítulo 15
Já era outro dia quando chegamos na casa do Bobby. Me senti com peso na consciência por chegarmos daquele jeito, assustados, cansados, com uma desconhecida para proteger de anjos e demônios. Eu precisava tirar o meu da reta e não fazia ideia de como conseguiria aquela proeza, mas ao menos Anna estaria protegida no quarto do pânico. Ruby fez saquinhos de bruxas para todos nós, para manter todos afastados, mas eu sabia que usar um daqueles era perda de tempo.
Eu não tinha como me esconder dos anjos.
Enquanto Ruby ficava de olho em Anna, nós três subimos para conversar com o Bobby e discutir o que sabíamos a respeito da garota, além, é claro, de chamar Pamela Barnes. Aparentemente, quando Anna era pequena, ficava histérica toda vez que o pai se aproximava dela e dizia que seu verdadeiro pai queria matá-la, o que era terrível, considerando que ela só tinha dois anos na época. Se ela não se lembrava de como sabia certas coisas, talvez hipnose ajudasse.
Dean e eu nos olhamos por um momento em uma discussão via olhar sobre contar ou não ao Bobby naquele momento. E é claro que ele percebeu o que estávamos fazendo. Cruzou os braços, nos olhando com os olhos semicerrados.
— O que foi que vocês dois aprontaram?
— Bobby – Dean pigarreou. – É melhor você se sentar.
— Tá legal – ele revirou os olhos, se sentando em sua cadeira atrás da mesinha da biblioteca. – Qual é a grande bomba dessa vez?
Mordi o lábio, ansiosa, e Dean gesticulou para a minha barriga.
— Tem um pãozinho no forno! – disse animado.
Bobby deixou seu queixo cair, nos olhando.
— É pegadinha?
— Não, não é – Dean tirou do bolso da jaqueta a foto da ultrassonografia para mostrar à Bobby. – Olha, essa é a Charlie.
— Quanto tempo? – Bobby perguntou enquanto olhava a foto.
— Quatro meses – respondi.
— Quatro meses?! – arqueou as sobrancelhas. – Então isso foi...
— Foi logo depois que eu saí do inferno – Dean sorriu sem jeito.
— Pelo amor de Deus, vocês são o que? Dois coelhos?
— É o que eu vivo dizendo – Sam riu.
— Mas você estava perdendo peso – Bobby me olhou.
— Anemia, mas agora eu tô melhorando, juro, tô me cuidando direitinho.
— Seus dois idiotas – ele sorriu, se levantando para dar um abraço em Dean e depois em mim. Claramente ele estava tentando não chorar. – Você nem deveria estar trabalhando, Bella, precisa ter cuidado.
— Estou tendo, juro.
Esperamos por Pamela, a quem explicamos brevemente a situação de Anna. Bobby estava cuidando de um caso, então deixou a casa aos nossos cuidados depois que ele saiu, dizendo que se quebrássemos alguma coisa, teríamos que pagar.
Descemos todos até o porão, a acompanhando até o quarto do pânico, onde ela começou a sessão de hipnose colocando a garota em um estado de relaxamento, de sono, para que sua mente pudesse se abrir. Dean, Sam, e eu nos amontoamos ali dentro, curiosos, e Ruby ficou do lado de fora, observando tudo.
— Está me ouvindo? – Pamela perguntou à Anna.
— Tô te ouvindo.
— Então, Anna, diga pra mim: como você escuta os anjos? Como fez o encanto? – se referiu ao banimento de Castiel.
— Eu não sei. Eu só fiz.
— O seu pai. Qual era o nome dele?
— Rich Milton.
— Tudo bem, mas eu quero que volte mais, até o seu tempo de criança, quando tinha dois anos.
— Eu não quero – suas pernas começaram a se mexer, inquietas.
Dean e eu nos olhamos apreensivos. Aquilo era mau sinal.
— Tá tudo bem, Anna, só um pouco, é tudo o que precisamos.
— Não – Anna virou o rosto.
— Qual é o nome do seu pai? O seu pai de verdade.
— Não! – ela começava a se agitar.
— Por que ele está com raiva de você?
— Não! – ela começou a se contorcer. – Ele vai me matar! – ela gritou.
— Acalme-se – Pamela pediu. As luzes começaram a piscar. – Você está segura.
— Não! – ela se sentou na cama, as lâmpadas do quarto estourando uma atrás da outra e a pesada porta de ferro sendo bruscamente fechada, assustando Sam.
— Acalme-se, está tudo bem, Anna!
— Pamela, é melhor parar! – eu disse.
— Anna – ela se aproximou para fazer com que ela se deitasse na cama novamente. – Acorde em 1, 2, 3, 4, 5 – tocou sua cabeça, afastando os cabelos ruivos do rosto dela. – Anna? Você está bem?
Ela demorou um pouco para abrir os olhos, mas quando o fez, nós sabíamos que alguma coisa havia mudado. Ela se sentou na cama, olhando para Pamela com mais segurança, mais certeza de alguma coisa.
— Obrigada. Ajudou demais. Agora eu me lembro.
— E o que é que você lembra? – Sam a encarou, abrindo novamente a porta para que Ruby pudesse ouvir o que ela diria.
— Quem sou eu.
— Sinistro! – Dean olhou pra ela. – E quem é você?
— Eu sou um anjo.
Pamela começou a se afastar dela lentamente, receosa.
— Não precisa ter medo de mim.
— Interessante você dizer que é um anjo – a encarei. – Porque eu só tô vendo uma garota humana na minha frente.
— É porque eu caí.
— Caiu? – Dean perguntou confuso.
— Caiu na Terra, virou humana – Pamela esclareceu.
— Espera aí, eu não entendo – disse Sam. – Então os anjos podem virar humanos?
— Sim, mas dói – Anna cruzou os braços contra o peito. – É como cortar seu fígado com uma faca de serra. Dói muito. Eu removi a minha Graça. Eu removi e caí.
— Como é que é? – Dean franziu o cenho.
— A Graça, a energia dos anjos – esclareci. – Deve ser por isso que eu não a enxergo como um anjo, agora. Está com um corpo humano, totalmente humana.
— Basicamente – Anna assentiu.
— É por isso que querem matar você? – Pamela a olhou.
— Ordens são ordens. Eu desobedeci, fui sentenciada à morte por isso, pelo visto.
— Eu acho que vocês nem percebem como estamos ferrados! – Ruby chamou nossa atenção.
— Tem razão – ela olhou para o demônio. – O Céu me quer morta.
— E o Inferno a quer viva! – Ruby completou. – Um anjo de carne e osso pra interrogar, torturar, e que sangra! Irmã, você é um prêmio, e cedo ou tarde o Céu ou o Inferno vão achar você – a encarou.
— Eu sei, e é por isso que vou pegar a minha Graça de volta.
— Pode fazer isso? – Dean perguntou.
— Se eu achar... – ela assentiu.
— E depois? Você vai fazer a mágica do divino, gritar Shazam e criar asinhas?
— Mais ou menos assim.
— Beleza, adorei o plano. E onde é que tá a sua graça?
— Eu perdi a pista. Eu estava caindo a mais de quinze mil quilômetros por hora.
— Peraí — Sam chamou sua atenção. – Você diz cair, assim, literalmente?
— É.
— Do jeito que a gente pode ver como um cometa ou meteoro?
— Quer saber por que?
Sam tinha um bom palpite de quando e onde Anna e sua graça haviam caído. Não me meti a procurar com ele, deixei que pesquisasse a vontade, porque não queria ficar perto da demônio. Depois que Pamela foi embora, não nos restava muita coisa a fazer.
Em teoria, a graça dela havia caído no Kentucky, o que significava que teríamos que encontrar um lugar no estado inteiro onde havia mais chance de a graça ter caído. Não era exatamente simples.
A noite caiu, Bobby ainda não tinha voltado, e, ao que parecia, não voltaria tão cedo. Dean saiu para comprar comida pronta para nós enquanto Sam continuava pesquisando possíveis lugares onde a graça de Anna poderia estar.
E nós duas estávamos do lado de fora da casa, escoradas em uma carcaça de carro, conversando. Anna olhava para o céu estrelado com certa melancolia.
— Sente saudades de casa, não é? – perguntei.
— Sim. Dos meus irmãos, que agora querem a minha cabeça. A culpa não é deles. Eles não foram ensinados a pensar por si mesmos, nós não somos incentivados a ter vontade própria, opiniões. Não podemos discordar das nossas ordens, ou desobedecer, ou querer coisa alguma.
— Foi por isso que quis cair?
— Sim. Estava cansada de só ficar aqui, olhando vocês, com saudade de casa e de um pai que eu nunca conheci. Queria uma família para chamar de minha, queria experimentar o que vocês comiam, sentir o calor do sol no meu rosto como uma de vocês. Eu só queria ser livre, e olhe pra mim agora – deu de ombros. – Com a cabeça à prêmio.
— Não é sua culpa.
— Eu provoquei isso.
— Anna, seu pai é, no mínimo, problemático.
— Você é uma Santa – franziu o cenho para mim.
— É, e isso apenas me fez ter mais certeza.
— Certeza de que?
— Que Ele é problemático, que não se importa de verdade com nenhum de nós. Pensa comigo, você sente que Ele quer te matar, e Ele pode até ter mandado seus irmãos atrás de você, mas sendo Ele o Todo-Poderoso, omnisciente e omnipotente, Ele não poderia simplesmente fazer você cair morta?
— Pensando assim... – ela baixou os olhos para o chão.
— Talvez, no fim das contas, Ele só nos veja como brinquedos, e não como filhos. Porque, se Ele realmente se importasse, não teria deixado o mundo se tornar o caos e desgraça que é hoje. Mas essa é apenas a minha percepção. Não passo de uma humana ignorante. Só sei que eu tive um pai, e você também teve um, e nós duas sabemos que bons pais cuidam de seus filhos, os ensinam, os auxiliam, e querem que sejam felizes. Te parece que o Pai de cima é dessa forma?
— Não – ela negou com a cabeça.
— Às vezes eu acho que o Deus para quem eu rezo e o Deus que me dá ordens não é o mesmo.
— Muitas vezes é o que eu sentia, também.
— Não quero que você morra – a olhei. – Mas não quero lutar com Castiel, também. Ele foi o único que esteve ao meu lado quando eu quis desistir de tudo. Ele conheceu os meus martírios, as minhas tentações, testemunhou minha falta de fé e o renascimento dela. Nos protegeu inúmeras vezes. Tirou o Dean do Inferno, está cuidando de nós – acariciei minha barriga. – Eu não suportaria levantar a mão para ele.
— Você o ama, não é?
Aquela pergunta me pegou de guarda baixa.
— Tá tudo bem, eu não vou contar pro Dean – ela riu um pouco. – A verdade é que dá pra notar que vocês dois o amam só pela forma como falam dele. Castiel sempre foi um irmão muito carinhoso, mesmo que não tenha muita noção de espaço pessoal e seja um pouco desligado de alguns conceitos mundanos. Eu o amo também. Mas eu amo mais a minha liberdade, e não abrirei mão dela. Eu sei que os anjos vão usar vocês duas contra mim – ela estendeu sua mão para afagar minha barriga. – E sei que obrigarão Dean à me entregar.
— Dean nunca faria isso – franzi o cenho.
— Ele faria – me fitou. – Vocês são a família dele, e duvido muito que ele esteja interessado em voltar pro Inferno. Mas quero que saiba, quando isso acontecer, porque eu sei que vai acontecer, que eu sei que não é nada pessoal – esboçou um sorriso. – Todos nós temos os nossos próprios motivos para continuar lutando. E tá tudo bem, também.
— Eu sinto muito, Anna.
— É – suspirou. – Eu também.
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