Wind Walker - O Mercenário Voador
19 D - Lembranças de infância - Amigo
Notas iniciais
Confesso que fiquei um tanto confuso com o fato de minha mais recentemente adquirida irmã ter me puxado pelo braço, convidando-me a sair. Convenhamos que este “convite” se parecia muito com uma obrigação. Surpreendentemente, apesar do susto, tive vontade de ir com ela. Não sei o que deu em mim, mas, ao olhar o brilho dos seus olhos, era evidente que esta pessoa que seria apresentada era alguém que, digamos, “vale a pena”.
Ao sair daquele estabelecimento cinzento e monótono, passando pela porta automática, senti a gostosa brisa do dia fresco que estava lá fora. Grandes árvores se erguiam próximas a nós, exibindo sua beleza forte e rústica. Pequenos pássaros equilibravam-se em seus galhos enquanto montavam seus respectivos ninhos alegremente.
Interrompi os meus pensamentos ao perceber de relance uma sombra se mover rapidamente em cima das árvores, como se tivesse atravessando os galhos, sem dificuldade. O que era aquilo? Será que era real? Tudo o que sabia é que ela tinha facilidade em se mover sem fazer nenhum barulho.
=/-/=
Pausando um pouco esta lembrança.
Ao mesmo tempo em que narrava tal acontecimento, saiba que não fiquei parado na cama como um inútil, levantei-me da cama e fui terminar os preparativos finais para sairmos daquele hotel. Tais como: Vestir a roupa e me espojar na cama, assistindo preguiçosamente a televisão enquanto esperava minha irmãzinha terminar de se arrumar.
Um detalhe importante: Alyssia não confia em mim o suficiente para trocar a roupa em minha frente. Até aí, normal. Mas, por incrível que pareça, ela confia no Lúcio a ponto de realizar este feito sem hesitação. Bizarro? Com certeza. Não que eu queira vê-la nua, não é isso. Mas, sei lá, ela e ele, desta forma... Me incomoda um pouco, sabe?
Repentinamente, dei conta que eu não sabia quase nada a respeito daquele menino. Eu sempre vivia ocupado demais tentando provar que era melhor que ele em algo. Sem sucesso, diga-se de passagem. Mas nunca me preocupei em saber mais sobre aquele que, no fundo, era meu grande amigo. Apesar de todas as vezes que eu recusei uma ajuda vinda dele por puro orgulho, ele era, sim, meu amigo.
Mas, fora isto, Alyssia parece gostar de um amigo do que seu próprio irmão. Isso é normal? Eu queria um pouco de consideração, seria pedir demais? Não sei se estou sendo justo, mas um irmão é, acima de tudo, um membro da família, e, como tal, deve ter o respeito e a confiança que lhe cabem. O que aconteceu entre eles dois para ficarem assim?
Percebi, tarde demais, que era para ter começado a ouvir a conversa deles dois um pouco antes. Lembra-se de quando estávamos nos deslocando da nossa casa para a cidade com os veículos flutuantes? Que eu falei que tinha ouvido totalmente a conversa deles dois? Na verdade eu só comecei a escutar no finzinho, quando minha irmã estava descrevendo o Lúcio. Sem comentários. O fato é: Alyssia considera Lúcio um membro da família. Na verdade, agora ele é. De certa forma. Mas, quem será que ela considera mais “Irmão”?
Deixe isso para lá. Vou continuar a minha narração:
=/-/=
Onde eu estava?
Sim. Nós saímos andando pela porta da frente do aeroporto, Alyssia me puxando pelo braço, e eu tentando não cair. Nosso caminho foi um pouco longo, talvez devido ao fato de não estar acostumado a andar muito, passamos por algumas casas enquanto tomávamos rumo ao litoral.
Já comentei que o litoral desta cidade é muito bonito? Sim, é muito lindo. Podíamos ver toda a linha do horizonte ser marcada por um mar cristalino e silencioso. Meu rosto ficou um pouco molhado ao nos aproximar daquelas águas, e, tudo o que consegui ver era que estávamos caminhando em direção da ponta da península em que ficava a cidade. Uma grande casa ficava naquele lugar, suas paredes eram brancas e imponentemente altas, fazendo com que eu me sentisse inferior e baixo.
Minha irmã notou que eu estava contemplando aquela grande construção e comentou:
-É grande, não? Esta é a casa de Luk... Lúcio
-Quem é Lúcio? – Indaguei, acordando para a realidade
-O garoto que quero lhe apresentar
Um garoto? Ela quer me apresentar para um garoto? Será que eles dois são...
-Qual a idade dele?
-Ele aparenta ser mais velho, mas tem onze anos – Respondeu ela, segundo o seu costumeiro tom macio ao falar.
-Como assim?
-Ele aparenta ter mais idade somente pelo olhar – Respondeu ela, num tom ligeiramente pensativo, como se estivesse imaginando o rosto do garoto ao falar – Seu rosto sempre aparenta um cansaço incomum, criando a impressão de estar segurando eternamente um sofrimento muito grande.
Notei que agora ela encontrava-se pensativa, olhando fixamente para um ponto naquela casa enquanto sua mente estava muito longe daqui. Tentei encontrar outro assunto para falar, mas não consegui pensar em nada. Até que uma ideia me ocorreu:
-Então vamos conhece-lo – Falei, tentando demonstrar a disposição que eu não estava sentindo em relação a aquilo tudo.
Seus olhos se iluminaram novamente, demonstrando agradecimento, e caminhou mais rapidamente em direção àquela imponente construção. Deixando-me, por um minuto, um tanto atordoado, mas, logo depois, olhei para ela e corri para alcança-la.
Toda a casa parece maior quando olhada de perto, mas, esta aqui era um exagero. Notava-se claramente que aquilo tinha espaço de sobra para qualquer coisa. Será que as pessoas daqui estavam acostumadas a ter tal espaço normalmente? Tomara que sim, desta forma, eu iria morar em uma casa igualmente grande, certo?
Minha nova familiar agora abria a porta da pequena cerca que demarcava aquela grande propriedade, caminhando alegre e convidativamente em direção à porta frontal do edifício, a qual estava estranhamente aberta, revelando a bonita sala de estar daquele local. Um grande sofá estava localizado em um dos cantos da casa, virado em direção a uma grande televisão. Um homem de aparência simpática estava sentado neste, lendo o que me parecia um livro-texto sobre modelos de armas mais utilizadas antigamente.
Adentrei àquele aposento na mesma hora que minha irmã interrogava ao senhor:
-Olá Senhor Árion, sabe onde o Luke está?
-O Lúcio? – Repetiu com uma voz grave e agradável – Acho que ele não está em casa.
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