Wind
8 Capítulo 06 - Fragmentos
O Solar da Colina possuía uma beleza decadente, Viecier lembrava de quando ainda era criança e andava pelos corredores vazios, pelos salões de baile fechados e pelos quartos cuja mobília fora coberta com panos para evitar a poeira. Em sua mente infantil ela conseguia ver perfeitamente o tipo de pessoa que morara ali, gostava de imaginar que havia uma menina exatamente como ela e uma mãe melhor que a sua, uma família nobre e honesta. Quando ficara mais velha descobrira que de fato uma família nobre morara ali, mas uma não tão boa quanto ela imaginava. Uma esposa doente, uma marido violento e três crianças mortas, e então o nobre senhor da casa casara com sua bela segunda esposa e toda a mansão ruíra, sufocada por um infortúnio atrás de outro até que restasse a sua bela senhora e sua dama de companhia. Isso fora há séculos atrás, mas Vie sabia que a ruína daquela casa fora sua mãe.
Os acontecimentos deixavam sua mente confusa e ela não sabia onde a consciência se misturava com o sonho. Se lembrava dos pazyrainik daquela noite, estavam demasiado perto da casa, o que era de fato incomuns. Eles eram criaturas grandes, duas vezes o tamanho de um homem comum, que se assemelhavam bastante à sombra de uma pessoa e rondavam cemitérios e templos durante à noite, em busca de algum desesperado tolo o suficiente para segui-los até o seu ninho, onde seria lentamente devorado, de preferência vivo. Os pazyrainik costumavam rondar o pequeno templo do outro lado da colina, mas não era uma atitude normal para eles subir até tão perto do território das bruxas. Não era lógico que criaturas tão baixas se aproximassem tanto dos feitiços fortes que cercavam a velha mansão, no entanto, ali estavam eles como abutres, apenas esperando algo. Normalmente bastaria algumas palavras e um pouco de energia para que ela expulsasse os carniceiros de sua propriedade, mas naquela noite a presença deles a estava deixando inquieta e com um sentimento ruim.
Conforme se aproximava de casa o sentimento se agravava, mas ela queria acreditar que era tudo bobagem. Pôs as mãos trêmulas sobre a madeira, no entanto aquela voz da sua cabeça fez com que ela parasse. "Escute" a voz lhe dizia, então, com cuidado para não fazer barulho, Viecier encostou o ouvido esquerdo contra a madeira fazendo uma pequena prece para que fosse capaz de escutar. A casa parecia silenciosa, mas um pouco de concentração fez com que ela ouvisse o som inconfundível de osso sendo quebrado, ou melhor, triturado. Não aguentando mais escutar por um segundo, ela ignorou a voz em sua cabeça e entrou na casa de supetão, paralisando assim que seus olhos se acostumaram com a pouca luminosidade. Ela havia visto aquele ser apenas uma vez há muito tempo, o ser na floresta que provara que todas as histórias que lhe contavam não eram apenas histórias. Ele estava parado sobre uma grande poça de sangue e os olhos sem vida da empregada favorita de sua mãe a encaravam.
A criatura lentamente se virou para Viecier, expondo os grandes dentes manchados de vermelho carmesim.
— Viecier, corra! — Gritou a mãe, cuja presença ela não havia notado até então, ecoando a voz antiga em sua cabeça.
Mas ela não conseguia correr. Naquele momento todo o seu aprendizado, toda a magia e todo o poder acumulado ao longo dos anos, pareceram não importar. Ela era de novo aquela menina com um vestido branco antiquado, assustada de mais pra se mover. Contudo, haviam grandes verdades nesse mundo e uma delas era que quando você não faz as escolhas, as escolhas são feitas por você, e aquela escolha foi feita por sua mãe.
— Menina idiota! — reclamou ela e depois de um breve suspiro deu um passo para fora do círculo protetor desenhado em chão com terra.
Antes que a criatura pudesse pensar em se aproximar de Viecier, a bruxa mais velha se atirou contra ele e ambos sumiram em uma nuvem de fumaça escura, como se nunca tivessem estado ali. Um grito de agonia deixou os lábios da bruxa mais nova sem que ela notasse e seus joelhos cederam fazendo com que ela caísse com um baque no chão, o som abafado pelas camadas de tecido que cobriam suas pernas. Sem ter controle das próprias pernas, ela se arrastou até a poça de sangue onde estivera o corpo morto e onde sua mãe sumira. Suas mãos estavam sujas, a terra preta que sujava o chão impecável misturada com o sangue vermelho em suas mãos douradas. Sua cabeça girava tentando entender o que acontecera, tentando entender como a bruxa mais poderosa do condado simplesmente sumira em uma nuvem de fumaça. Ela ainda procurava por uma explicação, tentando buscar nas memórias dos livros que lera, quando a barreira da casa fora quebrada.
Por mais que estivesse se sentindo desolada e confusa, aquela parte da sua mente gritava pedindo uma ação, ela precisava sobreviver ou o sacrifício da mãe seria desperdiçado. Viecier desligou tudo que era lógico e minimamente humano, deixando com que os instintos de predador tomassem a liderança de seu corpo. Ela captou um vulto e automaticamente se jogou contra ele, o corpo a corpo era bom pois o contato direto permitia que ela retirasse parte da energia de sua "presa" deixando-a mais vulnerável, pois apesar de tudo ela não tinha mais força do que uma mulher normal. Parecia bom o bastante para funcionar, contudo, quando estava próxima o bastante para ver os olhos de um azul acinzentado, uma pancada na parte de trás de sua cabeça fez com que tudo a sua volta girasse, espirais trazendo aquela familiar escuridão.
Lhe parecia como se cada um de seus ossos tivesse sido triturado, entrara e saíra da inconsciência diversas vezes, tendo apenas algumas memórias febris do que lhe acontecera. Havia sido banhada por um grupo de mulheres que trocaram as roupas imundas por uma camisola simples azul, fora colocada em um quarto e alimentada naquele estado de semi lucidez. Agora, com sua mente completamente acordada novamente, ela precisava saber onde estava e como havia chegado ali. A cama onde estava era bem maior do que a cama que tinha em casa, as cortinas de gaze branca caindo do dossel como um véu que a separava da realidade. Seu corpo protestou quando ela tentou se levantar, mas fora criada para aguentar muito mais que aquilo. Após passar a tontura por se levantas lentamente, Viecier fez uma rápida avaliação em si mesma: sua cabeça doía e aparentemente havia um curativo na sua nuca, seus membros estavam doloridos por ter passado muito tempo deitada, mas não parecia estar machucada ou maculada de qualquer forma... bom, então ela não precisaria começar com a violência. Diferente da mãe, que era imediatista e nada sutil em seus métodos, Vie gostava de dançar conforme a música era tocada e utilizar o máximo possível de sua aparência para esconder a sua verdadeira natureza. Testou as pernas e estava prestes a sair quando uma garota, talvez pouco mais nova que ela, entrou.
A garota era alta e tinha cabelos vermelhos cacheado, um rosto muito redondo e pálido tomado por sardas que não tornavam menos atraentes os seus olhos castanhos. A garota, que usava um uniforme de empregada azul escuro, derrubou a bandeja que trazia, contendo um prato fundo com uma sopa rala de aparência nada apetitosa. Ela cobriu a boca com as mãos pra evitar um grito assustado e custou muito para Viecier não rir da situação, nesse momentos ela sorriria e se aproximaria com cuidado e uma expressão que transbordasse doçura, mas a mulher rapidamente retomou a sua face profissional e se abaixou para limpar os cacos de porcelana branca que se espalharam pelo piso.
— Não era esperado que acordasse por mais uma semana, senhora — a ruiva justificou pouco antes de por a cabeça para fora da porta e chamar alguém que passava.
— Quanto tempo eu passei... desacordada? — Viecier perguntou, sentia que sua magia havia sido completamente drenada, por isso não havia mal nenhum em falar com aquelas pessoas, mesmo assim, a ruiva e a empregada que se juntara a ela, arregalaram os olhos ao ouvir sua voz, era uma reação bem melhor do que levar um tapa, isso era certo.
— Alguns dias, madame — disse a outra empregada, uma loira mais que tinha idade pra ser a mãe da primeira — O jovem mestre nos garantiu de que não havia nada de errado com a senhora, então tentamos fazer o nosso melhor para mantê-la... decente, mas o senhor Zephir nos disse que ainda demoraria mais um tempo até que a senhora fosse capaz de acordar.
— Não precisa me chamar de Madame — ela dispensou as formalidades com um aceno — Esse senhor Zephir me trouxe até aqui? — ela questionou tentando entender com quem lidaria.
As duas mulheres pareceram confusas com sua resposta, então obviamente achavam que ela fora trazida por sua própria vontade. Sem que tivesse controle da própria curiosidade, os olhos vagaram pelo quarto e pelo corredor visível através da porta aberta, tudo parecia impecável e um tanto surreal, como se ela não tivesse acordado de fato e tudo não passasse de mais um sonho febril. Antes que notasse um vestido fora colocado sobre a cama e uma bandeja com uma sopa mais comestível, uma fatia de pão e um pouco de água fora deixada na mesa de canto. As empregadas ali faziam um serviço rápido e preciso, não parecia ser a primeira vez que lidavam com aquele tipo de situação.
Viecier trocou de roupa antes de comer, o vestido que lhe fora deixado era de um azul vivo, com detalhes em dourado no decote quadrado e no final das mangas justas, o dono da casa parecia gostar bastante de azul, mas sua mãe tinha uma predileção por vermelho então ela não podia julgá-lo, ao menos a comida era boa.
Caleb não conseguia julgar por si mesmo o que era de verdade desde que Zephir partira, se as paredes rissem dele significava que não era de verdade, certo? Caso contrário ele teria que ter uma séria conversa com o criador de uma coisa tão inconveniente quando paredes que falam. Arrumara o quarto de modo a não sobrarem resquícios do que houvera ali antes e em nenhum momento fora visitar a bruxa que trouxera pra casa, se todos da mansão estavam bem isso já era o bastante, ele não precisava exatamente olhar pra cara dela. O vinho descia queimando por sua garganta, o rico sabor, do álcool e das uvas de umas safra muito adocicada, cantando em sua boca. Anos antes, quando ele era um garoto que acabara lhe voltar pra casa, lhe ofereceram cerveja pra tomar, diziam que era a bebida do futuro e que em breve o vinho seria deixado de lado, mas obviamente ele não se importou com aqueles boatos. A cerveja era amarga, sua cor não lhe agradava e era necessário beber muito para que ela fizesse o efeito esperado. Não, nunca seria um homem de cerveja quando uma única garrafa de vinho deixava seu rosto quente e os sentidos adormecidos.
O vermelho da taça refletia a luz do corredor que entrava pela porta aberta de seu quarto, sob aquela luz parecia com uma versão menos espessa de sangue, uma taça contendo o líquido da vida. Sombras negras pulsavam nos cantos de sua vista e sua cabeça doía como se tivesse sido esmagada por um martelo de ferreiro, mais um gole e mais uma taça. O rosto estava quente, mas não o bastante para calar as vozes inquietas em sua cabeça. Entornou mais uma taça de uma vez e voltou a enchê-la. Mais e mais alto, ele não entendia nada do que diziam e, quando a voz da empregada se juntou às vozes de sua cabeça, ele explodiu atirando a taça contra a parede. O vidro bateu a centímetros de seu rosto, um dos fragmentos causando um pequeno corte no rosto agora pálido da filha do moleiro, aquela de cabelos muito ruivos que o deixavam chocado. Ela aperto a saia do vestido até que os nós dos dedos estivessem brancos, não ousaria chorar ou sequer falar algo naquele instante sem que fosse solicitada, era um daqueles momentos em que Caleb não parecia Caleb e sim um louco com sangue na cabeça e fogo nos olhos.
— O que você quer aqui? — perguntou ele, sua fala em nada afetada por toda a bebida. Não lamentava no momento pelo rosto da garota, talvez mais tarde depois de sedado e banhado quando a lucidez que vinha pouco antes da inconsciência chegasse, no momento ele pensava que gostava mesmo daquela taça, fora um presente de seu avô — Eu não queria ser incomodado.
— A porta estava aberta, milorde — ela respondeu sem deixar que a voz tremesse, mas um olhar do homem a fez entender que não era bom discutir — A moça acordou e achamos que o senhor gostaria de saber....
— Eu não quero vê-la agora — ele suspirou colocando o rosto entre as mãos e soltando um suspiro desgastado. Nunca conseguiria lidar com ela sem Zephir, nunca havia lidado com uma bruxa antes, muito menos com alguém da estirpe dela...
— É uma pena, pois não estou muito disposta a esperar — A mulher loira disse, empurrando com delicadeza a empregada para o lado enquanto entrava no quarto como se fosse a dona de tudo, como uma rainha...
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