Wind
5 Capítulo 03 - Mais Uma História de Bar
Aquele bar não era o pior que ele visitara em suas andanças, mas estava longe de ser o melhor. A comida era boa e a cerveja ruim, ofereciam quartos para os viajantes e os colchões não tinham piolhos o que era mais do que se podia dizer de muitos lugares por aí. Sua última viagem enfim chegara, enfim ele deixaria de lado a vida de caixeiro viajante para arrumar um trabalho fixo na vila de sua noiva. Aquilo era ao mesmo tempo feliz e desolador, por um lado ele teria uma bela casa, se casaria com o amor da sua vida, teria um filho ou dois e uma vida tranquila e agradável, mas por outro lado deixaria para trás o trabalho de uma vida inteira, todos os contatos que fizera naquele ramo, os amigos e aventuras.
Era como morrer e renascer em uma vida mais digna e correta, contudo ele nunca fora um sujeito muito correto e tudo ainda lhe parecia muito surreal e a bebida aguada fazia com que tudo parecesse parte de outra vida, ele já bebera o suficiente para que as piadas contadas na mesa atrás de si parecessem interessantes e engraçadas, contudo, o estado de alegria começava a dar lugar pro próximo estágio da embriaguez, aquele em que ele tinha vontade de fazer coisas ruins.
Ele raramente ficava bêbado até esse ponto, aquele ponto tênue entre o alegre e o sonolento em que nada parece ser real o suficiente e as pessoas começam a soltar o pior que tem em si, no caso dele o seu pior lado pedia uma briga ou um beijo. Como sua noiva estava em sua vila natal, ele tinha que optar pela briga, esperando apenas uma palavra errada como desculpa. Passaram 10 minutos até que um homem começasse a discutir sobre a política do país e economia, ele pretendia fingir entender de política e apoiar o lado da oposição, mas nesse momento ele a viu.
A loira parecia fora de lugar naquela pocilga mal iluminada. Ela estava sentada perto da porta e ele não sabia como não havia reparado na mulher antes, ela não era o tipo de mulher que passava despercebida em um bar cheio de homens, mas ali estava ela, linda e completamente ignorada. A luz não permitia ver muito do seu rosto, contudo ele conseguia ver de longe a postura perfeita, os cabelos dourados longos e a forma que ela lhe olhava chamando completamente a sua atenção, um olhar ferino acompanhado da maneira altiva com que ela tomava uma caneca de cerveja barata como se fosse um vinho caro. A roupa fora escolhida pra chamar atenção e disso ele não tinha dúvida alguma, a saia que definia suas curvas e deixava pouco pra se imaginar das pernas longas, a camisa com os dois últimos botões soltos, a corrente de prata que mergulhava no decote, coisa que todos os homens ali presentes queriam fazer. Mas apenas um teve a coragem.
Ele já estava mais do que bêbado, não tinha a mínima noção da escuridão que espreitava por baixo da aparência da mulher dourada e sentou ao seu lado com um sorriso frouxo e ávidos olhos castanhos. Viecier não o achara desagradável de se ver, apesar de feder a álcool, era jovem, forte e seu rosto tinha traços marcantes, mas agradáveis. Um leve sotaque pontuava o arrastar embriagado de sua fala, ele não era dali e tudo nele gritava aquilo.
— Uma moça sozinha à essa hora — disse em sua fala arrastada, qualquer mulher teria se afastado, mas não ela. Os olhos dourados de predador procuraram qualquer sinal de que o homem poderia se defender, mas ele não parecia armado ou em condições de andar em linha reta muito menos de atacar alguém, constatando isso ela abriu um amplo sorriso e pôs suas mãos delicadas sobre as mãos calejadas do homem.
— Apenas uma moça solitária, procurando companhia — falou em voz baixa para que apenas ele ouvisse aquela hipnotizante voz, os sinos de vento capazes de encantar com poucas palavras.
— Eu posso ser uma ótima companhia, se a dona quiser — ele sorriu pra ela, a garota ouvira o desejo bruto por baixo da voz rouca, se sentia suja só por ter que lidar com alguém assim, mas tocou seu braço para chamá-lo, pouco antes de sair discretamente pela porta mais próxima.
O homem a seguiu para o beco escuro sem fazer pergunta alguma e não se importou em dividir o espaço com as enormes latas de lixo e com os gatos de rua que espreitavam atrás de algo pra comer. Sua mente estava muito ocupada, concentrando-se em tocar, sentir e aproveitar o contato clandestino com algo tão belo, para notar o feitiço que a invadia, como fios a se enrolar lentamente pela mente indefesa, a tomar aos poucos o controle. O destino daquele homem foi selado com um beijo. Sua alma não lhe pertencia mais, seu corpo não lhe obedecia e ele caiu na sarjeta. Se ainda tinha vida, Viecier não sabia dizer e não se importava. O poder pulsava por suas veias e ela precisava de um banho pra se livrar da sensação das sujas mãos que a tocaram. Ela olhou pra baixo apenas uma vez, o bastante para notar a aliança e a respiração suave dos desacordados. Ela devia ter feito bem mais do que fizera, pois os traidores não mereciam piedade alguma, contudo ela precisava ir.
À noite a cidade era sua, era pra ela que as pessoas acendiam as lanternas em suas portas e por causa dela que as crianças eram proibidas de sair depois que o sol se punha, mas óbvio que ninguém sabia disso. Pra eles Viecier era apenas a doce filha da senhora do Solar, a linda donzela dourada que amava cada um dos habitantes da cidade protegida por sua mãe, a moça gentil que visitava os doentes e ajudava as senhoras. Eles não sabiam que ela era uma bruxa, não suspeitavam nem em seus piores sonhos.
Viecier já estava na cidade há tempo demais, quase uma semana. Em breve teria que voltar pra Solar da Colina. Eram tempos estranhos e nem mesmo bruxas estavam seguras sozinhas. No entanto, algo lhe disse: " só mais uma noite ". Era uma voz antiga e poderosa que às vezes lhe sussurrava coisas no silêncio da madrugada. Em todos aqueles anos, Viecier aprendeu que era bom não ignorar quando a voz falava com ela, de modo que a escutou e passou mais aquela noite, ao menos ela podia podia se divertir um pouco sem a mãe sempre tentando lhe ensinar algo que ela não tinha o mínimo interesse em aprender.
Os cachos castanhos e rebeldes insistiam em fugir do capuz conforme Caleb subia a colina, atravessando a mata fechada com dificuldade. Tomava o vinho da garrafa como um homem sedento, imaginava que se pudesse atribuir suas visões à bebida e não à loucura, poderia se sentir um pouco melhor em relação a si mesmo. Mas o olhar acusador do seu silencioso guarda não ajudava em nada. Ele queria ser cego ao rio de sangue negro que descia a colina, queria ser surdo aos gritos de agonia, pois sabia que era o único que podia ver e ouvir aquelas coisas e sabia que, em breve, suas visões o deixariam louco. Muito engraçado, um duque louco como ele para um mundo louco como o que ele vivia.
— Estamos perto — disse para o guarda ao ver o muro de espinhos escuros, de aparência assustadora e cheiro estranho — Que linda decoração, sem dúvida encantadora, me pergunto se o paisagista concordaria em fazer o mesmo lá em casa.
O guarda o ignorou, como sempre fazia e tomou a frente, passando pelo grande portão de ferro que levava à propriedade digna de histórias de terror. Caleb não tinha nada contra a atitude do seu guarda, afinal era apenas natural para aqueles da sua estirpe, mas sem dúvida a via como um desafio: quantas besteiras ele precisava dizer para que o homem estóico retrucasse ou ficasse irritado?
— Você acha que ela assa criancinhas e come no jantar? — Questionou Caleb ao guarda que o ignorou mais uma vez, categoricamente. Ele achava engraçado o modo como os Fey se achavam superiores a todas as outras raças existentes, mas Zephir era uma boa companhia, um guarda em quem ele podia confiar.
Abriu a porta da frente com cautela e por um momento a escuridão pareceu atacá-lo por todos os lados, fazendo Caleb cair com o susto antes de perceber que era mais uma visão. A sala era iluminada apenas pela luz fraca do luar, mas ele conseguia ver vagamente a silhueta de uma mulher em pé e aos pés dela um corpo deitado em uma poça de, ele imaginou, sangue. O duque se levantou novamente e deu um passo a frente, quebrando a espécie de barreira invisível que aparentemente cobria o local.
Como se um sino tivesse sido tocado quando ele entrou, a mulher de pé virou-se para ele e Caleb engasgou com o que viu. Os cabelos e olhos dela eram ouro derretido, mas o mais estranho era que ele a conhecia. Contudo, antes que pudesse ligar os pontos, a garota exibiu os dentes como um animal selvagem e avançou na direção dele com uma faca nas mãos. Se ele ia morrer, que fosse nas mãos de uma linda bruxa.
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