Wind
12 Capítulo 10 - Encontro
Zephir retornou cansado, não gostava de lembrar de coisas do seu passado, muito menos daquelas que aconteceram na época em que ele era apenas um órfão desamparado em um abrigo no meio de lugar nenhum. Apesar de terem se passado apenas algumas horas desde que fora ao encontro da morte, a lua estava diferente. A lua não devia estar cheia por mais um mês no mínimo, havia chegado ali pouco depois da última lua cheia, mas aquele era o tipo de coisa que acontecia quando se passava por aquela estranha porta. O tempo para aqueles que não estão neste mundo não funcionam da mesma forma. Eru o esperava com as mãos estendidas, mas ao revirar os bolsos em busca da chave o Feérico não a encontrou, fazendo o ancião rir de sua expressão assustada.
— Ela já está comigo — ele disse puxando a chave de algum lugar de dentro de suas vestes.
— Como...? — perguntou confuso, aquilo não acontecera das outras vezes.
— Como poderia ter algo que eu nunca te dei? – retrucou o velho – Estamos no antes e ainda não passou por aqui, mas eu não confiaria muito nesse tempo estranho e iria embora rápido, não vai querer se encontrar pelo caminho – O homem riu como se aquilo fizesse sentido.
Zephir não entendeu, mas sabia que haviam coisas no mundo que não possuíam explicação. Curvou-se para o homem mais uma vez e tomou novamente o caminho que o levaria pra mansão de seu contratante. Ele havia estimado uma viagem de cerca de um mês, mas aquela pequena mudança lhe pouparia uma semana de viagem ou talvez mais, contanto que ele tivesse o cuidado de evitar o caminho que tomara na ida. Na ida percorrera o caminho mais tortuoso, pois acreditava que a provação o faria mudar de ideia quanto a trabalhar para aquele homem estranho, no entanto, nada mudara e agora lhe restava fazer o caminho mais fácil que passava por fora da cidade, pelas plantações até o rio Nera.
O rio Nera era um dos mais importantes economicamente, um dos poucos rios navegáveis daquela terra, ele dividia o reino nascendo nas partes mais altas do norte e descendo rumo ao sul onde desaguava no mar da seda. Morada da Rocha ficava próximo a sua nascente e, depois de seguir alguns minutos a pé, Zephir chegaria ao pequeno porto onde as embarcações mercantes paravam para comprar o que era produzido ali e levar para o sul, onde venderia pelo triplo de seu valor original. Algumas dessas embarcações, por um bom incentivo, concordavam em levar um ou dois viajantes, mas não era uma situação comum. Quando Zephir mostrou as moedas de prata pra capitã da Serpente Fluvial, a mulher o olhou com clara desconfiança, pois eram raras as pessoas que tinham interesse em descer o rio. O sul era pobre e não possuía muitas oportunidades, ela não queria um desses mascates pra lhe dar prejuízo vendendo suas bugigangas para seus fregueses, mas quando o rapaz lhe explicou que se separariam em poucos dias, na passagem da montanha, ela aquiesceu com a condição de que ele levasse a própria comida. Não tiraria a comida de sua própria tripulação para dar a um viajante qualquer.
A viagem não lhe foi desagradável, os tripulantes o ignoravam e a capitã não lhe dirigia a palavra de modo que os dias se passaram rapidamente enquanto Zephir estava muito perdido em seus pensamentos. Não foi difícil saber quando a passagem da montanha estava próxima, a cordilheira podia ser vista à horas de distância e a passagem em si era algo que naturalmente chamava atenção. O Nera atravessava uma das montanhas da cordilheira, não se sabia ao certo quando, mas o tempo e a força das águas havia criado um enorme túnel que cortava o gigante rochoso. Um dia inteiro de viagem sem qualquer iluminação e a possibilidade de um desabamento a qualquer hora não eram os únicos motivos que faziam com que raras embarcações usassem a passagem. Haviam muitos que temiam o lugar, pois o barulho que o vento fazia ao passar pelos diversos nichos do local se assemelhava muito ao som de pessoas chorando, levando as pessoas a acreditar que se tratava de um lugar amaldiçoado.
Se despediu com educação da capitã e esperou até que a pequena embarcação sumisse na escuridão da montanha antes de seguir o seu próprio caminho para cima. Uma única viagem fora o suficiente para que ele assimilasse a geografia da montanha onde a mansão de seu contratante ficava. Não era uma das montanhas movimentadas e ricas em minérios que se localizavam mais acima na cordilheira, mas um lugar de aparência serena e melancólica, com esparsos vilarejos ao longo de sua extensão.
Ele não sabia quanto tempo fazia desde que havia partido, mas as empregadas o receberam como se ele fosse um pródigo filho que torna ao lar. Zephir supôs que as pessoas não costumavam voltar uma vez que iam embora. Pensava em se banhar e talvez descansar um pouco antes de relatar os resultados à Caleb, pois aquele homem o exauria. No entanto, uma voz baixa fez com que todo o ar deixasse seu corpo. Foi apenas um segundo, mas ele tinha certeza, era inconfundível.
Zephir seguiu o som até uma cozinha, onde as pessoas aparentemente conversavam enquanto faziam seus afazeres. A voz havia parado, mas pela primeira vez desde que a encontraram no Solar da Colina, ele realmente viu a bruxa. Como Zephir podia ser tão burro ao ponto de não notar a semelhança brutal entre as duas? A loira estava sentada com um sorriso discreto no rosto, mas não parecia muito com os seus sorrisos que costumavam iluminar cômodos inteiros.
— Por qual motivo ele resolveu que eu estaria entre elas? — Ela perguntou.
— Porque você é a única capaz de nos ajudar — Zephir respondeu pressionando o ombro da bruxa. Se ele se lembrava, ela também lembraria certo? Lembraria de todas as coisas, até as ruins...
Mas a loira tinha uma expressão indiferente no rosto, ela não teria aquele tipo de expressão se realmente lembrasse daquele tempo. Por mais que aquilo lhe doesse, Zephir sabia que seria melhor daquela forma. Antes que ela pudesse protestar, o Feérico a puxou pela porta dos fundos que davam para o jardim bem cuidado da mansão. Aquela não era a Viecier que ele conhecia e Zephir não tinha certeza de que deveria confiar nela com pessoas indefesas, não depois de tantos anos agindo como uma bruxa.
— Todos falam isso, mas ninguém me dá uma resposta clara, não gosto de entrar em uma aposta sem saber em quem estou apostando — ela retrucou e lhe jogou um sorriso quase tão falso quanto a confiança que tentava passar.
Ele se perdeu nos olhos dourados que o faziam lembrar de seu passado, ela sempre fora a única, mas ele achava que nunca mais veria sua preciosa companheira, muito menos daquela forma. Ao notar que estava divagando, o fey tentou retomar o foco com uma tosse discretamente Zephir não conhecia os detalhes da proposta de Caleb, mas sabia o suficiente para convencer Viecier a ficar e ele o faria. Antes não se importava, mas agora estava feliz por ter voltado.
— Considere isso um resgate – ele lhe disse, não era habituado a falar, mas com ela parecia natural – Há uma pessoa que foi presa injustamente e o nosso objetivo é resgatà-la e levar à um lugar em que esteja segura.
— Parece bem simples – ela ponderou – Mas por que eu os ajudaria? Não vim aqui por minha vontade e vocês tem sorte que eu esteja de bom humor – comentou analisando as unhas.
— Porque podemos ajudá-la a encontrar a bruxa mais velha que vivia com você – mentiu com pesar, contudo, àquela altura uma mentira era o mínimo que ele faria para mantê-la perto.
A atenção dela finalmente estava completamente nele, os olhos dourados queimando com um fogo que não existia antes. Naquele momento o bracelete em seu bolso pesava, parecia ter trocado a memória perfeita, mas nunca forçaria Viecier a usar aquilo. Se ela desejasse atear fogo no mundo, ele a acompanharia de bom grado.
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