Wind
3 Capítulo 01 - A Brisa de Verão
Viecier estava sentada no chão, aos pés de um garoto mais velho, que lhe contava histórias sobre seu antigo lar, quando a senhora Geneve veio lhe chamar. A garota estranhou imediatamente. Geneve, a séria diretora do abrigo St. Jon, não falava com as crianças.
— Parece que precisam de você, Vie — disse o garoto mais velho com um de seus típicos sorrisos tristonhos. Aquele era o normal dele — Quando você acabar, volte pra que eu termine a história — ele concluiu virando-se novamente para a janela. Ele era uma visão de partir o coração de qualquer um, diferente da maioria das crianças ali, ele lembrava-se de como as coisas eram antes da guerra, lembrava-se de como era ter uma família e uma casa...
Viecier assentiu, ainda confusa por ter sido tirada abruptamente do mundo interessante da história. A senhora Geneve estava claramente impaciente. Ela observava os dois de longe, os olhos do garoto a deixavam desconfortável e se ela não recebesse uma boa quantia para mantê-lo seguro e alimentado, já teria se livrado a muito tempo daquela criatura estranha. Aberração. Apesar de querer sair dali o mais rápido possível, ela não apressou a despedida das duas crianças, o abraço cheio de carinho fraternal, um pequeno gesto que se perdera bem antes da guerra.
A menina teve que correr pra acompanhar as passadas apressadas da diretora, que subiam as escadas velhas, rumo a um dos muitos quartos apertados, onde as crianças dormiam. Ao lado da pequena cama de Vie, havia uma mala minúscula e escura com tudo que a garota possuía. Ela olhou confusa para a mala e depois para a mulher.
— Pra onde eu vou? — Questionou, sua voz ecoando pelo quarto. Sentindo um aperto no peito ao se imaginar longe da única casa que conhecia, ela abaixou os olhos novamente para encarar a mala.
— Pra onde eu vou, senhora — corrigiu Geneve — Kingshill. Você devia se sentir honrada, foi adotada pela dama do belo Solar da Colina.
Viecier estremeceu. Até mesmo em um lugar isolado, como St. Jon, as pessoas conheciam as histórias sobre Solar da Colina e seus habitantes. A antiga mansão ficava no centro de uma floresta escura e perigosa e, em algum ponto do século passado, todos os habitantes foram levados por uma terrível pestilência, restando apenas a matriarca. Dizia-se que a matriarca da família havia causado a doença e que tinha muito mais que 100 anos, um fantasma ou algo pior, que até hoje mandava no Solar e na cidade, uma daquelas criaturas cujo nome as pessoas temiam dizer quando o sol havia se posto e estavam todos recolhidos em suas casas, aquecidos pela chama vacilante de um lampião qualquer.
— Eu não quero ir, ela é um fantasma! — a menina se agarrou a saia da diretora, como se aquilo pudesse impedir que ela fosse mandada pra longe.
— Não seja boba, menina! — ralhou a mulher, lhe empurrando pra longe. — Não existe essa coisa de fantasmas, isso é besteira de gente supersticiosa!
Não foram ditas outras palavras, não houve tempo. Um homem velho, vestido com um terno escuro, entrou pra pegar a mala de Viecier e levá-la para um carro que esperava por ela. A garota protestou e tentou correr para o amigo, no entanto, ela não era mais forte que a senhora Geneve, que a jogou no banco de trás do carro. A porta foi fechada com força e a tranca ativada rapidamente, lacrada com magia de forma que a porta não pudesse ser aberta até que o carro fosse desligado.
Ela nunca tinha estado em um carro antes, mas podia entender porque eram itens caros até para os ricos. O banco era confortável e Vie sentia a leve vibração da magia abaixo de si, ela nunca fora pra escola, mas tinha a noção de que aquela era uma energia cara e difícil de ser manipulada, principalmente quando os cristais haviam se tornado itens tão escassos e de difícil obtenção. As lágrimas rolavam por seu rosto mesmo que ela não emitisse som algum. Ela queria ter se despedido melhor, ou ao menos ter trazido ele consigo, ele adoraria ver a magia funcionado e ela sentiria falta dele acima de todos, o seu querido amigo. Enquanto o carro se afastava ela só conseguia pensar em como seus amigos amariam andar em um carro de verdade, sentir o tecido macio do banco, se gabar que um dia viram aquilo que dava vida ao mundo.
Precisaram subir a colina à pé para chegar ao Solar. Se Viecier já estava assustada com a fama do lugar, a aparência a deixou ainda mais apavorada. Um grande muro, coberto por uma planta qualquer cheia de enormes espinhos, se elevava ao redor da mansão. A casa em si era bonita, com sua arquitetura antiga e detalhes delicados, mas parecia simplesmente errada. A tinta desbotada devido à ação do tempo e ninguém parecia ter se disposto a pintar novamente, mas em geral era algo saído de uma das histórias de seu amigo: uma casa imponente.
No portão de ferro da entrada, uma mulher esperava por Viecier. Ela era deslumbrante, não havia outra palavra pra descrever sua beleza. Ela era alta e esbelta, com um rosto de linhas marcantes e lábios cheios, pintados de carmesim. Seus cabelos eram uma cascata de nanquim caindo pelo vestido vermelho sangue e os olhos de obsidiana emoldurados por uma fina camada de maquiagem. Ela sorriu exibindo seus dentes brancos e perfeitos.
— Ah, minha doce e querida criança — a mulher disse em um suspiro tomando a menina nos braços. Sua pele alva era fria como a neve. — Não tenha medo — sussurrou no ouvido da garota.
Vie estava assustada, mas ao ouvir as palavras da mulher, o sentimento se desfez, como um cubo de açúcar na água. Ela sentia que não havia nada de natural naquilo, mas uma vozinha dentro de si sussurrava que ela podia confiar naquela mulher. Então, um passo arrastado após outro, ela entrou na mansão como se aquilo não passasse de um grande sonho.
Ela esperava ser levada pra um quarto... Ou um calabouço. Contudo, a mulher fez com que ela parasse no centro do salão na entrada e lhe ofereceu uma taça com um líquido escuro, tirada de cima de uma mesinha de canto. Viecier olhou com suspeita pro objeto, mas o olhar ansioso da mulher fez com que ela tomasse tudo em dois goles, havia um desejo irracional de agradar aquela mulher, de escutar a sua bela voz novamente... A bebida tinha gosto de chocolate e algo mais, era um sabor bom, mas estranho. O primeiro gole veio cheio de sabor, o segundo trouxe tontura e dor de cabeça.
— O que é isso? — perguntou a garota ao sentir seus joelhos amolecerem.
A dama de Solar da Colina arregalou os olhos com surpresa ao ouvir a voz da menina e lhe tomou nos braços para que a pequena não caísse de cara no chão.
— Ah, não! — exclamou ela com uma ponta de desespero na voz aveludada — Ah, não! Você não!
Viecier tentou perguntar o que estava havendo, mas a boca não lhe obedecia, tinha um gosto ruim. Respirar começava a ser uma tarefa muito difícil e a escuridão invadia aos poucos sua visão.
— Aguente mais um pouco, minha menina — pediu a mulher, sua voz soando abafada — Eu não sabia que era você! — ela voltou a falar e, se Viecier prestasse atenção o bastante, podia sentir o tremor que tomava o corpo da mulher e, talvez, ouvir o soluço baixo que acompanhava as lágrimas vermelhas como sangue — Aguente mais um pouco, brisa de verão.
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