Wind
1 Death is like candy
Notas iniciais
''Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo - expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar - caem diante da morte, deixando apenas o que é apenas importante. Não há razão para não seguir o seu coração.
Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração.''
- Steve Jobs
Morrer é uma merda.
Por questões óbvias, mas também por questões ridículas. Morte é algo tão grande, mas tão vago ao mesmo tempo, você pode morrer a qualquer hora, hoje, amanhã ou só daqui alguns anos, mas o que nunca muda é esse sentimento... É hoje? Ou eu tenho mais tempo? Quanto tempo eu tenho afinal?
Eu estava morrendo, a cada minuto que passava menos tempo eu tinha, a cada dia mais difícil ficava, a cada mês mais dores eu sentia e a cada ano sempre parecia o último. Viver com isso, sabendo que seus dias estavam diminuindo, que a morte estava sempre um passo mais perto é aterrorizante. É um sentimento de perda constante, sempre te lembrando de que você está perdendo essa batalha, mas, também é um sentimento de alívio, se eu já estou no final o que eu tenho a perder? Eu posso seguir sem medo, eu posso ver o que é importante pra mim e o que eu estou apenas mentindo pra mim mesmo.
Porque tudo sempre vai acabar no mesmo resultado... Morte.
Eu tinha um nome você sabe... Um nome simples, mas, que foi meu, e era o que me ligava a minha vida. Eu não me lembro mais desse nome...
Eu tinha cinco anos quando meu pai voltou e matou minha mãe na minha frente, não é uma grande lembrança já que tudo é muito borrado. Mas, eu ainda posso me lembrar daqueles gritos... Os gritos da minha mãe pedindo por socorro, um socorro que nunca veio no final.
Mamãe não era das melhores, trabalhava o dia inteiro e quando voltava estava geralmente bêbada, mas, ela cuidava de mim, mesmo que um pouco. Por causa do emprego, ela acabava me deixando sozinho a maior parte do tempo trancado no quarto, apenas com uma mamadeira e um pouco de sopa fria para eu comer. A maior parte do dia eu passei aprendendo as coisas, como escalar a cadeira do quarto, copiar as palavras dos livros que tinha em um caderno, montar torres com os milhares de caixas que havia e o mais importante, como usar uma faca sozinho.
As poucas vezes que minha mãe ensinou algo eram sobre alguma coisa pra sobreviver nesse mundo que vivíamos. Ela me falava que eu precisava aprender a me cuidar e por isso me deu aquela faca, ela sempre dizia que o melhor é sempre fugir, mas, quando não há opção o melhor é ter algo para se proteger.
Eu aprendi a usa-la como arma, mas também como suporte para cortar coisas, ou rasgar algo, e foi o que matou minha mãe. Os gritos da minha mãe me acordaram naquele dia, eu fui em direção ao som, apenas pra ver a garganta da minha mãe sendo cortada como papel... Como se não fosse nada.
Eu fiquei paralisado, e só quando vi os olhos de minha mãe eu consegui me mexer e correr, eu corri pra lugar nenhum, mas, para o mais longe possível daquela cena. Eu nunca esqueci daquilo, nunca esqueci como usar uma faca.
Sobrevivi nas ruas por pelo menos cinco anos, eu roubava de tudo pra continuar, comida, dinheiro, joias e até roupas quando eu conseguia. Eu não posso dizer como eu consegui todos esses anos sozinhos, mas, tudo que eu lembro era que meu cérebro estava no automático, fazia apenas o necessário e se algo poderia me prejudicar eu fugia, eu correria sem olhar pra atrás, sem olhar pros que ficavam.
Foi só quando eu tinha 11 anos que me dei conta de algo... Eu estava cansado. Eu não sabia mais por que eu ainda estava vivo, porque eu continuava a fazer isso, eu não tinha nada. Eu tinha vivido esses anos sem nada a se agarrar, sem nada que me faça acordar todos os dias e seguir em frente, eu estava apenas sobrevivendo no final. Mas, mesmo assim eu não poderia me matar, algo sempre me parava, talvez fosse medo, ou culpa pelo os que eu deixei no caminho, eu não poderia parar.
Quando eu tinha 12 anos eu tive meu primeiro encontro com a morte. Era um dia chuvoso e nublado, eu estava me escondendo em baixo algumas árvores quando ela veio. Era uma menina de uns 7-8 anos no máximo com cabelos sujos e molhados pela chuva, tinha um casaco grande vermelho que era maior que ela e algumas calças rasgadas. Ela perguntou meu nome... Eu não respondi, e ela fez uma cara estranha pra mim, em seguida, me perguntou por que eu estava aqui, e eu apenas a continue olhando, e foi quando ela disse que eu era um idiota e me ofereceu um pacote meio cheio de doces que eu finalmente disse algo.
‘’Por quê?’’
‘’Por que você é um idiota na chuva’’
Ela saiu correndo após isso enquanto eu ainda tentava processar o que aconteceu. Eu olhei para pacote e decidi pegar um, não parecia nada de mais. Mas, quando eu provei foi estranho, eu não sei por que, mas eu não consegui parar de comer aquilo, era um gosto doce e salgado por causa de minhas lágrimas.
Foi tudo um borrão, minhas lágrimas não paravam de cair enquanto eu corri atrás da garota segurando o pacote de doces em minhas mãos. O céu continuava a brilhar como os raios iam caindo pela cidade e a chuva ia criando aquela doce ilusão. Eu não sei porque eu corri, eu apenas senti que devia fazer.
Eu gritei quando ela parou no meio na rua e se virou pra mim enquanto sorria, sem ver aquele caminhão indo a sua direção. E em meio da tempestade eu corri, mas dessa vez olhando pra frente enquanto eu a empurrava pra fora do caminho e em meio à tempestade nós dois caímos... Eu sob o mar de vermelho e ela sob o mar de água que se formava no chão.
‘’Por quê?’’
‘’Por que um idiota precisa de doces pra viver’’
E olhando para o mar de sangue que se formava em baixo de mim, eu sorri.
A morte tem um gosto doce.
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