Willow
1 Duas encomendas, três desastrados
Notas iniciais
Ok, ok, eu não faço parte dessa história, mas vou servir de narrador para que você entenda o que acontece com nossos amigos.
Estamos no Mercado dos Troll’s[1], o maior centro comercial dos Reinos de Yggdrasil[2]; uma gigantesca metrópole, formada por inúmeros palácios e mansões, erguidas pelos mais poderosos encantos da mais poderosa das fadas, ao lado de barracas de metal e madeira, para lá enviadas por comerciantes de todos os nove mundos, situada nas entranhas de Midgard[3].
Aqui, sob a luz do grande cristal[4], funciona o sistema de Correios que entrega encomendas para qualquer lugar (qualquer lugar mesmo) chamado Hermódres . O grande chefe... ou melhor, os grandes chefões são os Gêmeos Appel, Garek e Logan.
Mas isto são apenas formalidades.
Nosso interesse está naqueles dois ali, de todo atrapalhados com o carrinho, enchendo-o de pacotes. Pra quem achava que serviço de carteiro era fácil nunca viu os Armazéns dos Appel, haviam cinco níveis de prateleiras intermináveis, organizadas por vários integrantes dessa grande família. Porém os dois trapalhões que acabaram de deixar uma caixa muito pesada cair no pé do outro são peixes fora d’água.
— Ai Iagoooooooooooo!!!
— Deixa de ser mole, Moa. — O menino mais alto respondeu revirando os olhos. — Carregar isso deveria ser moleza para você. — Ele completou em um murmuro, coçando os curtos e espetados cabelos loiros.
— Isso deve ter uns vinte quilos! — Moa esbraveceu. Por alguns instantes bigodes sugiram ao lado de seus lábios carnudos e o nariz projetou-se para frente, assemelhando-se a um focinho molhado, característico de caninos.
— Você. É. Mole. Cãozinho. — Iago disso, sorrindo com o canto dos lábios, enquanto, com uma única mão, erguia o caixote. — Nem consegue controlar as próprias transformações.
— Cala a boca! — Moa berrou, lutando com os dedos para manter seu óculos, de formato redondo, fundo de garrafa, que insistia em escorrer pelo nariz alongado.
“Vocês dois estão brigando de novo?”. Uma voz feminina imponente e com um tom de superioridade surgiu atrás de Moa. Assustando-o a tal ponto que este deu um pulo, batendo com o braço no caixote que Iago segurava, desequilibrando-o e o derrubando, justamente no pé do zombeteiro.
— Willaaaa! — Iago sorriu, ignorando completamente o pé latejante, enquanto observava dos pés a cabeça a menina de cabelos cor de fogo.
— Willa? — Moa questionou, recompondo-se do susto. Uma cauda, cuja um pequeno pedaço teimava em escapulir de sua calça, que surgira na base de sua coluna. — Willa! — Ele exclamou, virando-se para a menina, envolvendo-a em um forte abraço.
— Ok... Bom menino... — Ela disse acariciando delicadamente a nuca de Moa, enquanto, com a outra mão, tentava afasta-lo.
Para compreender o que se passava, e a quase veneração de Moa por Willa, é necessário entender o funcionamento da agência: entregadores de encomendas mágicas desde antes do imperador Nero incendiar Roma, os Appel, clã do qual Willa é herdeira, adquiriram uma forte resistência a grande maioria dos objetos místicos, não sofrendo seus efeitos, mas, também, não podendo utiliza-los a seu favor (o que lhes tornaram os mais confiáveis no ramo, afinal... Que utilidade teria para eles aquilo que transportam?).
Moa e Iago foram empregados no serviço postal por Gerak, o pai de Willa. Iago, por pedido do pai, um Vanir[5] e velho amigo preocupado com a segurança do filho em Vanaheim[6] e Moa, por sua vez, a pedido de Iago. “Onde cabem um, cabem dois”. Disse Gerak ao receber os garotos.
Ele se arrependeu amargamente dessa frase: hoje diria “Não tem lugar para quem não é Appel” ou algo parecido, mas menos... Lisonjeiro. Sem a resistência mágica do clã, muitas das entregas que envolviam os dois terminavam em desastre (como na vez em que Moa fora transformado em gato por um antigo amuleto egípcio), fazendo com que pouco a pouco a maioria dos carteiros se recusassem a realizar entregas ao lado deles, de forma que Gerak se veria sem outra escolha, senão demiti-los. Felizmente para nossos desastrosos carteiros, Willa, buscando mostrar seu valor para o pai e tranquiliza-lo quanto a sua sucessão (ela era a primeira mulher herdeira dos Appel, desde que podemos nos recordar), aceitou unir-se a dupla, conseguindo reduzir incrivelmente o número de incidentes. Chegando a criar, ao seu modo cabeça-dura, obviamente, fortes laços de amizade com Moa e sentimentos dúbios para com Iago.
— Papai está nos chamando em seu escritório. — Willa falou, quando finalmente conseguiu livrar-se do abraço de Moa.
— Agora? — Moa questionou. — Mas nós ainda não acabamos de guardar os novos depósitos feitos na agência.
— Agora. — Ela falou em tom definitivo. — Nunca vi papai tão apreensivo para nos enviar em uma entrega, então seja o que for... Não estraguem tudo! Ou da próxima vez que vocês se transformarem em gato (certo, Moa?) ou em um picolé (se lembra, Iago?)... Eu pensarei seriamente se vocês não ficam melhor assim. — Ela os observou seriamente com seus penetrantes olhos violetas, se dando por satisfeita com o medo latente na face de seus companheiros e, por fim, em meio a uma piscadela irônica, desapareceu no ar.
— Um pouco autoritária ela... — Moa suspirou, fechando os olhos e respirando profundamente, de forma que a cauda, a narina e os bigodes recuaram pouco a pouco, fazendo-o retornar a forma de um humano comum.
— Um pouco? — Iago questionou ironicamente, para em seguida completar com um sorriso maroto estampado no rosto. — Mas o que posso dizer? Ela é, no final de contas, minha futura esposa.
— Vai sonhando... — Moa gargalhou, balançando a cabeça em negativo.
— Quer apostar? — Iago sorriu, piscando para o garoto magricela, para em seguida disparar corredor adentro, sendo seguido de perto por Moa.
Às vezes Moa perguntava-se se a agência gerenciada por Gerak não poderia ser menor... Não que trabalhar em uma das mansões de Tearmann, onde cada cômodo fora perfeitamente esculpido para sua função, fosse ruim, mas, como, diferente dos Appel, ele não fora abençoado com o maravilhoso dom do teleporte, sempre que estava no ultimo depósito e era convocado para sala de reuniões, ele era obrigado a atravessar todos os cinco, tomando cuidado para não esbarrar-se em nada (o que frequentemente acontecia), subir cerca de cinco andares de escada (os depósitos ficavam no subsolo), para, já exausto, finalmente rastejar por um terrivelmente longo corredor, onde a sala de reuniões ficava.
Como se o trajeto não fosse excruciante o bastante, naquele dia, assim que entrara na sala de reuniões, um salão oval , decorado apenas com uma grande mesa redonda, cercada por cadeiras, sentiu vontade de rogar um número incalculável de pragas, pois, ali, ao lado esquerdo do senhor Gerak – um homem de meia idade, portador de longos, finos e, em algumas partes já ausentes, cabelos loiros, porte físico avantajado e olhos cor violeta, uma características típica dos hermódres[7] – sentava-se Ludwika, a prima de Willa, tão má quanto seus cabelos são loiros e seu rosto é belo (pode acreditar, eu sei um bocado sobre maldade), que, sempre que podia, tentava humilhar o jovem beserker[8] de alguma forma.
— Finalmente estamos todos aqui. — Willa, que sentava-se a direita do pai foi a primeira a pronunciar-se, nem mesmo esperando seus companheiros sentarem-se. — Agora, meu querido pai, nos faria o favor de contar o que tem lhe preocupado? Que diabo anda escondendo?
— Temos duas encomendam muito importantes aqui. — Ele falou, abaixado-se para pegar dois pacotes cinzentos que jaziam debaixo da mesa, diferenciados um do outro apenas pelos endereços, escritos em um selo, que encontrava-se gravado no topo do pacote. — Do tipo que eu não confiaria a qualquer equipe que não fosse liderada por meu próprio sangue. Willa, essa é a entrega mais importante que você já fez. Você queria provar sua capacidade de assumir os negócios da família? Essa é a chance. — Ele fez uma pequena pausa, virando-se para sua sobrinha. — Ludwika, embora meu irmão muitas vezes questionasse meu pai quanto a sua decisão de me por como seu herdeiro, ele sempre agiu como minha mão direita. Na esperança que você aja da mesma forma para com minha filha, eu peço que a acompanhe nessa missão.
— Qual o conteúdo do pacote, exatamente? — Moa perguntou.
— Não tenho permissão para responder isso, Moacir. — Gerak respondeu secamente. — O que posso fazer é alerta-los para não brincar com o conteúdo desse pacote, ou transformar-se em gato, ou qualquer outro animal, não vai ser nada. Estamos entendidos? — Ele olhou seriamente o menino de pele café com leite.
— Sim, senhor. — Moa encolheu-se em sua cadeira, sentindo cada um dos seus grossos fios de cabelo liso se arrepiarem e uma pontada na base da coluna – Sinal de que sua cauda voltara a “ativa”.
— Estão todos de acordo em participar dessa missão? — O senhor Appel falou seriamente. — Não posso envia-los em algo desse calibre sem ter a certeza que compreendem a seriedade da situação e que se sentem prontos para a tarefa.
— Eu não estou. — Surpreendendo a todos com o sinal de humildade nada comum, Ludwika se pronunciou, erguendo a mão. — Sinto muito tio, mas não posso aceitar a tarefa, não posso correr esse risco de decepcioná-lo e a todo o nosso clã. E... convenhamos... — Ela sorriu maliciosamente, desviando o olhar para Willa. — Ao lado desses dois desastres ambulantes... O resultado não podia ser outro, se não o fracasso.
— Deve ser por isso que fizemos mais entregas que você... Cof, Cof. — Willa murmurou, falsificando um soluço para disfarçar as palavras. — Vadia.
Ludwika levantou-se, berrando palavrões estranbólicos e sendo respondida a altura por sua prima, de forma que seu tio teve de pôr-se entre as duas, auxiliado por Moacir e Iago, para impedir que elas se matassem.
Se você acha que estou exagerando, é porque não conhece a história dessas duas: o pai de Ludwika fora o segundo a nascer dos gêmeos, e por meros instantes perdera o posto de liderança para o irmão, a quem sempre considerou inferior. Embora jamais tivesse externado isso para outra pessoa, fora a própria Ludwika, ele se remoia de inveja do poder e influência de Gerak, acabando por, ainda que não intencionalmente, envenenando a menina contra a prima, sua única e verdadeira rival para o posto de liderança – as leis dos Appel afirmava que, caso o líder não possuísse um herdeiro homem(apenas homens, dentro da cultura dos Hermódres, são considerados herdeiros sanguíneos), aquele, ou aquela, que mostrar-se mais capaz será considerado o novo herdeiro e responsável pela reinstauração da linhagem principal do clã.
— Chega! — Gerak explodiu. — Ludwika, se não deseja participar da entrega, por favor, retire-se da sala.
— Pode deixar! — Ela grunhiu, saindo em passos pesadíssimos e fechando a porta com força suficiente para estrondar toda a sala.
— Voltando aos negócios... — Gerak suspirou, sentando-se calmamente. — Vocês aceitam a missão?
— Claro! — Willa respondeu prontamente, sem sequer esperar qualquer pronunciamento dos companheiros.
— Muito bem. — Ele sorriu com o canto dos lábios, escondidos pelo volumoso bigode, já esperando aquela atitude da filha. — Para auxilia-los nessa missão, lhes darei um pequeno presente. — Ele sorriu, colocando a mão dentro do sobretudo e dele retirando um pequeno colar, com um miniespelho em formato de folha, rodeado por uma moldura de ouro, como pingente, entregando-o a Willa.
— Um espelho da criação[9]! — Os olhos de Willa cintilavam, enquanto ela atava o colar ao pescoço.
— Tudo certo, então. — Gerak falou seriamente. — E lembrem-se que só devem utilizar o teleporte quando estiverem fora das fronteiras da cidade.
[1] Originalmente conhecido como Tearmann, foi o ultimo refúgio das fadas na Terra.
[2] Existem nove reinos/mundos em Yggdrasil, sendo a Terra um deles.
[3] Terra
[4] Gigantesco cristal que ilumina a cidade, foi conjurado pela magia de Titânia, a mais poderosa das fadas e primeira rainha do “Mercado Troll”.
[5] Divindade Natural
[6] Reino dos Vanir
[7] Nome dado a raça dos “carteiros”, significa “filho de Hermódr”, a mais rápida deidade, que serviu de mensageiro dos deuses, quando estes necessitaram enviar alguém para ter com Hela, senhora do mundo dos mortos.
[8] Raça criada pelo deus Odin. São, em sua maioria, poderosos guerreiros, que, quando em estado de frenesi, são incapazes de sentir cansaço ou dor, além de possuírem a capacidade de transformar-se em lobos ou ursos. Obviamente Moa está longe do que é considerado “comum” para sua raça.
[9] Uma pequena fração do “grande espelho” localizado no térreo da agência. Dizem que este espelho fora lapidado a partir de uma das unhas de Ymir – gigante primordial derrotado pelos deuses, cujo corpo serviu como matéria prima na criação do universo –, esse objeto, um dos poucos itens mágicos que os Appel conseguem utilizar, permite ao portador viajar entre os reinos de Yggdrasil.
Fale com o autor