Wildland: Return to Zero
29 Capítulo 28 - Aguente
— Ei moleque filho da puta! Pega a porra da minha bebida! – Enquanto eu tomava umas boas bicudas nas costas do meu velho que mal conseguia falar de tão bêbado que tava, eu tentava consolar minha irmã Irene que chorava sentada no chão com as costas na parede. Desde pequeno eu sempre aguentei muita merda. Quando minha mãe morreu eu tinha 11 anos e a Irene tinha 8, nós ficamos a mercê daquele gordo bêbado que depois de ter seu único suporte tirado, começou a cair mais ainda no vício, o filho da mãe nem voltava pra casa às vezes, e quando voltava, era pra nos bater ou quebrar algumas coisas reclamando da sua vida. Por mais que o miserável já foi internado várias vezes com pressão alta ainda continuava tomando uma garrafa de whisky todo dia. A nossa sorte era que nossa tia Margaret ia levar comida e dava um trato na casa de vez em quando, mas ela não podia fazer mais nada.
— Pega a porra da calça que deixou no chão! – Eu tomei um soco na boca naquele dia e perdi um molar. O desgraçado nem deu ao trabalho de me levar ao médico. Ele começava a me agredir por qualquer merda, parecia que era por prazer. Desde pequeno nunca reconheci ele como meu pai. Até os 6 anos tudo parecia tá bem, ele mal bebia uns drinques, mas depois que foi despedido de uma empresa que tinha um cargo até que alto que a coisa começou a ficar feia. Depois que minha mãe foi enterrada no dia seguinte ele já bebeu até cair, mas nessa mesma época, no dia em que ele tentou relar na Irene, eu peitei o desgraçado. Desde então ele descontava tudo em mim, quando ele pensava em fazer algo contra a Irene eu me colocava na frente, ela não tinha forças nem pra falar, a guria só conseguia ficar com medo e chorar, mas eu era o homem da casa, eu tinha que protege-la, eu prometi ser a parede que não deixaria aquele bastardo passar, até darmos um jeito.
Aguentei tudo isso até os 15 anos, foi quando o bastardo finalmente morreu, e claro que foi de overdose, afinal, o maluco bebia quase 5 garrafas de vodka por dia, não ia durar muito, naquele dia eu comemorei, não sei como mas senti alegria demais na morte de uma pessoa, ainda mais do meu pai, por mais que eu não sabia como a gente ia se virar dali pra frente. A herança que o velho deixou nem dava pra sobreviver por 2 anos, mas até lá eu ia dar um jeito.
Começamos a morar com minha tia, apesar de termos 2 primos filhos da puta que viviam fazendo bullying com a gente, ainda assim era muito melhor que com aquele demônio gordo. Minha tia era uma pessoa muito boa, começamos a nos dar bem aos poucos com os moleques, mas o problema começou a ser na escola. Na minha classe era até de boa porque ninguém tinha coragem de mexer comigo, e os caras de lá eram uns maricas, mas na classe da Irene tinha uma turma barra pesada que depois que souberam do velho e como ele era, começaram a perseguir e tirar uma com a cara dela, tanto as garotas como os garotos, eles até chegaram a bater nela. Depois daquele dia eu comecei a me tornar um demônio também.
— Você acha que é quem seu merda? Seu filho de uma puta e um bêbado! Ninguém liga pra sua irmã que também vai ser uma futura prostituta! – O rapaz que dizia isso tinha repetido dois anos seguidos, era uma marginalzinho que andava com uma gangue de uns 5 caras todos envolvidos com drogas e coisas do tipo, eu disse que iria virar um demônio mas tinha tomado uma surra naquele dia, eles me pegaram de jeito no fundo da escola, mas o mais importante, eu tinha mudado o foco deles da Irene pra mim.
Quando eles pensavam em fazer algo pra ela, eu aparecia na frente dos malditos e eles já iam com tudo pra me socar. Eu aguentaria. Até tentei dar cabo neles mas era demais lutar contra 6 ou 7 pessoas. Aguentei várias surras, até que um dia os miseráveis na escola deram um jeito de expulsar um deles e intimidar os outros, mas eu já tava com uma cicatriz na testa depois de tomar um chute na cara de um deles. Comecei a treinar em casa, se eu quisesse proteger Irene eu precisava ficar mais forte.
Felizmente saímos do ensino médio e eu tinha apenas quebrado a cara de 5 marmanjos, meu treinamento tinha dado certo, mas em compensação tinha uma galera barra pesada querendo me apagar. Irene não podia mais ficar do meu lado.
Arrumei um bico em uma oficina e comecei a morar sozinho em uma kit net em um bairro fodido, minha tia ia todo dia insistir pra que eu voltasse, a Irene chegava a ajoelhar, mas eu não era trouxa, eles iam correr perigo comigo. Várias vezes eles foram até meu cafofo pra tacar pedras e chutar a porta, um deles chegou a me emboscar embaixo de uma ponte e eu fiquei desmaiado por duas horas depois de uma paulada na cabeça. Mas eu aguentaria.
Comecei a treinar mais pesado ainda, prometi pra Irene que ela seria feliz, depois de tudo que passamos por culpa daquele demônio, eu iria pelo menos levar a felicidade para ela.
Eu aguentei aquele trabalho de merda por 3 anos, parece que todo mundo naquela merda de cidade me odiava, eles me fazia trabalhar até tarde, eu era xingado sempre, não querendo ser o cara que só reclama, mas eles aproveitavam que eu não tinha renome nem família e pegavam pesado, me pagavam até menos do que eu deveria receber.
Depois dos meus 20 anos eu finalmente tinha conseguido abrir um negócio, mal dava pra sobreviver mas pelo menos era meu, não ouvia mais xingos, não era pago injustamente, eu apenas não conseguia dormir muito bem e me alimentava mal pra caralho, mas eu aguentaria. Irene já estava quase casada, o cara era bom, um loirinho de Michigan, boa pinta, mas eu tinha um pouco de ciúmes, confesso. Sempre protegi ela, eu queria ter um emprego melhor pra poder ajuda-la, não podia ficar parado. Eu aguentaria..
Depois dos 25 eu finalmente abri uma oficina mesmo, tinha até montado uma estrutura legalzinha, apesar de ter uns problemas de pressão aí, algo que peguei daquele demônio maldito também, mas tudo bem, eu nunca tinha colocado bebida na boca. Foi graças ao desgraçado que eu tinha sido liberto desse mal, a única coisa que eu podia agradecer a ele, mesmo sabendo que o desgraçado devia tá em um nível bem fundo do inferno.
Me casei aos 30 anos, tava meio velho já mas era só nessa época que eu tinha grana pra isso mesmo, mas graças a Deus conseguimos um lugarzinho bom pra morar, a Jenifer era uma ótima esposa, ela sempre me ajudava no trabalho mesmo sendo uma merda lidar com essas coisas de oficina, bom, ao menos pra uma mulher. Pena que essa felicidade durou apenas 7 anos. Mas nessa época eu ao menos tinha meus moleques pra me darem suporte, porque eu vou falar, foi foda. Digo isso mesmo tendo traído minha esposa durante 3 anos.
Mesmo apanhando desde pequeno, mesmo sofrendo os bullyngs e perseguições, acho que nada mais me fodeu quanto a morte da Jenifer. Ela era tudo pra mim, o que me dava forças pra aguentar, Irene já estava bem, o marido dela tinha muita grana, ela tinha uma filha linda de 7 anos já, eu tinha feito minha parte, ajudei ela com a mudança, comprei algumas coisas pra casa dela e até mesmo ajudei a reformar a mobília, ela tava salva, mas depois de umas semanas do falecimento da Jenifer comecei a fraquejar. Aquela parede que eu tinha levantado pra me proteger começou a ruir aos poucos quando me entreguei pra bebida, e isso porque aquilo era tudo que eu desprezava. Era o único motivo do meu pai ter feito toda merda que fez, e agora, eu tava trilhando pra um caminho parecido. Será mesmo que eu iria aguentar? Antes que eu pudesse começar a levantar aquela parede novamente, eu me deparei com aquela merda de mundo.
— Então tu vai mesmo apelar assim? – Quando eu vi o nível daquele maldito já dei uma desanimada bruta. Como eu passaria por aquela coisa? Tank Master? Não sei o que significava mas devia ser algo muito acima do que to agora.
— Vamos fazer o seguinte, se você aguentar apenas um soco meu, eu te declaro como vitorioso da arena. – Ele tinha feito uma proposta boa até, eu tinha confiança naquela habilidade de fortalecimento, talvez eu ficasse meio zoado mas poderia conseguir. Olhei pros olhos soberbos daquele cara e aceitei sem medo.
— Vem com tudo. Quer dizer, também não precisa ser com tudo né. – Ativei a habilidade na hora e comecei a me concentrar pra usar todo meu MP nela, eu iria vencer mesmo se aguentasse? Puta que paril, eu iria sair daquele ciclo de morte, eu não acreditava que podia me safar assim, mas era tudo ou nada. Agora eu tinha que dar tudo de mim, aguentar o máximo, vai porra, carrega todo MP. Eu senti meu corpo quente, como se fosse ferro fundido, parecia que nem uma Scania poderia me machucar, o rapaz na minha frente tirou o seu terno, aquilo me pareceu ficar meio sério, eu não devia ter falado pra ele ir com tudo não, mas não importa, eu sairia dali, aguentaria tudo que fosse, o quanto fosse, eu sempre aguentei.
— Você ainda tem muito o que aprender. – O cara me deu um soco no estômago e partiu meu corpo em sabe-se lá quantos pedaços, porque a hora que ele relou eu já tava morto.
CENTÉSSIMA QUARTA VEZ
— Fiu, matei oitenta desses capetas agora, mas meu level não passa do 60, será que agora vai? Não, preciso de mais, vou esmagar aquela baixinha e depois procurar mais monstros, agora aquele filha da puta me deixou nervoso.
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