Wildland: Return to Zero

10 Capítulo 09 - Penitência


"Non morietur in iniquitate"

— Vamos. – Eu dei o primeiro passo para partir dali, Liss olhava para os arredores tentando evitar caminhos que nos levassem para criaturas ou lugares sem saída.

— Eu conheço essa floresta, aqui foi um dos primeiros lugares que conheci ao chegar nesse mundo. Sabe, foi há mais ou menos uns 8 meses, talvez mais, o tempo aqui passa diferente, eu nem sei como contar, os dias às vezes duram mais, a noite parece nunca ter fim. – Eu continuava caminhando em passos largos com Liss, esperando pela brecha de uma fresta de sol que apareceria no meio daquela neblina que ficara mais densa

— Mas o que é isso? É um jogo? Tudo parece um rpg, como isso...

— É, realmente, eu não conhecia tanto assim, mas parece que todos aqui tem habilidades nessas pulseiras, também temos classes que surgem de acordo com algumas características próprias nossas, por exemplo, pessoas que trabalhavam em áreas médicas ou psiquiatrias são healers aqui, os trabalhadores braçais geralmente são guerreiros ou tanques, os músicos e artistas são bardos, já os assassinos são pessoas que já mataram alguém na vida real. – Aquela informação havia me dado um frio na espinha, obviamente eu iria me tornar aquilo.

— E eu...

— Você ainda não tá no nível 10, quando chegar vai descobrir sua classe e poder ver a classe e level dos outros, é meio estranho no começo, mas é bem útil. Aliás, falta apenas 1 level pra isso. – Eu olhei para minha pulseira, eu quase estava no 10. O que faria se Liss me visse como assassina? Eu não queria isso. Não poderia. Ela era a única pessoa que eu conseguia confiar e ter ao meu lado, eu queria ter ela mais tempo comigo, não podia mais subir de nível.

— Sabe, eu ainda tenho muito ressentimento da minha outra vida. Não sei se isso é um novo começo mas, eu quero realmente me redimir por tudo, você também? – Liss parecia feliz ao dizer aquilo, eu a invejava por tanta confiança, mas como eu poderia ser assim depois de todos os meus pecados?

— Eu também quero, mas não consigo sozinha. Você irá ficar comigo?

— Eu estou aqui não?

— Por favor, esteja sempre comigo.

— Você precisa de uma pessoa Liv?

— Eu sinto que sim, perdi alguém muito importante, não me recuperei ainda, sozinha sinto que vou desmoronar.

— Eu também perdi, perdi tudo. Minha vida, dignidade, na verdade, tudo foi tirado de mim. Você também?

— Eu tenho parte nisso mas, outras pessoas também influenciaram! – Eu sentia que não podia colocar toda culpa em mim, afinal, Jaqueline também tinha parcela naquilo, se não fosse por ela...

— Então você se acha culpada pelo que aconteceu?

— Eu... Não foi totalmente minha culpa. Eu sei que não. – Continuávamos a caminhar cada vez mais rápido, sentia que os gritos e vozes estavam cada vez mais perto, além do uivo grotesco que ouvia próximo dali.

— Então, você não tem um pingo de arrependimento ou culpa?

— Eu quero começar de novo também, sinto que aqui posso mudar, posso fazer diferente, mas esteja comigo, eu sinto que com você posso tudo! – Eu segurei mais firme a mão de Liss, eu sabia que seria forte se ela também me desse sua força.

— Haha, eu queria ouvir isso, Liv. Obrigada. – Liss parou de andar e parecia ficar imóvel na minha frente. – Eu acho que aqui já está bom. – A garota se virou para mim chorando enquanto sorria. – Veja, olha aquele tatu, ou um ser que se parece com um. – Liss apontou para uma criatura com um casco nas costas que parecia um tatu mas de coloração avermelhada. Ele comia algumas frutas peculiares que caíam dos pinheiros cinzas. – Mate ele e você sobe pro 10, precisamos disso, falta pouco pra você. – Eu não podia! Liss iria me ver como assassina, mas se não fizesse isso, talvez estaríamos em problema, Liss contava comigo para sair daquela situação, eu tinha mesmo capacidade para isso? A dor ainda não passava, o sangue continuava a escorrer, mas prometi sobreviver. Agora eu tinha um motivo.

— Não importa o que, não me deixe! – Eu mirei naquela criatura e apertei as setas que forjavam aquelas luzes nas minhas mãos, arremessei as duas contra a criatura, uma pegou ao lado mas a outra cravou em sua casca o atravessando na barriga, senti um poder enorme dentro de mim naquele instante, minha dor diminuiu e eu olhei para a pulseira e vi mais um símbolo lá, era uma caveira e uma foice. Comecei a ficar ansiosa, naquele momento, o nome Rogue já apareceu na parte superior da pulseira. Aquilo era um assassino. Eu era uma assassina. Olhei devagar para Liss e pude ver que também conseguia enxergar o level e a classe dela. Mas o que era aquilo? Liss me disse que só pessoas que mataram outras na vida real podiam ser assassinas, mas o que significava aquilo? Liss me olhava enquanto sorria com seus olhos focados nos meus, seu level era 40 e em cima do número, havia seu nome escrito com sua classe: “JaquelineX – Rogue/Summoner – Lorde das Trevas.

— Bem vinda à sua penitência, Livia.