Notas iniciais
Espero que alguém goste mas acima de tudo espero que alguém leia né...

O sol cegou meus olhos assim que eu os abri, em sincronia com o barulho irritantemente alto do meu despertador. Levantei da cama e me dirigi ao lado do quarto onde eu encontraria o banheiro, olhei meu reflexo no espelho e me surpreendi com o que via. Mesmo depois de 1 mês eu não conseguia me acostumar com a cicatriz que começava poucos milímetros acima da minha sobrancelha direita e descia até a têmpora, fora isso, meu rosto estava bem mais magro do que há seis meses atrás quando houve o acontecido.

Peguei o celular para ver a horas e resolvi encarar o dia que me esperava, não podia mais adiar aquele momento! Liguei a playlist que ela havia montado com seus artistas favoritos e me dirigi de volta ao banheiro onde me livrei das roupas – agora, sem a ajuda dela como havíamos feito tantas vezes antes – e liguei o chuveiro.

A cada musica que tocava a saudade se tornava maior e como de costume, quando ela se tornava insuportável as lágrimas transbordavam sem que eu conseguisse me controlar. A voz daquelas duas cantoras não tinha outra função a não ser me lembrar de todas as nossas aventuras, dos nosso beijos... Mas diferente de meses atrás, o sorriso que aparecia sempre que as ouvia tinha dado lugar às lágrimas que agora eram mais frequentes do que qualquer outra coisa.

Cada música me lembrava de um momento com ela. E do nada, como se tivesse ouvido meus pensamentos o celular começou a tocar uma melodia muito familiar ao meus ouvidos e quando notei já estava perdida nas minhas lembranças...

“Tínhamos acabado de chegar do restaurante, a mulher que me acompanhava havia bebido bastante vinho como já era de costume. Assim que chegamos ao apartamento ela se dirigiu para o quarto procurando pelo aparelho de som, ouvi aquela inconfundível guitarra entrar em ação seguida pela magnifica voz que ela tanto amava...

Maybe...
Oh, if I could pray, and I try, dear
You might come back home, home to me

Assim que coloquei os pés na entrada do quarto ela me puxou para dançar, era uma música triste mas mesmo assim eu não conseguia e não queria me livrar dos braços da mulher. Ela se afastou de mim e começou a dançar só, de olhos fechados e com toda a sensualidade que só ela tinha. Sorri ao ver aquilo, mesmo depois de 3 anos ela ainda conseguia me surpreender todos os dias, eu amava isso nela... Ela deixou a alça do vestido cair do ombro e me encarou como se estivesse dizendo ‘’venha e tire o resto’’, segui aos comandos e fui até ela...’’

Só notei que estava encolhida no chão do banheiro quando ouvi o despertador tocar, interrompendo a musica e indicando que eu estava atrasada. Terminei meu banho e fui me arrumar no quarto repassando as minhas obrigações mentalmente.

Desde o fatídico dia eu não conseguia mais dirigir um carro, fui pedalando até a estação onde tranquei a bicicleta junto ao estacionamento e segui o resto do caminho de metrô. Não havia um só dia em que eu não lembrava do acidente.

Eu sabia que a culpa de tudo tinha sido minha, se eu não tivesse sido tão descuidada ela ainda estaria comigo!

Eu vi a hora em que ela entrou no carro e ligou o rádio, vi a hora em que ela me disse ‘’coloque o sinto’’ com aquele olhar preocupado e protetor... E vi também a hora em que eu me distrai, a hora em que EU matava a pessoa que eu mais amei no mundo. Acordei do transe quando senti o gosto salgado da lágrima chegando na minha boca, passei a mão no rosto secando-a antes que as outras pessoas viessem me perguntar o que estava acontecendo.

Cheguei ao meu destino e fui até o balcão onde encontrei um senhor com meia idade que pediu a minha identidade antes de me acompanhar até o local onde os restos do meu carro estavam.

Ao ver aquele monte de metal só consegui lembrar de todos os momentos que ele havia me proporcionado desde que o comprei. Ela foi comigo escolher o modelo do carro e por ironia do destino ela também estava lá quando ele se transformou no monte de metal retorcido que jazia na minha frente. Outra lembrança invadiu meus pensamentos:

“Assim que saímos da concessionaria e ela me pediu para dar uma volta na BR, nunca consegui dizer não a ela desde que a conheci, então lá fomos nós realizar o desejo da minha amada...

‘’Basta ser sincero e desejar profundo, você será capaz de sacudir o mundo’’ ela cantarolava...

Senti uma dor terrível dentro do peito ao lembrar daquele momento, percebi que graças a um deslize meu, tudo que eu tinha se foi de uma só vez e não havia nada que eu pudesse fazer para mudar isso.

O senhor que me acompanhava me perguntou se estava tudo bem e foi só então que eu percebi que estava chorando de novo - havia se tornado tão comum nos últimos tempos que eu nem percebia mais -.

- Eu perdi as 2 coisas que eu mais demorei pra conquistar de uma vez só, nunca vai ficar tudo bem. – respondi o senhor e me virei para ir embora daquele lugar.

Sai do local sem ter a menor noção de onde eu iria parar, mas continuei andando. Até me dar conta de que eu estava na frente do cemitério da cidade, recuei 2 passos mas acabei entrando no terreno.

Eu precisava ir até ela, precisava pedir o seu perdão mesmo sabendo que eu nunca obteria resposta... No dia em que recebi alta do hospital uma amiga me entregou o papel que eu tinha no bolso com as coordenadas de uma sepultura mas eu nunca tive coragem de ir até lá, até hoje.

Haviam feito uma sepultura simples para ela, com apenas uma foto e uma frase que ela sempre dizia. Fitei o rosto daquela moça lembrando de que não tive a oportunidade de me despedir dela, não pude olha-la pela ultima vez e pedir perdão por tudo, perdão por tê-la machucado.

‘’ Since I've come home
Well, my body's been a mess
And I miss your ginger hair
And the way you like to dress

Oh, won't you come on over?
Stop making a fool out of me
Why don't you come on over, Valerie?’’

Cantarolei com a voz embargada por tentar segurar o choro.

Abaixei para encarar o seu retrato uma ultima vez e antes de levantar me obriguei a dizer:

Me perdoa amor, eu nunca quis te machucar – as lágrimas caiam de novo – meu plano era te fazer feliz por toda a eternidade, desculpa por não cumprir a minha promessa. Tudo que eu mais queria era estar no seu lugar agora, tudo perdeu o sentido sem você... Onde quer que você esteja, espero que consiga me ouvir. Lembre-se sempre que eu te amo.

Levantei e me permiti um minuto em silêncio, acabara ali o meu sonho. Eu percebi que nunca mais iria ver aquela cascata de cabelos ruivos, não sentiria mais aquele perfume, não beijaria mais aquela boca, ela nunca mais seria minha. Ah se eu pudesse voltar no tempo e mudar o rumo dessa historia... Tudo pra não perdê-la. Durante toda a minha vida eu havia procurado pela minha Valerie e quando finalmente a encontrei deixei-a partir.

Eu estava cega pelas lágrimas e a única pergunta que passava pela minha cabeça era se um dia eu iria parar de chorar, se iria parar de doer... Eu sabia que a resposta era negativa e isso só me fazia chorar mais... Toda a nossa vida juntas passou diante dos meus olhos como um flashback, desde o dia em que nos conhecemos até o dia em que a perdi para a morte. Queria entender por que Deus escolheu logo esta forma de me punir, queria ter sido eu a morrer e não ela, eu trocaria o resto da minha vida por um último beijo, trocaria tudo que eu tinha para poder dizer ‘’eu te amo’’ de novo.

Sequei o rosto novamente e me virei, orando em silêncio pela alma da minha amada. Me forcei a dar o primeiro passo para longe dela, depois o segundo, o terceiro... Segui sem olhar para trás, a partir dali eu teria que aprender a seguir sem ela. E foi assim que eu pus um fim na minha história de amor...

Nem todas as histórias estão destinadas a ter um final feliz, você nunca pensa que um dia irá perder essa pessoa seja para outro alguém, para a vida ou até para a morte... Então, lembre-se sempre de provar o seu amor enquanto pode.

Notas finais
Então é isso... Tem muito tempo que eu não escrevo, me perdoem se houver alguém erro de digitação, ok? E me avisem, claro :D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!