Why Cliché?
19 Epílogo
Era um dia ensolarado em Phoenix. O Sol pinicava minha pele, e a brisa leve bagunçava meus cabelos. Carrie estava morta há dois dias. E hoje, com esse tempo tão digno dela, estava sendo efetuado seu enterro. A alguns metros de mim, estava seu caixão, agora fechado. Perto dele, um padre segurava uma bíblia e dizia algumas palavras bonitas. Ao meu lado, estavam Peter e Lisa, junto com quase cem pessoas. A tragédia do Baile de Halloween havia repercutido por toda a cidade, e muitas pessoas, principalmente da escola, vieram conferir o velório da principal vítima.
– Rezemos um Pai Nosso agora, irmãos. – A voz do padre me despertou de meus pensamentos. Levantando a cabeça, comecei a oração, junto com uma centena de vozes. Logo após o Amém, Laila, que estava rodeada por seus pais, entrou numa crise de choros e lamentações. Lisa ao meu lado bufou.
– Até parece que ela se importava com a irmã enquanto Carrie estava viva. – Desabafou, jogando seus cabelos ruivos pra trás.
– Será que até em um momento tão sério quanto esse ela insiste em ser o centro das atenções? – Peter suspirou, e eu o encarei. Stevens havia recebido alta do hospital hoje de manhã, e mesmo estando cheio de curativos e de muletas, insistiu em vir conosco ao enterro. Por pouco, a surra que recebeu de Basso e de seus capangas não o matou. Havia quebrado o braço, uma costela, lesionado o fêmur, sem contar os milhares de hematomas espalhados por todo o seu corpo. Tentamos de todas as formas convencê-lo a ficar em casa de repouso, mas ele não desistiu.
Quando Laila finalmente se “recuperou”, o enterro continuou. O caixão estava pronto pra ser abaixado, e naquele momento as pessoas estavam indo até lá pra jogar um palmo de terra.
Afastando-me de Peter e Lisa, caminhei pra perto do caixão. Abaixei um pouco, pegando um pouco de terra com a mão.
– Adeus, Carrie. – Sussurrei, antes de jogar a terra sobre o caixão. Voltei pro meu lugar, limpando a mão no vestido.
Acompanhei o caixão ser lentamente enterrado. Ao contrário do velório da minha irmã, eu não demonstrava emoção. Toda essa história serviu pra que eu amadurecesse.
Foi provado que eu havia matado Basso, mas em legítima defesa. Nicholas foi achado desacordado dentro de uma das salas, e quando a polícia encontrou provas de que ele estava envolvido no caso, foi condenado. Alguns comparsas de Basso foram presos também, mas a maioria fugiu.
Tive de passar a noite toda na delegacia, dando depoimentos. Meus pais foram avisados pela a escola sobre tudo que havia acontecido e eles correram pra lá, minha mãe em prantos e meu pai branco. Assim que me viu, mamãe correu até mim e me abraçou, desesperada.
– Nunca mais faça isso, entendeu? Eu não aguentaria perder outra filha. — Ela desabafou, em meio aos soluços.
Lisa ficou conhecida como a grande heroína do caso. Ela conseguiu fugir dos comparsas de Basso -sim, eles foram atrás dela- e tirar todos os alunos do prédio. Nem precisou chamar a polícia, porque o alarme de incêndio era conectado a delegacia e ao corpo de bombeiros. Quando explicou a todos o que realmente estava acontecendo, insistiu em entrar novamente na escola junto com os policiais. Foi ela quem os indicou a direção até a sala, e foi ela que nos encontrou.
O enterro finalmente acabou, e enquanto todos seguiam pros portões do cemitério, eu o adentrei. Caminhei por entre as lápides, os olhando atenta, até achar a que eu queria.
Suzana George, filha e irmã amada.
– Olá, Suze. – Disse, me aproximando. Sentei-me sobre a terra, acariciando as flores recentes que estavam ali. Papai e mamãe viviam visitando o cemitério.
Uma brisa um pouco mais forte balançou meus cabelos, e eu sorri, olhando pro céu aberto. Sabia que ela estava ali.
– Sabe, nas últimas semanas, cheguei a pensar que logo estaríamos juntas de novo. – Ri fraco. – Seria a única parte boa nisso tudo. Mas eu não morri, não é? Aposto que tem um dedinho seu nisso. – Ao longe, um passarinho cantava, e seu canto misturado com o barulho do vento me trazia calma. Fechei os olhos. – Talvez mamãe estivesse certa. Você não se foi. Esteve aqui o tempo todo, nos observando de longe. Você é meu anjo da guarda, Suze. – Sorri, limpando uma lágrima solitária que rolava pelo meu rosto. – Você provavelmente acompanhou toda essa loucura que aconteceu na minha vida em apenas dois meses. O Peter Stevens apaixonado por mim, a mãe saindo da depressão, essa história do Basso. Você viu tudo, certo? E esteve ali comigo, todos os momentos. Foi você que me deu forças pra lutar pela minha vida, quando tudo dentro de mim dizia que já estava acabado. E é graças a você, irmã, que eu estou viva hoje. Então, muito obrigada. Obrigada por nunca ter desistido da nossa família, ou de mim. Mesmo morta, Suze, você é a melhor coisa que eu já tive. Eu te amo. – O vento soprou forte mais uma vez, e eu vi isso como uma resposta. Abri meus olhos e os sequei, me levantando. Endireitei meu vestido e me virei, pronta pra ir embora. Porém, dei de cara com Peter.
– Lisa pediu pra perguntar se você quer ir conosco a uma lanchonete, comer alguma coisa. – Ele começou, sem graça. Desde o baile, não tivemos oportunidade de falar sobre nós dois. Stevens ficou o tempo todo no hospital, e assim que saiu viemos pra cá. Sabia que essa era a hora, e por isso algo cutucava meu estômago.
– Ah, claro.Vamos. – Falei simplesmente, andando em direção à saída. Porém ao passar por Peter, ele me puxou pelo braço, me beijando. O beijo foi rápido e calmo, mas o suficiente pra nos fazer entender que nada havia mudado.
– Estamos bem, de novo? – Stevens perguntou, seus olhos cor de avelã me fitando. Eu sorri, o puxando pra mais um beijo.
– Sempre estivemos.
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