Uma música qualquer soou de repente no meu ouvido, me fazendo levantar num pulo. Os clipes passavam alto na televisão, e deveres da escola descansavam encima de mim. Olhei pro relógio de parede, pra ter noção do quanto eu havia dormido. Ainda eram 16h30min. Terminei de fazer a lição de casa, correndo pra cozinha pra preparar a sopa de minha mãe. Desde o acidente, era a única coisa que eu conseguia a fazer comer. Coloquei a sopa no micro-ondas, pensando que ontem, fez um ano.

– Um ano sonhando com a mesma coisa. – Sussurrei pra mim mesma, lembrando do pesadelo que eu tive há poucos minutos. Era o mesmo há doze meses.

Um ano atrás, eu, meu pai, minha mãe e minha irmã estávamos voltando da viagem de férias na Califórnia. Um carro que estava fazendo uma ultrapassagem bateu com tudo em nosso carro, nos fazendo capotar barranco abaixo. Meus pais e eu conseguimos sobreviver, depois de meses no hospital, mas minha irmã mais nova não. Ela foi lançada pra fora do automóvel, morrendo na hora. Suze tinha acabado de completar treze anos, e toda vez que seu sorriso vinha a minha mente, algo se agitava dentro de mim. Dor, saudade, culpa. Minha mãe também foi tomada por esses sentimentos, o que a fez entrar em uma depressão profunda logo que saímos do hospital. Ela não saia da cama, nunca. Meu pai teve que aceitar um emprego numa cidade a 500 mil km de distância, para poder sustentar a casa. Tirando natal, ano novo e páscoa, éramos apenas eu e mamãe. Mais precisamente, eu.

Meu telefone vibrou, e o toque de Lisa começou a soar. Lisa e eu somos melhores amigas desde a infância. Na verdade, eu não tinha nenhuma outra amiga.

– Sarita – Ela me chamou, dando um gritinho de animação – Meus pais foram viajar e meu irmão está na casa de um amigo. Que tal você vir passar o fim de semana/feriado na minha casa? Três dias de pura diversão e festas do pijama. Não aceito não como resposta.

– Três dias? É tanto tempo... — Resmunguei. – Não posso deixar minha mãe sozinha por três dias.

– Sara, você ainda lembra que só tem 16 anos? – Disse com uma voz séria. – Você precisa se divertir. Aposto que nem sua mãe e nem sua irmã gostariam de ver você nessa fossa. Você não saiu de casa nem uma vez desde o acidente. Isso devia ser proibido pros adolescentes.

– Então o que você propõe? Deixar minha mãe sozinha em casa e sair pra curtir? – Não esperei uma resposta. – Sem chance.

– Ok, ok, eu entendo que sua mãe não pode se cuidar sozinha, mas olha, pra que servem os vizinhos? Quando eu e Peter éramos pequenos e nossos pais precisavam sair, eles deixavam a nossa vizinha velha cuidando da gente. – A sentia sorrindo do outro lado do telefone. – O que me diz? Aposto que também mora uma vizinha idosa e solitária na sua rua. Toda rua tem uma.

– É, tem uma...- Parei pra pensar na senhora Lee, uma mulher de quase setenta anos que morava duas casas a frente. – Mas como vou ter certeza que ela é confiável pra cuidar de mamãe?

– Toda velinha é confiável! – Lisa falou quase como se ela se sentisse ofendida. Rolei os olhos.

– Você nunca viu filmes de terror?

– Você nunca vai parar de ser tão desesperada? – Reformulou minha pergunta. – Sara, sua mãe vai ficar bem.

– Tá bom! Eu vou dormir na sua casa. Mas se algo acontecer a minha mãe, eu te mato. – Ameacei.

– Chego ai daqui a pouco. – Cantarolou, desligando o telefone.

Suspirei, pegando a sopa e a levando até o quarto de mamãe. Ela estava deitada, olhando pra cima, o olhar vazio. Coloquei a sopa perto de sua cama, a ajudando a se sentar pra comer. Sentei na ponta da cama.

– Mãe – Chamei, mas ela não virou o rosto pra mim – Eu vou dormir na casa da Lisa esse fim de semana. Pedirei pra Lee cuidar de você. Acha que ficará bem aqui sem mim? – Sua cabeça balançou ligeiramente, indicando que sim. Comecei a dar com o pé atrás. – Você sabe, caso não queira que eu vá, eu não vou. – Balançou a cabeça, negando. Mamãe não me olhou uma vez sequer, encarando o prato de sopa. – Então até segunda mãe, eu te amo. – Me levantei, sem esperar uma resposta. No início, eu tinha esperanças de um dia ouvir sua voz novamente. Esperanças que se esvaíram com o passar dos meses.

Corri até meu quarto, me proibindo de chorar. Lisa logo chegaria e caso me visse com o rosto vermelho, falaria no meu ouvido por duas horas. Por isso, tratei de respirar fundo e jogar minhas coisas numa mochila qualquer. Coloquei poucas mudas de roupa, até porque só ficaria um fim de semana lá e Lisa poderia me emprestar algo. Fui até o espelho, esperando estar razoável. Uma calça jeans skinny, uma sapatilha bailarina, regata branca e cardigã marrom. Empurrei uma tiara pela minha cabeça, apenas pra poder chamar de penteado. Passei uma gloss labial, encarando meus olhos cor de safira. Papai sempre dissera que eram os olhos mais lindos que já tinha visto, mas agora estavam cansados e me deixavam com cara de 10 anos mais velha. A buzina do novo Beetle de Lisa soou e eu olhei pela janela. Lá estava ele estacionado em frente à porta de casa.

Meu estômago deu uma cambalhota. Desde o acidente eu tentava escapar ao máximo de carros. Ia a pé à escola e de bicicleta ao centro da cidade quando precisava comprar algo pra casa. Engolindo minha vontade de pedir a Lisa para irmos a pé até seu bairro que ficava a 15 km de distância, fui até seu carro a pedindo pra esperar enquanto ia até a casa de Lee. Lá, listei tudo o que minha mãe conseguia comer, a hora de seus remédios e avisei que ligaria a noite.

Voltei correndo ao carro de minha melhor amiga, sentando enquanto suspirava.

– Vamos logo antes que eu me arrependa. – Lisa fechou seu estojo de maquiagem e me lançou seus olhos cor de avelã. Sua boca rosada ficou reprimida em preocupação.

– Você está péssima.

– Eu estou cansada. – Concordei. Ela estendeu seu estojo pra mim.

– Maquiagem é uma ótima terapia. – Encarei a coisinha cor de rosa retangular na minha frente.

– Eu estou bem. – Empurrei de volta pra Lisa, que balançou a cabeça.

– Você precisa estar arrumada. – Falou ligando o motor. Eu arqueei as sobrancelhas. Antes que pudesse responder ela completou. – Nós vamos ao shopping.

– Não. – Respondi já tentando abrir a porta. Infelizmente o carro já estava em movimento, e pular seria suicídio.

– Nós apenas vamos comprar roupas. – Explicou com uma voz que continha um tom indignado. Obviamente Lisa não entendia minha repulsa por ir ao shopping.

– Eu não trouxe dinheiro. – Inventei a primeira desculpa que veio a minha mente. Não era mentira. Eu realmente não trouxera mais do que 20 dólares.

– Não tem problema, eu pago. – Sacudiu seus cabelos ruivos, sorrindo pra mim. A família de Lisa era formada por sucedidos advogados, médicos e empresários. Seus pais eram donos de uma empresa de cosméticos que atuava em todo o país. Mas em 13 anos de amizade, eu nunca havia me aproveitado de sua vida financeira, não seria agora que eu começaria.

– Eu não vou aceitar que pague roupas pra mim. Não é meu aniversário. – Afirmei e ela apenas revirou os olhos.

– Somos melhores amigas, é normal comprarmos coisas uma pra outra. – Riu. – Considere isso um banho de loja.

Eu resmunguei, me afundando no banco do carona. Sempre havia odiado shoppings e banhos de loja. Se Lisa tivesse me contado seus verdadeiros planos eu nunca toparia, e ela sabia muito bem disso.

Chegamos à rua do shopping Center, e alguns jovens estavam reunidos na frente de sua porta. Geralmente a esse horário, alguns adolescentes vão com os amigos pra lá interagir com outras pessoas. Saímos do carro e eu encarei a ruiva ao meu lado. – Não vamos ficar aqui, né? – Passamos pelo grupo de pessoas, e vi algumas bebendo, outras fumando. Esse lugar sempre havia me dado nojo.

Lisa apenas negou com a cabeça, passando pela porta da frente. – Não, nós vamos comprar! –Contemplou sorridente as vitrines ao nosso redor, comendo as roupas com os olhos. Fiz uma careta, amarrando meu cabelo num coque bagunçado. Com certeza não sairíamos daqui tão cedo.

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Só consegui arrastar a ruiva que chamo carinhosamente de melhor amiga pra fora do shopping após ela ter comprado centenas de roupas pra ela, e um vestido, uma calça jeans e duas blusas pra mim. Após um lanche rápido no Bobs, fomos direto para sua casa. A humilde mansão dos Stevens ficava em um nobre bairro no lado sul da cidade. A casa de três andares tinha uma pintura branca, com janelas pintadas de azul e uma simpática porta de madeira importada. Um grande jardim rodeava o terreno, e ao lado oeste era possível ver o balanço que Lisa e seu irmão brincavam quando eram menores. No lado leste estava a piscina e a churrasqueira.

Após abrir o portão de ferro, nosso New Beetles se encaminhou pra garagem. Entramos pela porta dos fundos e eu percebi que a casa que eu frequentava desde criança continuou a mesma desde a última vez que vim aqui, semanas antes do acidente pra me despedir de Lisa. Enquanto minha família iria visitar minha avó na Califórnia, os Stevens iriam a Paris aproveitar as férias de três meses.

Lisa subiu a escada principal até sua suíte para deixar as bolsas, e eu a segui. A ruiva tinha um quarto duas vezes maior que meu, com as paredes em tom lilás, uma cama de casal e um closet na parte leste. Largou as sacolas no chão e se jogou em sua cama, me mandando fazer o mesmo. Assim que eu repeti seu ato, um déjavu de como minha vida era antes do acidente me deu um ataque de riso. Eu era apenas uma menina começando a adolescência, com pais pegando em meu pé e vindo à casa da melhor amiga pra falar de garotos. Minha barriga começou a doer com meu ataque repentino, e enxuguei meus olhos cheios de lágrimas.

– O que foi? – Lisa perguntou, me encarando com um meio sorriso. Eu a encarei de volta, respirando fundo pra retomar o fôlego.

– Senti sua falta. – Comentei ignorando sua pergunta.

– Também senti a sua. – Respondeu.

– É sério, quando foi a última vez que fizemos um programa de melhores amigas? – Questionei a mim mesma. – Um ano atrás, talvez?

– Eu ainda gostava do Trevor. – Ela lembrou. Trevor era um nerd de nossa sala, que usava aparelho e óculos fundo de garrafa. Por mais estranho que fosse, foi a primeira paixão de Lisa. Nós duas rimos. – Eu não faço ideia de por que eu gostava dele.

– Você não gostava, você era apaixonada por Trevor. – Corrigi e ela me deu língua. – O que aconteceu com ele? Ele nunca mais voltou depois das férias de verão.

– Acho que seus pais o mandaram para um internato em que os professores soubessem dar valor ao seu “dom da inteligência”. – Fez aspas com a mão, usando uma voz engraçada.

– Você gostou de mais alguém depois disso? – Perguntei e ela fez uma careta.

– Com certeza não. Lisa Stevens se tornou totalmente independente de garotos. – Falou e eu revirei os olhos.

– Até parece. Você não vive sem garotos. – Impliquei e ela me deu um soco de leve no ombro.

– Sua mentirosa! – Gritou de brincadeira e eu dei uma gargalhada alta. Continuamos falando sobre nada importante por um bom tempo, até percebermos que já era bem tarde. Tomamos banho juntas como antigamente, e depois de ligar pra Lee e ter certeza que mamãe estava bem, fui obrigada a ir ao quarto de Peter pegar um filme enquanto Lisa fazia brigadeiro de panela, um doce delicioso que aprendeu com uma prima brasileira.

O quarto de Peter era mais ou menos do tamanho do de sua irmã, também com um closet e cama de casal. A diferença era que enquanto o quarto de Lisa era estilo menininha, Peter ia mais pro estilo roqueiro. As paredes pintadas de preto e pôsteres de bandas de rock coladas nas mesmas davam uma aparência bem rebelde ao menino loiro de olhos cor de avelã. Um cheio de perfume masculino chegou até mim e eu prendi a respiração. Isso não me afetaria tanto, se Peter não tivesse sido minha primeira paixão. Pouco mais de doze meses atrás, ele era o mundo pra mim. Meu maior erro foi ter contado pra Lisa, que adora implicar comigo sobre isso, afinal, ele é seu irmão. Ela sempre me mandava vir aqui “pegar um filme” nessa época, e eu aproveitava pra cheirar suas roupas e mexer em suas gavetas. Só de lembrar isso, senti meu rosto queimar. Era tão estranho.

Corri até o closet, aonde eu sabia que ficava a caixa de filmes. A cada 10 segundos, eu soltava a respiração, apenas pra respirar fundo e prender de novo. Peguei o primeiro filme que eu vi (Jogos Mortais) e corri pra fora dali. Após Lisa terminar de fazer o brigadeiro, voltamos pro seu quarto, mais conversando e fazendo piadas do que prestando atenção a TV. Antes de aparecerem os créditos, nós duas estávamos apagadas.

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Acordei sobressaltada. Suor escorria pela minha testa e pescoço, e eu sabia que havia tido outro pesadelo, mesmo que não me lembrasse. Olhei pro despertador no criado mundo, e ele indicava 05h00min da manhã. A luzinha da TV piscava, indicando que ela não havia sido desligada. Peguei o controle remoto, apertando o botão vermelho. Depois sai do quarto, indo buscar um copo d’água na cozinha.

Desci as escadas lentamente, tentando não fazer barulho e praticamente de olhos fechados. A casa dos Stevens podia ser bem assustadora à noite. Fui até a copa, e sem acender a luz, peguei um copo e abri a torneira. Um barulho soou atrás de mim e eu pulei.

– Quem está ai? – Perguntei me virando. A sombra de um homem pairava a 1 metro de distância. Abri a boca pra gritar, mas a mão do homem a tapou. Ele estava bem mais perto agora, seus olhos cor de avelã me encarando. O reconheci imediatamente. – Peter? – Chamei num sussurro.

– Olá, gatinha. – Respondeu com um meio sorriso e meu estômago virou. Gatinha?

– O que está fazendo aqui?

– Bebendo água. – Levantou a sua mão, me mostrando o copo.

– Sim, mas, pensei que estivesse na casa de um amigo. – Lembrei-me do que Lisa havia dito mais cedo, no telefone.

– Eu voltei mais cedo. – Deus de ombros. Encaramos-nos pelo que pareceu uma eternidade, em silêncio. – Faz algum tempo.

– Faz. – Concordei.

– Desde o acidente...

– Não quero falar sobre isso. – Cortei-o e ele me lançou um olhar de compaixão.

– Sara, eu sinto muito. – Disse devagar.

– Todo mundo sente. – Retruquei.

– Não, sério. Você passou por tanta coisa, eu... Eu não sei se aguentaria o que você teve que aguentar. – Dei uma risada sem humor.

– Convenhamos que eu sempre fui mais forte que você. – Brinquei e ele me olhou indignado. Depois, se transformou num olhar malicioso. Antes que eu percebesse, ele passou o braço pela minha cintura, me prendendo entre a pia e ele.

– Tem certeza? – Perguntou no meu ouvido e eu me arrepiei. Droga, que diabos estava acontecendo comigo?

– E-eu não estava falando de força f-física. – Gaguejei.

– Oh, claro. – Falou numa voz divertida.

– Mesmo. – Eu estava sentindo minha pele ficar mais quente. – Será que você poderia me soltar? Eu tenho que voltar pro quarto. – Coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha, e Peter observou meu movimento atentamente. Encarou-me por um longo tempo, antes de finalmente tirar seu braço da minha cintura. Não consegui evitar um gemido de alívio. Mais alguns minutos ali, e eu enlouqueceria. Peguei meu copo, e me guiei pra fora da cozinha, sentindo seu olhar na minha nuca. Antes de sair, me virei pra ele.

– Boa noite, Peter. – Stevens deu um sorriso de canto.

– Boa noite, gatinha.

Notas finais
Yeey, primeiro capítulo!! Muito obrigada por estar lendo a minha história *-*. Próximo capítulo: 16/08/14 Lembrando que, os comentários são a alma do negócio ;)