Why Cliché?

4 Capitulo III


O quê? – Perguntei assustada. Ainda estava esperando Peter começar a rir dizendo que era brincadeira ou homens com câmeras aparecerem dizendo que era uma pegadinha. Mas nada aconteceu, além dos olhos cor de avelã de Peter me encarando ansiosos. – Se estava apaixonado por mim todo esse tempo, por que não me contou? Por que me fez acreditar que me desprezava?

– Eu nunca quis que pensasse que eu a desprezava, gatinha. – Fechou os olhos, suspirando. – Eu tinha medo. Medo de você não querer mais ficar comigo, de... Você encontrar uma pessoa melhor... Eu não sei. Sempre que eu tentava lhe contar, algo impedia as palavras de saírem da minha boca.

– Eu não sei o que pensar. – Sussurrei. A incerteza clara em minha voz.

– Não precisa pensar em nada. – Peter acariciou meu rosto. – Não agora. Vamos devagar, ok? – Assenti com a cabeça levemente.

– Ok.

– Eu só preciso saber, Sara. – Sua voz grave saiu em um tom preocupado. – Se você ainda sente algo por mim, se eu posso ter esperanças. Se tiver outro cara eu vou entender, eu...

– Peter. – Chamei, o interrompendo. Agora foi a minha vez de colocar a mão em seu rosto, o obrigando a me encarar nos olhos pra poder ver o quanto sincera eu estava sendo. – Nunca existiu nenhum outro cara. Nunca vai existir. Eu sou estupidamente apaixonada por você desde a primeira vez que o vi. – Minha voz soou doce, e ele fechou os olhos. Longos minutos se passaram, até ele os abrir de novo. Quando isso aconteceu, eles estavam aliviados, quase... Felizes.

– Diga isso de novo. – Pediu e eu sorri.

– Peter Stevens. Eu, Sara George, sou estupidamente apaixonada por você desde a primeira vez que o vi. – Falei devagar, saboreando cada palavra. Peter deu uma risada contente, e aquele som fez meu corpo inteiro se agitar. Antes que eu pudesse rir também, ele selou sua boca na minha, num beijo doce e apaixonado. Nossas línguas dançavam em uma sincronia calma e perfeita. Nós dois esperamos por isso há muito tempo. Não tinha motivo pra ter pressa.

Enlacei meus braços ao redor do pescoço de Peter e ele abraçou minha cintura, me puxando pra si. Meus dedos acariciavam seus cabelos louros, os bagunçando. Após o que pareceu uma eternidade, nos separamos, em busca de fôlego. Stevens encostou sua testa na minha, sorrindo. Eu o devolvi meu mais belo e feliz sorriso.

–Foi o melhor beijo da minha vida. – Falou em meu ouvido e os pelos da minha nuca se arrepiaram.

– Foi o melhor da minha vida também. – Sorri. – Na verdade, o único.

Peter me encarou. – Sério?

– Sério. – Ri, corando. Ele se afastou.

– Desculpa, eu prometi ir devagar. – Riu sem humor. – Eu não consigo me controlar. Eu esperei tanto tempo por isso... Eu ficava a noite imaginando quando seria, como seria, qual seria sua reação. – Ele me olhou com um meio sorriso. – Não faz ideia do quanto é bom saber que eu fui o primeiro que você beijou, gatinha. Fez muito bem pro meu orgulho.

Dei uma gargalhada, depois parando ao me lembrar de que era a primeira gargalhada que eu dava desde o acidente. Com Peter era tudo tão sincero, tão verdadeiro. Abrindo um sorriso gigante, eu corri até ele, o abraçando apertado. Peter estremeceu, mas logo me apertou mais contra ele, desfazendo minha trança enquanto acariciava meu cabelo.

Se alguém houvesse me falado que isso iria acontecer ontem, eu jamais acreditaria.

Ele levantou minha cabeça, me beijando mais uma vez. Nada me importava mais. Estávamos numa rua a uma quadra da casa de Peter, e crianças corriam pela calçada, jogando folhas caídas umas nas outras, mas pra mim era como se estivéssemos só nós dois.

– Alguém em casa? – Gritei quando entrei no hall da mansão dos Stevens, Peter em meu alcanço. Ficamos aproximadamente duas horas fora, sentados no banquinho da praça ali perto conversando sobre assuntos idiotas e nos beijando. Quando nos lembramos da hora, corremos pra cá, rezando pra que Lisa não tivesse ficado preocupada e ligado pra Lee, o que desmentiria meu bilhete.

– Aqui! – Lisa gritou de volta, sua voz vinda da cozinha. Seguimos até lá, encontrando a ruiva sentada na bancada com uma xícara escrita “miss perua” entre as mãos. – Você demorou.

– Ah, sim... Eu tinha ido até a minha casa. Deixei um bilhete. – Ela assentiu.

– Eu vi. Sua mãe está bem? – Arqueou a sobrancelha, preocupada. Sua pergunta me pegou de surpresa. Falei a primeira coisa que pensei.

– Está, ela estava apenas com um pouco de febre. – Dei um sorriso amarelo. Lisa sorriu de volta e olhou pra algo atrás de mim, parecendo não ter notado seu irmão antes.

– O que está fazendo aqui? – Repetiu a pergunta que eu havia feito ontem. Olhei pra Peter, esperando que ele tivesse uma desculpa na ponta da língua.

– Estava voltando da cada de Phil quando encontrei Sara perdida na vizinhança. – Respondeu com uma naturalidade que até eu poderia acreditar. Resolvi alimentar a mentira.

– Pois é, me esqueci como se anda no seu bairro. – Ri e Lisa gargalhou, seus cabelos ruivos lançando se pra trás junto com sua cabeça. Esperava que fizesse mais perguntas, mas assim que parou de rir, ela mudou de assunto.

– Fomos convidados pra social na casa da Laila. – Falou a Peter, e depois olhou pra mim. – Consegui um convite pra você também, depois de insistir muito. Digamos que você não tenha uma vida social muito animada. – Sorriu sem graça e eu rolei os olhos. Pra mim, festas não faziam parte do kit de sobrevivência, como Lisa pensava. – Os trajes têm de ser preto ou branco, então você não tem desculpa, já que ontem eu te comprei um vestido preto. – Me lembrei do vestido curto rendado que minha melhor amiga havia classificado como “santa dos estilosos, que vestido per-fei-to!”, e obviamente, me obrigado a aceitar como presente de natal adiantado.

– Você está me obrigando a ir, é isso? – Perguntei só pra ter certeza, e Lisa assentiu com a cabeça, lançando-me seu melhor olhar “ou você está na festa, ou você está morta”.

– Vamos lá, Sara, vai ser legal. – Peter falou atrás de mim, me animando. Virei-me pra ele.

– Super. – Ironizei, mas segurava um sorriso.

– Eu estarei lá! – Sorriu pra mim, e meus olhos brilharam.

– Como se a sua existência fizesse alguma diferença pra Sara. – Zombou Lisa, parando quando viu que eu não tinha respondido. – Certo, Sara? – Eu gelei. Não sabia o que fazer. Dizer “claro que faz, Lisa” iria deixar na cara que eu estava caidinha por seu irmão, e dizer “não faz mesmo” iria magoar Peter. Lancei um olhar desesperado ao loiro a 20 cm de mim, e ele respondeu com um olhar que significava “vá em frente”. – Sara? – A ruiva ainda sentada na bancada me chamou.

– Certo. – Concordei, ainda encarando Peter.

– Ok, isso está estranho...Vem, vamos procurar uma roupa pra mim. Ainda não faço ideia do que vou usar na social. – Lisa segurou meu braço, me puxando pra fora da cozinha. Quando estávamos fora de seu campo de visão, Peter me mandou um beijo e eu corei.

Lisa me parou assim que chegamos ao seu quarto. – Agora desembuche: o que acabou de acontecer? – Perguntou arqueando uma sobrancelha. Fiz-me de desentendida.

– Como assim?

– Eu não sou boba, Sara. Percebi a troca de olhares com Peter. – Anunciou e eu olhei pra baixo, impedindo-a de ver meu rosto vermelho. – Você está ficando com o meu irmão? – Eu queria contar-lhe tudo, queria descrever cada parte do que aconteceu desde que eu me encontrei com Peter na cozinha hoje de madrugada. Mas então eu me lembrei do olhar que ele me deu minutos atrás. Por algum motivo, Peter não queria que eu contasse a Lisa o que estava acontecendo entre nós dois. Mesmo não sabendo qual, eu não iria contar.

– Eu não estou ficando com seu irmão. – Falei devagar, sentindo uma pontada de culpa por mentir pra minha melhor amiga. Na hora certa você irá contar a ela, fique tranquila. Eu dizia a mim mesma.

– Mesmo? – Perguntou novamente, e eu reconheci o tom de sua voz que indicava que ela não insistiria. Lisa havia acreditado em mim.

– Mesmo. – Afirmei. – Agora, podemos escolher a sua roupa? – Mudei de assunto, me lembrando do motivo pelo qual ela havia me trazido aqui pra cima.

– Ah, a roupa, claro. – Se lembrou, indo em direção ao closet. – Eu estava pensando...

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Eram 18h30min. A “social” começava às 19h, mas de acordo com Lisa, chegar um pouco atrasada dava um charme a mais. Eu estava de frente pro espelho de corpo que ficava no meio do quarto de minha melhor amiga. O vestido preto de mangas compridas rendado dos ombros até a cintura na parte detrás havia caído perfeitamente em mim. Lisa me obrigara a calçar uma botinha marfim 18 centímetros, que incomodava meus pés toda vez que eu andava. Meus cabelos castanhos estavam amarrados em um rabo de cavalo alto, e meu rosto estava completamente maquiado, os olhos levemente delineados, chamando atenção pras minhas duas bolas cor de safira.

– Você está linda. – Minha melhor amiga falou, admirando sua própria obra de arte. Eu tinha que admitir, Lisa havia feito um ótimo trabalho.

– Olha quem fala. – Brinquei, a olhando pelo espelho. A ruiva estava sentada na penteadeira atrás de mim, ainda se maquiando. Usava um vestido branco de babado tão curto quanto o meu, um salto plataforma vermelho e os cabelos soltos, lhe dando um ar poderoso.

– Concordo. Nós duas estamos de matar hoje. – Concluiu, rindo. Eu ri também. Sentia-me leve, bonita e confiante. Fazia muito tempo que eu não me sentia assim.

– Toc toc – A porta abriu devagar, e Peter aos poucos foi aparecendo. Eu segurei a respiração. Ele estava extremamente sexy naquela camisa social branca, as mangas puxadas até perto do cotovelo. A calça jeans deixava o visual mais despojado, combinando com o sapatênis preto.

Por um segundo, um brilho passou pelos olhos de Peter a me ver. Ele me olhou dos pés a cabeça, dando um sorriso satisfeito com o resultado. O sangue correu até meu rosto, me fazendo corar imediatamente. Eu abaixei a cabeça, e então Lisa olhou pra trás, para o seu irmão.

– Você está bonito, Peter. – Elogiou, fazendo uma cara de “nada mal”.

– Vocês também estão. – Respondeu ele, me olhando ao terminar sua frase. – Vim perguntar se as damas ainda vão demorar muito pra terminar de se arrumar.

– Sara já está pronta. – Ela disse por mim. – Eu já estou quase acabando de me maquiar. Podem me esperar lá embaixo, já desço.

Peter assentiu se afastando um pouco da porta, indicando que era pra eu passar. Agradeci enquanto saia do quarto. Quando fechou a porta, ele uniu sua boca na minha em um beijo rápido.

– Você está perfeita. – Comentou e eu sorri. – Só acho que esse vestido devia ser um pouquinho maior.

– Ciúmes? – Arqueei uma sobrancelha e ele negou com a cabeça.

– Apenas cuidando da minha garota. – Falou e eu dei uma risadinha.

– Quem disse que sou sua garota? – Provoquei e Stevens me encarou sério.

– Não é minha garota? – Perguntou.

– Talvez...

– Diga que é minha garota. – Ordenou, me olhando desafiadoramente. Eu levantei a cabeça, pra olhá-lo nos olhos.

– E se eu não disser? – Peter ficou quieto um instante, e depois num movimento rápido, eu estava em seu colo e ele descia as escadas correndo, quase me derrubando umas três vezes.

– Peter, pare! – Exigi, mas ele apenas continuou correndo comigo pela casa.

– O que está acontecendo aqui? – Lisa gritou do alto da escada, e então Peter parou. Nós viramos pra ela, eu ainda no colo do seu irmão.

– O quê? – Peter perguntou com um falso ar de inocência. Eu segurei a risada.

– O que você fez com ela? – A ruiva gritou de novo, sua vozinha fina quase estourando meus tímpanos. Ela veio ao nosso encontro. – A ponha no chão agora, Peter. – Mandou e foi exatamente isso que ele fez. Era engraçado ver Stevens tão submisso a alguém, principalmente a uma garota de 16 anos que era vinte centímetros mais baixa que ele e era sua irmã mais nova.

Quando senti o chão, puxei meu vestido pra baixo e dei um forte puxão em meu rabo de cavalo, o deixando mais firme.

– Está pronta? – Mudei de assunto, sendo tão cara de pau quanto Peter. Aos poucos, Lisa foi se acalmando, seu rosto voltando ao tom normal.

– Sim. – Respondeu. – Vamos. – Nós três nos dirigimos à garagem em silêncio, entrando na picape de Peter. – Você vai atrás comigo. – Declarou minha melhor amiga, me puxando quando eu me dirigia à porta da frente.

– Tudo bem. – Concordei apenas pra não criar mais intriga. Não entendia a raiva súbita de Lisa. Tudo bem que não era a coisa mais normal do mundo ver sua melhor amiga rindo e se divertindo com seu irmão mais velho enquanto você termina de se arrumar, mas... Também não é motivo pra todo esse chilique.

O caminho até a casa de Laila se seguiu com o som de nossa respiração apenas, deixando um ar tenso entre nós. Quando chegamos, eu permiti que minha boca fizesse o formato da letra “O”. A casa de Laila conseguia ser maior que a dos Stevens, chegava parecer um mini castelo. Eu já havia visto Laila pelos corredores da escola, as roupas coladas e suas duas “servas”, Lia e Chloe, bancando as três mosqueteiras. Eu nunca havia falado com ela, mas sabia que era amiga de Lisa por causa do clube vip, e que ela era rica, mas isso era demais. Quem era seu pai? Barack Obama?

Olhei pra minha melhor amiga, esperando ver a mesma expressão de surpresa em seu rosto, mas ela estava normal. É claro que ela estava normal. Lisa já estava acostumada. Isso fazia parte de seu mundo.

– Damas? – Peter abriu a porta do lado de sua irmã, a ajudando a sair do carro. Quando chegou a minha vez, apertou minha mão mais forte, dando um sorrisinho que só eu conseguia ver.

Encarei o que estava a minha frente e respirei fundo. Pessoas e mais pessoas enchiam o gigantesco jardim da casa, com copos vermelhos em suas mãos. Elas dançavam, se agarravam, fumavam e faziam outras coisas que se costuma fazer numa festa. Mas eu não conhecia nada disso. Aquela era a primeira festa que eu ia em todos os meus dezesseis anos de vida.

Eu não queria ir adiante. Queria correr pro carro e voltar pra casa, aonde eu sabia que estava segura de todos esses adolescentes psicopatas que eu não conhecia.

– Sara? – Lisa me chamou, já a 50 metros de distância. Eu ainda estava congelada perto da picape. Eu gemi.

– Você está nervosa? – Peter perguntou atrás de mim. Sorri nervosamente.

– Não. – Menti. Ele riu e colocou a mão nas minhas costas.

– Você consegue. – Incentivou e eu suspirei. Assenti com a cabeça.

– Eu consigo. – Disse pra mim mesma. Então, eu comecei a andar, levantando a cabeça de forma superior, pra não demonstrar o quão insegura eu me sentia. Esperava que pra quem estivesse vendo de fora, eu parecesse apenas mais uma garota indo pra mais uma festa.

Quando cheguei perto de Lisa, segurei sua mão. – Vamos lá. – Falei, sorrindo. Ela sorriu também.

– Vamos lá. – Concordou.

Quanto mais perto íamos ficando da porta principal, mais alta ia ficando a música. Era um pop/rock que eu não conhecia, mas certamente as pessoas a nossa volta conheciam, pois cantavam e dançavam no ritmo da batida.

Quando ficamos de frente pra madeira branca, minha melhor amiga tocou a campainha. Eu olhei pra trás, procurando por Peter. Mas ele não estava lá, devia ter ficado pelo jardim mesmo. Uma onda de ciúmes me abateu, mas eu logo a afastei. Peter não era nada meu. Tinha todo o direito de fazer o que quisesse.

A porta se abriu. Laila apareceu do outro lado, usando um vestido preto tomara que caia ultracurto. Ela sorriu ao ver Lisa, então olhou pra mim, confusa.

– E você é... — Não terminou a frase, deixando claro que era pra eu dizer meu nome.

– Sara. – Apresentei-me, sorrindo. Quando ela não sorriu de volta, eu fiquei séria.

– A Sara de quem eu tinha lhe falado; La. – A ruiva ao meu lado falou.

– Oh, claro. – Assentiu, parecendo não se lembrar. Abriu mais a porta, enfim abrindo um sorriso. – Podem entrar, fiquem a vontade.

O lado de dentro da casa estava ainda mais lotado do que o jardim, a sala de estar havia se transformado em uma pista de dança com dezenas de pessoas se balançando. A música havia mudado para rock, e eu sorri reconhecendo Give Love a Bad Name do Bon Jovi.

– Quem diria. – Comentei, e Lisa me olhou.

– O quê? – Perguntou.

– A dona da festa tem bom gosto. – Falei, batendo o pé de acordo com a batida. A ruiva olhou pra pista de dança e depois me puxou.

– Vamos dançar, sexy lady. – Continuou me puxando até o meio das pessoas, onde largou minha mão e começou a mexer os quadris. Eu fiquei parada, olhando pra ela. – O que foi?

– Eu não sei dançar. – Admiti, corando. Ela rolou os olhos.

– Todo mundo sabe dançar. É só seguir a batida. – Disse.

– Mas... Eu tenho vergonha. – Corei mais ainda, abaixando a cabeça. Lisa bufou, se virando e roubando a vodka de um homem que passava. Ela me entregou.

– Bebe. – Ordenou. Eu encarei a garrafa na minha frente.

– Mas o que...

– Bebe. – Me interrompeu. – Beba e te dou 50 pratas. – Apostou.

– Não quero seu dinheiro. – Retruquei, devolvendo-a a garrafa.

– Ok, covarde. – Pegou a vodka e deu um gole. Em um ato de raiva, eu puxei o vidrinho transparente de sua mão, dando um gole longo, muito longo. O líquido descia cortando minha garganta, agitando meu estômago. Não era uma sensação boa, mas eu não ligava. Mostraria que não era nenhum pouco covarde.

Quando achei o suficiente, afastei a garrafa da minha boca. Limpei os cantos de meus lábios, encarando uma Lisa boquiaberta.

– Uaaaaaau, garota. – Ela gritou e eu sorri. Pegou 50 pratas de sua mini bolsa e depositou em minha mão. – Mais 50 que bebe de novo.

– Lisa, eu não sei não... — Balancei a cabeça e ela bateu os pés, impaciente.

– Vamos lá, você já bebeu a maior parte. – Me devolveu a vodka, e com apenas outro gole, eu bebi o que havia sobrado. Sentia-me tonta, um pouco enjoada. Mas ao mesmo tempo me sentia livre e solta. Eu joguei a garrafa pra trás e segurei nas mãos de Lisa, começando a dançar. Eu girava a cabeça de um lado pro outro, balançando meus cabelos. Meus quadris mexiam de uma forma que eu não sabia que conseguia fazer. Agora eu entendia o que Lis havia feito. Já um pouco bêbada, eu não me sentia tímida, muito menos envergonhada. Não ligava se todos estivessem me olhando. Dançar com minha melhor amiga e gargalhar alto por qualquer coisa era muito mais importante.

A quantidade de corpos na casa de Laila aumentava a cada minuto. Se Newton estivesse aqui, ele definitivamente teria de mudar sua teoria.

– Desculpe-me. – Gritei pra uma menina que havia empurrado sem querer, na busca desesperada por um banheiro. Seu cabelo ruivo pintado me fez lembrar Lisa. Depois de dançar mais quatro músicas, eu a havia perdido. No início, eu não havia me importado, mas quando tive que afastar três caras que eu nunca tinha visto antes, fiquei preocupada. Lisa era a única pessoa que eu conhecia ali, aonde ela havia se metido?

Após quinhentos “com licença” e três portas erradas, eu finalmente empurrei o retângulo de madeira do lavabo. Encostei-me na porta do lado de dentro, fechando os olhos. O barulho ali estava bem menor.

– Oi. – Ouvi uma voz feminina. Abri os olhos, dando de cara pra uma menina sentada na pia, segurando uma garrafa de alguma coisa. Ela era loira, com os cabelos cacheados na altura dos ombros e os olhos verdes.

– Oi. – Respondi, sentando-me na privada. Ela me encarou.

– Bebeu demais?

– Você não tem ideia. – Ri sem humor, pensando na garrafa de tequila que havia sucedido a de vodka. O chão balançou, e eu apoiei a cabeça na parede.

– Talvez eu tenha. – Ela fez uma pausa, buscando algo no armário do banheiro. – Toma, isso melhora a tontura. – Entregou um frasquinho verde esgoto. Eu fiz uma careta. Aquilo tinha um cheiro terrível.

– Como vou saber se não está tentando me envenenar? Eu nem ao menos sei o seu nome. – Falei e a loirinha riu.

– Eu realmente não sou muito confiável, mas eu não estou tentando te envenenar. – Respondeu. – E a propósito, meu nome é Carrie.

Eu dei de ombros. Carrie parecia ser uma boa pessoa, e algo me dizia que eu podia confiar nela. Talvez fosse o álcool. Eu tapei o nariz, enfiando o líquido goela abaixo. O gosto conseguia ser pior ainda. – Sara. – Disse, quando havia me recuperado. Eu fechei meus olhos novamente, e o mundo aos poucos foi parando de girar. Eu a olhei, surpresa. – Funcionou, obrigada.

– De nada. – Sorriu, deixando aparecer uma covinha na sua bochecha esquerda.

– Então... Eu poderia te perguntar o que você está fazendo nesse banheiro com essa garrafa, ou é muito íntimo? – Mordi o lábio e ela deu uma risadinha. As pessoas me achavam mais divertida bêbada do que sóbria, que legal.

– Estou buscando um momento de paz. – Deu um gole na sua bebida, antes de voltar a falar. – Digamos que eu não curto muito festas, ao contrário de minha irmã.

– E sua irmã é...?

– Acho que você a conhece. – Mexeu nas pontas do cabelo. – Ela é a anfitriã. – Olhou pra mim, esperando minha reação. Eu apenas pisquei.

– Laila é sua irmã? Eu pensava que ela fosse filha única. – Respondi depois de alguns minutos. O álcool deixava meu raciocínio lento.

– É o que todo mundo é pensa. Laila os faz pensar assim. Meio que é uma vergonha pra ela admitir que dividimos o mesmo sangue. – Riu sem humor, tomando outro gole longo. Eu senti compaixão por Carrie.

– Que vadia. – Comentei mais pra mim do que pra ela. – Quer dizer, eu sei que ela é sua irmã, mas...

– Isso não a faz menos vadia. – Brincou. – Só que... Não espalha ok? Laila me mataria se soubesse que eu contei pra alguém.

Passei os dedos sobre os lábios, os selando como se fosse um zíper. – Minha boca é um tumulo. – Declarei e ela gargalhou. – Mas continuo achando Laila uma vadia. Tanta gente querendo uma irmã por ai, e ela não assumindo uma.

– Como assim? – Perguntou curiosa. Então eu despejei tudo. Não gostava de falar sobre o acidente, mas eu gostava de conversar com Carrie, nós nos entendíamos.

– Uau. – Ela disse depois que eu terminei de contar tudo. – Eu cheguei a ver um noticiário na TV naquela época, mas eu não fazia ideia de que era você. Eu realmente sinto muito.

– Está tudo bem. – Sorri um pouco. Nós continuamos conversando, e parecia que nos conhecíamos há séculos. Após o que pareceu uma eternidade, eu saí do banheiro em busca de Lis.

A casa de Laila – e Carrie – já estava menos movimentada, mas ainda havia dezenas de pessoas espalhadas por todas as partes. Procurei em todo o primeiro andar, esbarrando em duas falsas Lisas. A tontura já estava voltando quando eu subi a escada que dava pro segundo andar, e eu tive que segurar em um menino que estava parado por ali.

– Ei, você está bem? – Ele me chamou. Eu me virei, dando de cara com lindos olhos verdes.

– Hm, sim, só um pouco tonta. – Sorri amarelo. – Você sabe, muita bebida...

– Claro. – Ele riu, deixando a mostra uma linda fileira de dentes brancos. – Acontece com todo mundo. Só cuidado pra não cair por ai.

– Pode deixar. – Fiz um sinal com as mãos pra ele, indicando que estava tudo bem. Voltei a subir a escada, suspirando quando cheguei ao final e encontrando seis portas no corredor. Alguns barulhos já podiam ser ouvidos dali.

– Oh Lisa, por favor, não esteja aqui. – Resmunguei, indo em direção à primeira porta.

Quatro portas erradas. Doze xingamentos. Eu já estava quase desistindo, quando vi a quinta porta entreaberta. Nenhum barulho vinha dali, ou o casal estava dormindo, ou o quarto estava vazio.

Eu me dirigi pra lá, empurrando um pouco a porta. Era provavelmente um quarto de hóspedes, pois não havia nada de pessoal por ali. Olhei para a cama, aonde um moreno barrigudo roncava, ao lado dele estava... Lisa. Apenas de lingerie. Ela estava de olhos abertos, mexendo nos cabelos. Não pareceu notar minha presença até que eu a chamei.

– Lis?

– Sara? – Chamou de volta, inclinando a cabeça. Ela parecia dopada.

– O que aconteceu aqui? – Perguntei seguindo em direção a ela. Peguei seu vestido que estava jogado no chão e a entreguei.

– O que você acha? – Retrucou rindo. Eu suspirei.

– Você ao menos sabe o nome dele?

– Hm, não. Ele tinha me falado. – Estalou os dedos, tentando se lembrar. – Brian, Billy, Bruce... Eu não sei.

– Você dormiu com um cara que você nem sabe o nome? – Exclamei sussurrando. O garoto ainda dormia tranquilamente.

– Ah, qual é. Você queria que eu perguntasse seu tipo sanguíneo também? – Ironizou indo até a porta e eu a segui. – Eu estou bêbada. E ele é gostoso. – Rolei os olhos, me virando pro rapaz novamente. A bola que ele chama de estômago descia e subia calmamente, indicando que ele estava respirando. Seu rosto era vermelho igual um pimentão, e ele mexia a boca de vez em quando.

Lisa estava bem mais bêbada do que imaginava. E com certeza, não lembraria disto amanhã.

– Só espero que você não tenha dado seu número pra ele... — Murmurei, a empurrando pra fora do quarto.

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– Pra onde nós vamos? – Lis perguntou meio drogada enquanto eu a puxava pela rua. Ela andava descalça, segurando os saltos e cambaleando.

– Casa. – Respondi parando no ponto de táxi.

– Táxi? – Fez careta. – Onde está o meu irmão?

– Eu não faço ideia de onde está o seu irmão. – Ri sem humor, procurando um táxi disponível. – Ainda deve estar na festa, se pegando com alguma menina, se drogando... Eu não sei. Ei, ali tem um. – Apontei pro Ford Galaxy parado no meio fio ao final da rua. Guiei Lisa até lá.

– Meu irmão não se droga, babaca. – Respondeu mil anos depois, quando já estávamos dentro do carro. Eu ri e me virei pro lado. Lis deu o endereço pro motorista, e seguimos o caminho em silêncio.

Eu fechei meus olhos. Minha cabeça havia voltado a rodar, e o movimento do táxi só me fazia ficar mais enjoada.

De repente, o motorista parou. Eu abri os olhos, encarando uma casa que não era a dos Stevens.

– Oh, merda... — Ouvi Lisa sussurrar.

– O que? – Perguntei virando-me pra lá. O motorista já nos encarava.

– Eu dei o endereço errado. – Ela disse, com uma voz risonha e chorosa ao mesmo tempo. – Eu não lembro onde fica a minha casa... — Choramingou.

– Eu não acredito que você fez isso. – Falei lentamente. Ela apenas continuou a choramingar.

O motorista fez um barulho com a garganta, me lembrando de que ele ainda estava ali. Usando o máximo de minha memória, e orando pra estar certa, eu dei pra ele o endereço do que eu esperava que fosse a rua dos Stevens.

Vinte minutos depois, estávamos saindo do carro enfrente a mansão de Lisa. E ela ainda estava choramingando atrás de mim. Minha cabeça parecia que iria explodir a qualquer momento. Em um impulso, eu me virei pra ela.

– Nós chegamos Lisa, você já pode parar de chorar! – Gritei a assustando.

– Não grita comigo! – Ela exclamou de volta.

– Eu estou bêbada. Minha cabeça está doendo, o mundo tá girando muito rápido e eu estou enjoada. E você fica chorando perto de mim! – Explodi e ela chorou mais ainda.

– Eu sinto muito, mas eu também estou bêbada. Até porque não estaríamos gritando como loucas no meio da rua se não estivéssemos bêbadas. – Riu, e então ficou séria de novo. – Mas você não pode me culpar por estar passando mal. Eu também estou e... – Ela parou no meio da frase, curvando-se pra frente. Eu ainda não havia entendido o que estava acontecendo, até ouvir o som de vômito.

Bem nos sapatos.

– Ai meu Deus. – Murmurei, respirando fundo. Quando acabou de colocar as tripas pra fora, Lisa se endireitou, me encarando.

– Desculpa. – Pediu, limpando a boca com as mãos.

– Está... Está tudo bem, Lisa. – Sorri, andando em direção a porta de casa. – Até porque, os sapatos são seus. – Gritei pra que ela pudesse ouvir, dando uma risada quando ela respondeu com um resmungo.

Notas finais
Uhuuul, parabéns pra você que leu até o final, você venceu na vida! hahahahaha o próximo capitulo sai no próximo capitulo, e se tudo der certo bad love sai na ooutra semana *----* beijinhos e não esqueçam de comentar, galera!