Who stalk the stalkers?
7 Uma tarde de tédio
Acordei às duas da tarde, com meu estômago gritando e implorando por um pouco de comida. Usei minhas forças adquiridas durante o sono para me levantar da cama e ir até a cozinha, somente para lembrar que a geladeira estava quase completamente vazia. Desta vez, estava sem vontade de exercitar meus dotes culinários, então resolvi comer em algum lugar. Voltei ao meu quarto e troquei rapidamente minhas roupas, colocando uma camiseta preta sem estampas, meu casaco preto e calças jeans, com um tênis branco. Destravei todas as trancas da porta rapidamente e a fechei logo atrás de mim, correndo até a lanchonete da esquina. Eu costumava ir até lá em situações desesperadoras como essa. Pedi o almoço pronto do dia, que contava com um rico cardápio de arroz, bife acebolado e uma pequena porção de batatas fritas, tudo isso acompanhado de três folhas de alface e duas finas fatias de tomate. Depois de meia hora, estava totalmente alimentado e pronto para voltar aos meus afazeres
Voltando ao meu quarto, tranquei a porta e vasculhei meu apartamento para garantir que estava sozinho, e só então sentei-me à mesa do meu computador, ligando-o rapidamente. Me aconcheguei na cadeira, inclinando-a para trás enquanto esticava meus dois braços na tentativa de expulsar toda a preguiça de meu ser. Depois de meus alongamentos matinais, digo… Vespertinos, me atentei ao plano de fundo do meu computador, sem muitas ideias do que faria naquele dia. Abri o A.S.E. e comecei a fuçar na rede, sem nenhum objetivo específico. Mais uma vez, me chamou a atenção o grande prêmio pela identidade do Watcher, me fazendo pensar que stalkers gostavam de quebrar regras. Sem muito o que fazer, lembrei-me de que já havia passado da hora de fazer compras.
Desliguei meu computador, peguei minha fiel mochila e saí do meu apartamento, trancando cuidadosamente sua porta. Andei dois quarteirões e entrei no mercado do bairro. Não era muito grande e seus preços não eram os melhores, mas seu pouco movimento era o que me motivava a ir ali, ainda mais depois do episódio da cafeteria. Estranhamente, eu não estava muito paranoico com multidões, sinal de que minha mente estava finalmente assimilando a rede de stalkers como uma coisa normal. Não sei dizer se isso era bom ou ruim. Enfim, andei pelos corredores, atento às promoções e a qualquer movimento suspeito ao meu redor. Por sorte, consegui finalizar minhas compras em segurança e só demorei quatro horas, um tempo recorde.
Voltei para meu apartamento por volta das sete da noite, com seis sacolas de plástico contendo alguns alimentos básicos e muito café. Eu não sabia quando sairia para comprar mantimentos novamente, devido à investigação, então decidi abastecer bem o meu estoque. Realizei meu novo ritual padrão de verificar a presença de intrusos no apartamento e tranquei todo o local, guardando metodicamente todas as compras logo em seguida. Algo estava bom naquele dia, pois consegui um novo tempo recorde de duas horas para guardar todos os mantimentos em ordem alfabética.
Assim que estava satisfeito com as posições das coisas no armário e na geladeira, coloquei um pouco de água em uma leiteira e deixei esquentar para preparar um macarrão instantâneo de frango. Alguns minutos depois, a água ferveu e em três minutos a ceia estava pronta. Devorei o macarrão industrializado enquanto recitava mantras em minha mente para não pegar um câncer devido à minha péssima alimentação. Aceitei meu destino, como de costume, e voltei ao computador, que ligou em menos de um minuto. Vi-me novamente sem ter o que fazer. Pensei em procurar alguma forma de ajudar na investigação, já que estava entediado, mas passei meia hora mexendo o mouse de um lado para o outro e fazendo pequenos retângulos na área de trabalho até aceitar minha derrota. Quando desisti de ajudar, recordei-me de meu desejo por descobrir detalhes da vida de nossa querida Senhorita Hiperatividade e sorri por ter algo para fazer.
Vasculhei cada canto da minha memória e me peguei sem muitas pistas sobre a garota. Ninguém tinha mencionado um nome ligado à ela, nem mesmo um fictício ou pseudônimo, apenas Dark Rose. Só sabia seu nome de trabalho e que ela era uma pessoa com gostos, manias e personalidade exóticas. Decidi, então, começar pelo que eu tinha, caçando registros de sua atividade como stalker. Descobri que ela atuava há seis anos como stalker, tendo o cuidado de sempre variar bastante os locais de encontro, deixando uma área enorme de busca dentro da Baía dos Pecadores. Era uma confirmação que ela era desta cidade, mas isso era óbvio, uma vez que ela estava no nosso conselho de loucos. Como nada nessa vida vem fácil, decidi fazer uma relação com todas as localizações, na tentativa de encontrar uma área de convergência, utilizando a mesma técnica que utilizaram para encontrar minha tão amada cafeteria.
Duas horas e meia depois, consegui um bairro, não muito distante do meu, na Baía dos Pecadores. Tudo bem, isso não ajudava muito, mas eu sou conhecido pela minha paciência de um monge que alcançou o Nirvana. Então parti para minha segunda e mais trabalhosa fase do mirabolante “Plano sem nome para caçar a Hiperatividade”: a agência de correios. Tinha uma ou duas lojas que vendiam perucas e lentes de contato coloridas na cidade, mas como stalker, imaginei que S.H. não compraria tudo no mesmo lugar, muito menos presencialmente. Isso seria um erro fatal para alguém que pretende esconder sua identidade. Logo, a melhor escolha seria a internet e sua vasta gama de lojas de todos os tipos e para todos os gostos. Seria como achar uma agulha em cem quilômetros quadrados de palha vasculhar os sites que vendem estes artigos um por um, então a alternativa mais rápida seria o sistema dos correios, já que tudo acaba passando por ali cedo ou tarde.
Depois de muito esforço, suor e dez latas de energético, consegui invadir o sistema dos correios e checar as encomendas endereçadas à minha amada Baía dos Pecadores. Após ter uma enorme lista, onde eu estava incluso, foquei minha pesquisa nas amadas perucas e lentes, tendo que checar encomenda por encomenda. Seria uma atividade de semanas de trabalho se eu não tivesse focado no bairro que encontrei após cruzar os dados dos encontros de Dark Rose e finalmente consegui um endereço que encomendou dez pares de lentes e quinze perucas nos últimos três meses. Checando o código dos produtos nos sites de onde foram comprados, pude notar alguns dos acessórios que vi minha companheira stalker utilizando nestes últimos dias. Cheque mate.
Quando estava prestes a comemorar minha grande conquista como stalker, ouvi três batidas rápidas na porta. Esgotado mentalmente pelos horas de trabalho, levantei-me sem pensar e fui até a porta, abrindo-a lentamente. À minha frente, usando um vestido branco com uma estampa de margaridas amarelas até os joelhos e sapatilhas brancas, com um sorriso sereno em seu rosto, estava Leather Face:
— Bom dia, flor do dia! — disse a garota. com uma empolgação invejável.
Instintivamente fechei a porta na cara dela, ativando todas as trancas. Virei-me e apoiei minhas costas na porta enquanto tentava acalmar a arritmia de meu coração. Fui escorregando lentamente em silêncio, até me ver sentado de costas para a entrada, com mil e um pensamentos em caos guerreando em meu cérebro cansado.
Realmente não sei quanto tempo fiquei em transe ali, em posição fetal, até que fui despertado pela voz da stalker, abafada pela porta.
— Bob! Calma, meu jovem! Não vim aqui te estuprar não! Estou à trabalho. Não me deixe aqui sozinha, rapaz!
Enfim voltei à minha sanidade insana e levantei-me em um pulo. Travei rapidamente uma épica batalha com minhas paranoias, digna de trilha sonora e um monumento erguido à minha homenagem para finalmente abrir aquela maldita porta. Petúnia parecia nervosa e mordia seu polegar esquerdo com força, a ponto de uma pequena gota de sangue escorrer lentamente por sua mão. Essa visão quase me fez trancar a porta de novo, mas respirei profundamente e consegui controlar meus impulsos paranóicos, dando passagem para a garota entrar em meu apartamento.
Leather adentrou o local como uma verdadeira stalker: observando todos os cantos visíveis do local sem a menor vergonha na cara, enquanto andava lentamente até minha cama. Ela largou seu corpo, deitando na cama de costas e abrindo os braços, encarando o teto por alguns segundos. Fechei a porta e a tranquei por impulso, chamando a atenção da louca, que sentou-se rapidamente, novamente com seu sorriso sereno no rosto.
— Por que as trancas? Pretende fazer algo maldoso comigo? — disse a garota, com um olhar malicioso.
— Poderia, por favor, não alimentar minhas paranoias?
— Desculpe, é a força do hábito. Se for te deixar mais tranquilo, pode me algemar na cama.
— Não, obrigado. Ah, e eu gostaria que não trouxesse mais coisas estranhas para meu apartamento.
— Foi mal. Pra mim é normal. — disse a garota depois de dar uma risadinha.
— Vou bater a real: você me assusta. Então vamos direto ao assunto?
— Assusto? Muita gente diz isso, mas eu nunca entendo o porquê.
— Imaginei…
— Enfim, hoje eu não vim aqui para brincar com você… — disse a garota me olhando de cima a baixo. — Tive uns progressos interessantes com o interrogatório e queria dividir as informações contigo.
Um calafrio percorreu minha espinha e eu decidi que arranjaria algo melhor do que uma faca sem fio para me defender futuramente.
— E quais seriam essas informações?
— Consegui uma descrição do suposto Juan e um encontro com ele. Gulhé irá tratar de negócios esta noite no La Plata com nosso querido fantasma e Sherlock estará lá para garantir que ele não passe a noite sozinho.
— Sherlock?
— Sim, ele é bom em disfarces e vai se passar por um cara aleatório que trabalha para Gulhé. Nós dois vamos até o restaurante ficar de olho nas coisas e Show Man estará no outro restaurante para evitar suspeitas.
— Entendo e não entendo. Por que eu?
— Preciso de um acompanhante stalker para prestar a atenção em cada mísero detalhe daquele encontro. Então coloque sua melhor roupa. Vamos comer bem hoje. Se você for bonzinho, eu até deixo você dormir lá em casa. Se for malvado também, não ligo.
— Você é bem atirada, hein.
— Gosto de dizer que eu sou direta. Tenho que aproveitar enquanto você não pode fugir de mim.
— Olha, você não está ajudando minhas paranoias. Aliás… Todos vocês sabem onde eu moro?
— Só eu e a Dark Rose. Eu faço questão de saber onde todos moram para poder fazer visitinhas assim.
— Entendo… Tudo bem, tudo bem. Vocês, malditos, sabem o meu ponto fraco. Não tem como eu deixar de ir nesse restaurante agora que sei o que vai rolar lá. Então pelo bem da minha curiosidade, acompanharei você essa noite.
— Acho que foi a coisa mais romântica que já me disseram.
— Nossa, que triste.
— A vida tem dessas. Agora vai, se troca porque eu quero chegar lá logo.
— Tudo bem, tudo bem.
Fui até meu armário e comecei a arremessar minhas roupas para fora, até encontrar uma camisa polo vinho de marca que guardei para ocasiões onde eu precisasse parecer chique. Cacei um par de sapatos sociais de couro preto, uma calça social preta de alta costura e me virei, tirando minha camiseta. Parei na metade do caminho quando notei que Petúnia ainda estava na minha cama, deitada de bruços enquanto apoiava seu rosto em suas duas mãos, cujos cotovelos faziam uma leve depressão no colchão. Suas pernas balançavam alegremente, seu rosto continuava com seu sorriso suave e seus olhos estavam vidrados em mim, sem piscar. Esperei por cinco minutos, na esperança de que ela iria ter um pouco de bom senso e sair dali, mas foi um pensamento idiota de minha parte.
— Está esperando o quê, jovem? — perguntou a garota. — Não temos a noite toda.
— Vem cá… Você poderia me dar licença?
— Anda logo, rapaz! Eu não mordo dessa distância.
Pensei em inúmeras coisas para dizer àquela mulher louca, mas cheguei à triste conclusão de que nada seria o suficiente para tirá-la dali. A mente dela era zoada demais para ser convencida com simples palavras. Chegou a passar pela minha cabeça a opção de arremessá-la para fora do meu apartamento à força, mas me faltavam músculos e disposição para isso. Num ato de desespero por minha total falta de opções, resolvi calar minhas paranoias na marra e tacar o famigerado “foda-se”, me trocando ali mesmo.
No fim, deu tudo certo e eu não fui violado. A garota só permaneceu ali, sendo estranha. Dez minutos depois, eu estava pronto para sair. Peguei o frasco vermelho de vidro do meu perfume mais caro e usei com gosto em meu corpo, já que eu nem arriscaria tomar um banho e saímos do apartamento. Havia um taxi cinza escuro e muito bem cuidado nos esperando na rua, em frente ao meu prédio. Achei suspeito, mas estava curioso e cansado demais para questionar qualquer coisa, então simplesmente acompanhei a garota no banco de trás. Encarei o motorista pelo retrovisor, um homem na casa dos quarenta anos, com barba mal feita, cabelos negros penteados para a direita com gel ou algum outro tipo de fixador com olhos azuis e cansados. Ele vestia uma camisa social branca de mangas curtas e sem marca aparente, em conjunto com uma calça jeans de um azul bem escuro, aparentemente não muito usada. Leather informou o endereço ao homem, que rapidamente deu a partida e começou seu trajeto até o restaurante. Eu estava sentado à janela da direita do carro e aproveitei a oportunidade para observar o movimento da cidade enquanto esperava. Petúnia se aproximou de mim e agarrou meu braço esquerdo, repousando sua cabeça sobre meu ombro. Tratei de fingir um sorriso sutil e só aceitei, afinal, deveríamos parecer um casal.
Chegando ao restaurante, a garota pediu para que o motorista parasse um quarteirão antes, com a desculpa de que iríamos encontrar uns amigos ou coisa do tipo. Ele não questionou e parou perto da calçada. Paguei o homem a quantia de vinte créditos e seguimos nosso caminho até o restaurante, parando alguns metros antes de ser possível nos ver pelas grandes janelas do estabelecimento. Esvaziei minha mente e suspirei profundamente, na tentativa de preparar minha existência exausta para meu trabalho de atuação. Petúnia estalou os dedos de suas mãos, um por um e agarrou novamente meu braço esquerdo.
— Trate de parecer feliz, rapaz.
— Fique tranquila, consigo controlar minhas paranoias quando estou trabalhando.
— Eu realmente gostaria de testar isso… É uma pena que não temos tempo para isso hoje. Mas quem sabe outro dia…
— Você tem sérios problemas, garota.
— Sou uma stalker, o que você esperava?
— Você tem um ótimo ponto.
Voltamos a andar e Leather acabou chutando uma pequena lata de molho de tomate que estava no chão, fazendo-a quicar por alguns centímetros e espalhar alguns míseros trocados pela calçada. Olhei para a garota, mas sua expressão não mudou, o que indicava que ela não sentiu ou não se importou com a dor. Aceitei e decidi olhar para a minha esquerda, onde estava uma pequena garota sentada no chão, usando um vestido cinza escuro encardido e com pequenos rasgos em sua extensão. Ela tinha cabelos castanhos escuros longos e bagunçados. Seus olhos castanhos escuros se fixaram na latinha e em todas as moedas, preocupados e assustados. Havia marcas de queimaduras em praticamente todo o lado direito de seu rosto, assim como em algumas partes de seus braços. Seu corpo pequeno e magro se esticou e suas mãos trêmulas rapidamente começaram a juntar as moedas. Queria parecer um bom jovem levando uma bela jovem a um jantar romântico, então me abaixei para ajudá-la.
A garota se assustou quando me movimentei, mas mantive-me firme em minha função, pegando a lata e devolvendo-a com os créditos que consegui pegar. Mexi em meu bolso e peguei minha carteira, depositando mais dez créditos para a alegria da pobre alma. Seus olhos brilharam e um grande sorriso se abriu em seu rosto, em conjunto com algumas lágrimas de agradecimento.
— M-muito obrigada, moço! Que Deus te abençoe!
— Não precisa agradecer. — disse enquanto me levantava. — Se cuida.
Minha atuação de bom moço estava impecável como sempre, me dando um pouco de orgulho. Apesar de eu achar que não devia me orgulhar por enganar uma moradora de rua. Leather beijou meu rosto, como uma boa moça e seguimos sorridentes até o interior do restaurante, deixando uma garotinha feliz por ser enganada.
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