Who stalk the stalkers?
5 Petúnia
Hiperatividade sorriu, triunfante por mais uma vez ter me convencido de algo. A maldita sabia meus pontos fracos e o momento certo para usá-los. Bem, é o que stalkers fazem, afinal de contas. Assistir aquela demonstração de alegria me fez pensar que aquela garota tinha revirado meu computador, revelando detalhes importantes de minha vida e eu pouco sabia dela. Era uma maluca com personalidade confusa, uma quantidade invejável de energia, gostos exóticos para roupas, uma paixão estranha por perucas e lentes de contato coloridas e habilidades de uma ladra profissional. Nunca imaginei que encontraria algo tão confuso pessoalmente.
Aceitando mais uma vez minha derrota, engoli meu orgulho quase inexistente e pedi detalhes sobre as progressos de nosso grupo a respeito de Juan. Hiperatividade não tinha muito para me contar. Segundo ela, a investigação tinha começado recentemente e os dados ainda não estavam a disposição de todos. Sherlock sabia dos detalhes descritos por quem requeriu a informação, mas quem tomou a frente disso foi nossa querida companheira assustadora. Essa situação inconveniente me deixou três opções: desistir do suposto traficante e me dedicar a outro serviço, aguardar a boa vontade de nossa companheira para nos informar sobre suas descobertas ou perguntar diretamente a ela. A primeira opção estava fora de questão, pois minha curiosidade já havia sido provocada e não descansaria até devorar informações e se declarar satisfeita. A segunda opção ainda caia no mesmo conceito, restando apenas a terceira, para minha infelicidade.
Parando para pensar, Leather não fez nada diretamente para minha pessoa que pudesse despertar o medo em minha alma. Cheguei à conclusão de que era apenas um alerta de minhas paranóias pelo conjunto de características que em foram apresentadas daquela pessoa desconhecida. Decidi, então, enganar meus receios para que eles pensassem que eu queria conhecer melhor a garota de pijamas, a fim de confirmar se ela era digna de minhas paranóias. Assim, já estava pronto para encarar a garota de perto.
Convenci Hiperatividade a me acompanhar, dizendo que não estava familiarizado a trabalhar em equipe. De certa forma, isso não era mentira. Sempre tive um ou outro contato que me ajudavam vez ou outra, mas eram apenas pessoas que estavam muito bem informadas sobre um assunto, local, ou grupo social específico. The Eye contava com profissionais que se destacaram na arte de obter informações, então realmente seria uma novidade para mim. Com apenas um simples telefonema, marcamos nosso encontro para as três da tarde do dia seguinte. Dark Rose se despediu e saiu do meu apartamento, que foi devidamente lacrado logo em seguida. Pensei seriamente se valeria a pena alterar algo nas trancas da janela do banheiro, mas cheguei à conclusão de que apenas aquela louca conseguiria entrar ali e apenas passei o restante da noite revirando a internet atrás em busca de todas as informações relacionadas a Juan presentes na rede.
Acabei indo dormir à cinco e vinte da manhã, sem muita coisa a acrescentar à investigação. Havia inúmeros rumores espalhados pela internet sobre o homem, mas 87,6% deles eram baseados em porra nenhuma, 9,8% eram apenas suposições e teorias com base nas pouquíssimas informações divulgadas pela mídia e os 2,6% restantes eram as notícias que saíram em jornais e afins. A internet falhou comigo e eu fui dormir levemente irritado. Acordei às dez e trinta e cinco da manhã e rapidamente me levantei, arrumando minha cama e caminhando involuntariamente até a cozinha para preparar meu sagrado café. Decidi comer omeletes acompanhadas da minha fiel caneca de café e em mais ou menos quarenta minutos já estava pronto para mais um dia. O clima estava frio e nublado, se encaixando na minha concepção de “dia lindo”. Vesti minhas jeans pretas, uma camiseta azul clara sem estampa, meus tênis brancos e um casaco de moletom azul escuro, também sem estampa. Refleti seriamente em uma assembléia com minhas paranoias para me convencer novamente a encarar aquela figura misteriosa, que me custou quinze minutos para chegar a lugar nenhum. Como já estava tudo marcado, forcei-me a sair de casa e optei por não levar minha mochila.
Fui até a mesma praça do dia anterior e sentei-me no mesmo banco. Marquei de me encontrar com Hiperatividade ali para seguirmos juntos até o local de encontro com Leather. Acabei não me atentando ao horário e cheguei cedo, passando uma hora apenas observando o movimento das pessoas. A praça não era nada demais, apenas uma grande área gramada com algumas árvores dispostas de maneira aleatória e se concentrando em grupos vez ou outra, com alguns caminhos feitos de paralelepípedos, demarcando onde as pessoas naturalmente transitariam. Não era proibido caminhar pela grama, onde algumas famílias e jovens costumam se reunir para piqueniques e afins. Como estava frio, havia somente pessoas praticando atividades físicas e eu. Após minha espera, pude avistar Hiperatividade, com um sobretudo roxo escuro por cima de uma camiseta preta e jeans azul escuro rasgados. A peruca da vez era lilás e ia até seu pescoço, complementada por lentes de contato verdes escuras. Para completar o visual, ela usava duas botas negras de cano alto e caminhava alegremente, fazendo questão de balançar o tecido de seu sobretudo enquanto se movia. A garota parou à minha frente sorrindo como sempre e me deu dois tapinhas no ombro esquerdo com sua mão direita.
— Olá, senhor S.G.! Como vai essa sua cara de desânimo?
— Desanimadora como sempre. E você está hiperativa como de costume, pelo que parece.
— Tenho que fazer jus ao apelido que me deu, oras. Enfim, tem algumas coisinhas que eu queria falar com você, mas só vou dizer quando chegarmos ao condomínio da Leather.
— Pensei que só nos encontrássemos em locais públicos.
— Ela é um caso especial, então está tudo bem.
— Acho suspeito, mas vou deixar passar dessa vez. Aliás, por que só me contar quando chegar lá?
— É uma forma de garantir que você não vai fugir, tolinho. Sua curiosidade não vai te deixar ceder ao medo da Leather.
— Você é diabólica. E eu não me lembro de ter comentado sobre ela com você.
— Nem precisa, todo mundo tem um pé atrás com aquela garota. É o charme dela, digamos.
Trocamos mais algumas palavras irrelevantes e partimos. Pegamos um ônibus até uma parte mais antiga da cidade, afastada do centro. Havia apenas algumas casas habitadas por ali porque o comércio migrou quase que totalmente para o centro. Descemos no ponto final e andamos algumas quadras, cruzando com pouquíssimas pessoas, até chegarmos à entrada do Condomínio das Rosas, uma construção murada que ocupava um quarteirão inteiro. Os muros eram altos, todos chapiscados e de um rosa bem claro, quase branco. Havia uma pequena cabine vazia e três portões: dois grandes para entrada e saída de veículos e um pequeno logo ao lado da cabine, para uso de pessoas, todos fechados. Hiperatividade fez um rápido telefonema e em questão de alguns minutos pudemos ouvir o som de uma tranca se abrindo. A garota tomou a frente e abriu o portão menor, o empurrando. Lá dentro, havia um enorme estacionamento vazio, com canteiros de petúnias ao redor da rua única que dava acesso ao estacionamento e de volta à rua. A área era grande e havia várias árvores próximas ao muro, com apenas um prédio de cinco andares ao fundo, de frente para o estacionamento. O prédio também era rosa, num tom ainda mais desbotado nos andares superiores. Tudo parecia muito bem preservado, principalmente os canteiros de petúnias azuis. Caminhamos pelo local amplo e silencioso, parando em frente à porta de vidro dupla que dava acesso ao interior do prédio. Hiperatividade se virou para mim e riu meio sem graça, alertando minhas paranóias que já estavam bastante agitadas pelo silêncio bizarro daquele local.
— Então, S.G. Tem umas coisinhas que eu queria te falar antes de entrarmos.
— Sou todo ouvidos.
— Sei que deve estar estranhando o silêncio e a ausência de pessoas aqui. É que o condomínio é literalmente dela. Leather comprou tudo para que não fosse incomodada por ninguém.
— Como assim incomodada?
— Heh, é aí que fica meio bizarro. Ela curte umas paradas estranhas e tem métodos meio complicados de obter informações.
— Por favor, Rose, seja direta.
— Poxa, cara. To aqui sendo cuidadosa para não provocar suas paranóias. Tem certeza do que está me pedindo.
— Sei que vou me arrepender, mas por favor, prossiga.
— Tudo bem então. Ela é bem louca das ideias e curte uns sadomasoquismos. Mas não é tanto por isso que ela comprou a porra toda. Ela gosta muito de interrogar pessoas, sabe? Então ela basicamente não quer ninguém ligando pra polícia ou coisa do tipo por ouvir gritos de dor e desespero.
— É… Já está bom de detalhes para mim
— Falei mais da primeira parte para você não se assustar se vir um chicote ou algo do tipo no quarto dela.
— Eu quero distância do quarto dessa garota.
— É realmente uma pena, porque é lá que vamos conversar.
Minhas paranoias entraram em uma grande discussão, onde era impossível entender o que diziam. Eu particularmente não me incomodava tanto com os hábitos, mas sim com a pessoa que os possuía. Essas novas informações se mesclaram negativamente à imagem assustadora que eu tinha daquela pessoa. Tentei acalmar a assembléia do caos em silêncio, me esforçando para não transparecer meus conflitos para a Hiperatividade. Falhei miseravelmente e a garota pegou no meu braço e me guiou até o elevador no interior do prédio. Era impossível me concentrar nos meus arredores e acalmar uma legião de paranóias putas da vida, então quando me dei conta já estava à frente do quarto 404.
Dark Rose apenas abriu a porta e nós dois entramos no local. A porta dava para a sala, onde havia um sofá de couro azul claro e uma estante rosa claro com uma TV de 50 polegadas. À direita ficava a cozinha, onde era possível ver o canto de uma mesa de madeira e uma geladeira vermelha de porta dupla. Esticando um pouco meu pescoço, pude ver a pia de mármore e os armários de madeira, todos do mesmo tom da estante. À direita ficava um corredor com um grande quadro na parede, contendo apenas vários respingos disformes de tinta vermelha. Ao final dele havia uma porta fechada e, pouco antes, havia outra porta de madeira branca entreaberta com uma plaquinha de madeira cor de rosa em formato de coração com a palavra “Petúnia” escrita em vermelho. Andamos até esta última porta e Hiperatividade a abriu, revelando um grande quarto com paredes brancas. Havia um grande armário com seis portas do mesmo tom da estante da sala, uma penteadeira branca encostada na parede à direita, próxima à porta, uma cama Queen Size com cobertas brancas encostada na parede da esquerda, em baixo de uma janela aberta. Ao lado esquerdo da porta havia uma estante com vários livros, algumas algemas e um computador. À frente do computador estava Leather Face, sentada em uma cadeira preta com rodinhas, que se virou para nós assim que entramos. Ela vestia a mesma roupa que usou na lanchonete, mas sem pantufas, apenas com meias brancas. A garota sorriu sutilmente ao nos ver e apontou para sua cama, onde nos sentamos.
— Bem-vindos! — disse Leather. — Se quiserem podem tirar os sapatos, casacos, roupas, o que os fizer se sentirem à vontade.
Tirei meus tênis e os coloquei ao lado da cama, mas nada me deixaria à vontade naquele local. Rose jogou seu sobretudo na cama e tirou suas botas, deitando de bruços na cama, apoiando a parte superior do seu corpo em seus cotovelos. Leather retirou seu casaco de moletom e jogou no canto esquerdo do quarto, revelando uma camiseta branca larga e sem mangas. A garota apoiou seus pés sobre a cama e ficou nos encarando em silêncio. Era nítido que apenas eu estava desconfortável ali.
— Enfim, fiquei surpresa quando Rose disse que você queria falar comigo, Skull.
— Bem, parece que você é a única pessoa com informações relevantes sobre Juan de La Montana. Até mesmo a internet se mostrou inútil em relação a isso.
— É que o Juan está num nível mais abaixo, rapaz. O submundo do crime se esforça para manter sigilo sobre sua existência.
— Então Juan realmente existe. O que você conseguiu, Leather?
— Aqui você pode me chamar de Petúnia, Bob.
— O que houve com a segunda regra?
— Estamos no meu quarto esses não são nossos nomes verdadeiros, não é?
— Você tem um ponto, aliás, dois pontos.
— Eu gosto de petúnias, como pode ver pelo jardim lá fora.
— Você mesma cuida da manutenção desse lugar?
— Eu até poderia, mas é muito trabalhoso. Pago um pessoal para dar uma geral aqui periodicamente e jardineiros semanalmente. São pessoas selecionadas a dedo porque não fazem perguntas inconvenientes.
— A Petúnia é sempre rígida quando se trata de contratação de terceiros. — disse Hiperatividade.
— Gosto de ter certeza de que o trabalho será bem executado.
A conversa foi interrompida de súbito por um grito de agonia vindo de algum local próximo. Ele se repetiu mais duas vezes e parecia ser uma voz masculina abafada pela distância, cuja origem era impossível de se dizer ao certo. Após alguns segundos, o grito se repetiu mais três vezes. Petúnia olhou o relógio em seu pulso e se virou para o computador, onde abriu alguns programas de digitou algumas coisas. Procurei conter minha curiosidade o máximo possível para não verificar o que acontecia naquele monitor e fui vitorioso. Os gritos cessaram e a garota voltou a sua posição de antes, com os pés em cima da cama.
— Me desculpem, é que o efeito dos sedativos passou. Não se fazem mais sedativos como antigamente, essas coisas duram cada vez menos.
— Isso deve ser problemático para você, menina. — disse Rose.
— É mais problemático para as pessoas em quem eu uso. Aliás, caso esteja se perguntando, Bob, o grito foi da minha fonte de informações atual. Julles de Gulhé, carinha que coleta órgãos em acidentes de carro e vende pra quem pagar melhor. Pelo que ele me disse, Juan obviamente não tem esse nome e nem se sabe se é homem ou mulher, mas alguém usa esse pseudônimo no mercado negro para vender todo o tipo de coisa.
— E sabe se o que ele diz é verdade? — perguntei.
— Sei sim. Uma hora ou outra as pessoas sempre acabam contando a verdade pra mim. Só é preciso saber o limite delas, onde elas quebram.
— Entendo… Prefiro que me poupe de mais detalhes. Ele tinha mais alguma informação útil?
— Ele relutou bastante e se fez de forte no começo, mas bastaram três dias para ele começar a contar tudo o que sabia. Deu até pra lucrar um pouco com essas informações, mas o mais importante foi descobrir que Juan de La Montana é extremamente metódico com suas negociações. Ele sempre se encontra com seus clientes em dois restaurantes específicos da parte leste da cidade: Stephans’s e La Plata.
— Conseguiu alguma descrição física ou pelo menos o nome falso do cara ou da mina? — perguntou Hiperatividade.
— Infelizmente não. Parece que estou esgotando as informações dele. Vocês podem tentar checar esses restaurantes com o Show Man. Aviso vocês caso ele deixe mais alguma coisa escapar.
— Belezinha. — disse Rose. — Se a gente encontrar mais um possível contato, te avisamos.
— Espero que encontrem. O Julles já está perdendo a graça.
Calcei meus tênis, nos despedimos de Petúnia e saímos daquele lugar. Só quando voltamos ao elevador, tive a certeza de que estávamos no quarto andar. Caminhamos para fora do condomínio e pudemos ouvir um último grito antes de sair de lá. Fomos direto ao ponto de ônibus, nos dirigindo até o centro da cidade. Hiperatividade disse que seria mais fácil encontrar o Show Man durante a noite, então apenas matamos o tempo seguindo pessoas aleatórias dentro do shopping. Jantamos em uma lanchonete de fast food e a garota me mostrou sua habilidade de burlar os sistemas de segurança das lojas, furtando e devolvendo roupas sem que ninguém notasse.
Por volta de nove e meia da noite, saímos do shopping e fomos até a boate Inferninho, carinhosamente apelidada por mim. Era simplesmente a casa noturna mais frequentada da cidade e havia uma grande fila para entrar lá, como de costume. Uma hora e dezessete minutos depois, finalmente entramos no local, que não passava de um imenso salão vazio com um palco onde os DJs ficavam, um quarto mais elevado e isolado que chamam de área VIP e uma grande mesa de bar onde eram servidas as bebidas. Adicione várias caixas de som dispostas por todo o local, luzes, máquinas de fumaça e muita gente dançando e teremos o Inferninho. Fui guiado por Rose até a sala VIP, onde entramos sem ninguém notar, por aproveitar a quantidade de gente ali. Fiquei com pena do segurança dali e de todos os lugares frequentados pela Senhorita Hiperatividade. Havia apenas um grupo de dez pessoas conversando lá dentro, com algumas bebidas em mãos, sendo sete mulheres e três homens. Nos aproximamos e um dos homens notou nossa presença, abraçando Hiperatividade. Ele era um pouco mais alto do que eu, provavelmente com um metro e setenta e alguma coisa, seus cabelos eram raspados nas laterais e grandes no topo, cuidadosamente penteados para a direita e pareciam muito bem cuidados. Seu porte era atlético, sua pele era negra, assim como seus olhos e ele estava vestido com uma camiseta de mangas curtas, calças jeans e um tênis preto, todos de marcas famosas. Assim que terminou de abraçar a garota louca, ele estendeu sua mão esquerda para mim e eu o cumprimentei.
— Você deve ser o novato. — disse o homem.
— Sim, e você deve ser o Show Man, certo?
— Aqui você pode me chamar de Lance, cara. Estou no meu habitat natural. Vieram curtir a noite ou estão à trabalho?
— Infelizmente hoje estamos trabalhando, cara. — disse Hiperatividade. — Acho que vai ter que se despedir de seus amigos.
— De boas, acabei de conhecer essa galera.
Lance foi até o grupo de pessoas e se despediu de todos, causando uma aparente tristeza no grupo. Saímos da boate para minha alegria e descobrimos durante o trajeto que Lance nem sequer tinha dinheiro com ele. Segundo Rose, ele nunca precisou pagar por nada na boate, porque sempre consegue fazer amizade com um grupo de pessoas que acaba pagando para ele. Provavelmente, esse tipo de coisa deve ter lhe garantido o apelido de Show Man.
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