Who are you?
47 O Julgamento. (Segunda Parte)
Notas iniciais
— Meritíssima, me desculpa. Mas nós só podemos começar a ouvir os réus, só depois de escutado todas as testemunhas.
— A defesa tem razão, quero que chame o senhor Tito Vergara.
O mecânico se apresentou, estava tremendo dos pés a cabeça, era nítido o seu nervosismo.
— Senhor Tito, não vou me alongar muito. Só quero que me diga como foi a situação em que a senhorita Lopez lhe ofereceu dinheiro.
— Ah, o “seu” Roberto sempre ia lá na oficina, já era conhecido de todo mundo. Naquela manhã ele apareceu pedindo para que o carro fosse revisado, porque ele precisava fazer uma viagem. Depois, de tarde, apareceu a moça latina, ela disse que ser filha do Lopez e que queria que eu cortasse os freios do carro, que me pagava com dinheiro vivo pra eu sumir, metade naquele momento mesmo e depois metade quando o serviço tivesse feito.
— E por mulher latina, você diz aquela latina? – Apontou em direção a Santana.
— Sim, ela mesma. – Confirmou e o bochicho foi geral.
— Ordem! Ordem!
— Sem mais perguntas, meritíssima.
— Senhor Vergara...
— Tito. – Disse de uma forma malandra.
— Senhor Tito, no seu depoimento, você declarou que a suposta mulher “latina” com quem conversou, era morena, alta, com cabelos médios, olhos negros, bem negros, que se destacavam bem pelas olheiras profundas. Certo?
— Não tenho certeza.
— Não tem certeza do seu próprio depoimento? O senhor sabe que como testemunha e futuramente como réu, o senhor não pode mentir, certo?
— Quero dizer, se está aí. Foi o que eu disse.
— Santana estava sendo bem cuidada com a senhorita Pierce, o que resultou na recuperação crescente de seu estado clínico. E mesmo antes, na ocasião dos fatos, ela demonstrava grande saúde, inclusive do sono. Uma vez que fotos postadas por ela, na época, revelam sua jovialidade e grande bem estar. Os lindos cabelos longos, a pele bem cuidada. – Mostrou uma foto a todos. – E não estou aqui exultando a beleza da senhorita Lopez à toa, mas sim para demonstrar como pode ter havido um erro por parte do senhor Tito em julgar qual das gêmeas se apresentou a ele. Mas vamos seguir. O senhor disse que havia alguém a esperando no carro, mas que não conseguiu ver quem era. Foi essa pessoa que te entregou a segunda parte do dinheiro?
— Não, foi a própria senhorita Lo-Lopez. – Sua voz era um pouco falha.
— E quando exatamente foi isso?
— Dois dias depois do enterro do senhor e senhora Lopez.
— Interessante! O senhor confirma que foi Santana?
— Sim!
— Senhores do juri, conforme já foi apresentado aos senhores ao longo desse julgamento. No dia do enterro dos pais, Santana foi sequestrada, onde foi mantida em cárcere até o dia de seu acidente. Não tinha meios dela sair de Rochester, onde estava sendo vigiada, entregar o dinheiro pro senhor Tito e depois retornar pra onde estava e mais tarde tentar fugir de novo. Faz algum sentido pra vocês? Por que pra mim não faz. Alguém aqui está mentindo, e ao que parece, mediante as provas apresentadas, não é Santana Lopez. Mas vamos a pergunta mais importante. Se o senhor já tinha fugido, por que resolveu se entregar a polícia? E lembre-se sobre mentir.
— Eu fui procurado, uma mulher asiática foi até mim e me deu mais dinheiro para me apresentar e contar tudo, tá legal? Ela disse que me arranjaria um advogado, que estaria tudo certo.
O último depoimento havia sido demasiado longo, por isso, quando já passada das oito da noite, a juíza achou por bem suspender o julgamento até o dia seguinte. Por isso, todos foram pra casa de Santana, estavam ansiosos demais para próxima manhã.
— Bom, ao que parece, as coisas estão positivas pra você, latina.
— E cada vez mais feias pra minha irmã. Amanhã ela vai depor. Ela também é ré. Vai ser depois de mim.
— E a Dani?
— Tiveram que indiciá-la, ela já sabe que não é só mais uma testemunha. Não vai ser mais surpresa quando ela for depor. O julgamento dela, se assim acharem que ela é culpada, será no próximo mês, semana que vem é o do meu tio, por sequestro. Mas o dele não tem juri.
— Acha que ela vai querer dizer a verdade? – Rachel perguntou preocupada.
— Eu acho que ela não tem saída. Temos provas! – Afirmou Brittany.
— E a Samara? – Perguntou Kurt.
— O advogado da Santana vai pedir medida de segurança pra ela. Acho que não tem pena maior pra ela. – Quinn concluiu. – Ela vai enlouquecer em saber que não sair tão cedo de um hospital.
— Eu não sei! Eu estou com a sensação de que isso não termina amanhã.
— Você está preocupada, cunhada. É natural! E acho que isso é nossa deixa pra que todos nós possamos ir descansar.
— Kitty tem razão. Amanhã ainda será um dia longo. Você é mais quem precisa descansar, amor.
Como orientado, todos foram se recolher. Entretanto nenhum deles conseguiu dormir bem de fato. O dia começaria com o depoimento de Mercedes, última testemunha, que contou toda a história que já tinha contado a Santana e Brittany. Em seguida, foi à vez do tio da latina.
— Eu confesso! Eu confesso! – O homem havia se demonstrado um verdadeiro chorão, o que era motivo de piada para todos. – Minha empresa não estava bem, ela faliu! Quando eu soube que Glória tinha morrido, eu vi a minha chance. Mas tinha a filha deles, Santana. Ela já estava sendo preparada pra assumir tudo. Mas o que essa criança sabia de negócios? Então eu contratei dois homens para sequestrá-la, não era pra fazerem mal algum nela. Era apenas tempo o suficiente pra eu assumir a presidência e o conselho perceber que eu era o que eles precisavam. Além do mais, eu pensei que ela fosse a verdadeira culpada. Porém as coisas saíram do controle! Ela era um fera e bem... Os caras não estavam se segurando, eles tentaram abusar dela. Mas eu não ordenei nada disso. Repito que eu não queria fazer mal a ela. Só que Santana fugiu e eles precisaram agir... Isso foi tudo o que eu fiz. Eu não mandaria matar ninguém, nunca.
Assim que ele terminou seu depoimento, foi a vez de finalmente chamarem Santana.
Santana tomou seu lugar, de lá ela tinha a visão perfeita de todos os presentes, inclusive seus pares que decidiriam a sua sentença. Jurou diante de todos que diria a verdade e nada mais do que a verdade. Enquanto pedia internamente que sua memória não falhasse agora.
“Ok, Santana. Chegou o momento do mundo te ouvir. Vai ser fácil? Não. Você está preparada? Também não. Tem outra saída? De forma alguma. Então, apenas respira. Seja a mulher inteligente que você é e não diga besteiras, tá? Não é momento de ser impulsiva. E tente não mandar esse promotor a merda.” — Ela sorriu da forma mais gentil quando viu o promotor se aproximar. – “Pense em como unicórnios são lindos e preto é sua cor favorita, só não pense que esse cara é idiota que tem vontade de chutar a bunda. Ok, já chega! Concentre-se.”
— Senhorita Santana Lopez, a senhorita poderia contar aos senhores do juri como toda essa história começou?
— Eu não sei dizer ao certo qual é o começo, até porque pra mim começou a fazer sentindo muito depois. A única coisa que eu sei é que em uma determinada tarde eu fui atropelada e quando acordei, eu estava em uma maca de hospital com uma loira me fazendo perguntas confusas e uma enfermeira chata querendo me meter em roupas hospitalares horríveis. – Ouviu-se uma baixa risada. – Eu tinha perdido a memória, não sabia quem eu era, ou onde eu estava. Mas pela manhã uma das enfermeiras veio me dizer que acharam uma etiqueta com o nome “Santana Lopez” grudada nas minhas roupas e que seria assim que me chamariam. Brittany ficou responsável por mim, ela estava preocupada e realmente arrependida por ter me atropelado. Então, ela me levou pra casa dela e contratou um investigador para achar minha família. Foi ele quem descobriu que eu era realmente Santana Lopez.
— E quando soube sobre sua identidade, não pensou em voltar pra casa?
— Mas eu pensei! Só que ele foi investigar se minha família era realmente de Lima, meu lugar de nascença. Eu ainda estava debilitada e com pouquíssimas lembranças de quem eu era, nada fazia sentido. Ele foi procurar pela minha família e descobriu que ninguém morava mais lá. Minha avó estava em outra cidade, que minha família residia em Albany por causa da empresa e da fabrica. Foi nessa viagem que ele descobriu que meus pais tinham morrido e que por culpa do meu sumiço, que eu era uma das principais suspeitas.
— E você achou por bem continuar se escondendo?
— Não! De forma alguma! Eu quis entender, eu sabia que se eu aparecesse do nada, eu seria presa ou sei lá, já condenada de pronto sem ter qualquer chances de defesa. Eu precisava me sentir mais forte, ter mais pistas sobre tudo. Lógico que eu fiquei atordoada! Eu fui até o local onde me prenderam e lá eu lembrei da minha fuga, tinha homens me perseguindo, eles iam me matar. Fui eu quem insistiu com a Brittany para me apresentar a polícia, mas ela dizia para termos calma. Até que um dia eles chegaram até a casa dela. Eu me apresentei e falei tudo o que sabia. Eles me contaram que havia um tio postiço cuidando dos negócios da “família”, que estava sobre investigação. Lá, eles me apresentaram esse suposto vídeo em que eu entrego dinheiro para o mecânico sabotar o carro.
— Como você reagiu a isso? Se ver negociando a vida dos pais?
— Eu não negociei nada! Não induza o juri. Lógico que mediante aquelas provas, eu me senti assustada, eu não sabia que eu tinha uma irmã gêmea.
— Então insiste que sua irmã, que passou anos internada em uma clínica psiquiátrica, foi a responsável pelo assassinato dos seus pais?
— Quando eu cheguei a Albany e descobri sobre ela foi um choque! Eu me lembrei dela atentando contra a minha vida desde que éramos pequenas. E foi então que eu percebi que muitas coisas não se encaixavam. Pra começar, um tio que não estava próximo de nós há anos, que nem se quer eu conhecia, resolveu tomar conta da nossa fortuna, quando meus pais morrem e a empresa dele tinha acabado de decretar falência?
— Então você acredita que foi um crime premeditado entre sua irmã doente e seu tio que quis ajudar a família?
— Não! Eu creio que o plano de um, frustrou o do outro. E eu estava bem no meio.
— Pode explicar?
— Minha irmã queria vingança por tudo. Matou os meus pais. Meu tio viu a chance perfeita, mas ainda tinha que lidar com a sobrinha herdeira, então ele deu um jeito de sumir comigo. O que foi péssimo pra minha irmã, porque não tinha mais ninguém que pudesse aceitar ficar responsável por ela para que pudesse sair da clínica e continuar os seus planos.
— Vocês estão vendo, senhores do juri? Ontem o senhor Tito, como gosta de ser chamado, declarou que Santana Lopez foi até ele e lhe ofereceu dinheiro para sabotar o carro de Roberto e Glória Lopez, agora ela declara que foi culpa da irmã doente.
— Minha irmã não é demente, não tem qualquer retardo, ou algo do tipo. A doença dela não impede que ela desconheça o certo do errado. Ela sabe que o que fez é um crime grave, tanto que ela pode ser presa, ou receber uma medida de segurança. O que ela não sente é remorso.
— E de quem seria a ideia? De Samara?
— Não. Da minha ex-noiva, Daniele. Eu não quis mais me casar com ela, pra poder atender a vontade de meu pai. Ele pagou uma boa quantia pra ela poder sair da minha vida e ela aceitou. Foi esse dinheiro que ela deu para Tito sabotar o carro. E mais tarde, ela extorquiu Brittany para poder conseguir mais dinheiro e foi assim que ela voltou a pagá-lo pra se apresentar a polícia.
— E a senhorita não sabia de nada? Quero dizer, em nenhum momento suspeitou da sua noiva?
— Não! E é isso que me deixa pior, porque se eu a conhecesse um pouco melhor, meus pais estariam vivos agora. Ela diz que me ama, mas que amor é esse que machuca assim? – Ela olhou diretamente pra Dani, que hoje compartilhava o banco dos réus.
— Meritíssima, posso pedir um intervalo?
— Quinze minutos. – A juíza bateu seu martelo.
Santana foi ao encontro de Brittany que a abraçou.
— Vai dar tudo certo! Eu te prometo, você está indo bem.
— Eu não aguento mais olhar pra ela.
— Eu vou pegar uma água pra você, tá bem? Senta um pouco com eles ali.
Brittany foi até o corredor e de lá pode ver quando Dani entrou no banheiro com sua advogada. Ela não resistiu, teve que ir ao encontro dela. A advogada ocupava uma das cabines, Dani estava diante de uma das pias, pode ver pelo espelho quando Brittany entrou no banheiro.
— A loira usurpadora.
— A loira assassina. – Rebateu Brittany, enquanto assumia uma posição superior. – Acho que não fomos devidamente apresentadas até agora. Na noite em que apareceu em minha casa, demonstrou a sua cara mais falsa, que usou pra varrer a todos. Agora eu vejo quem você é.
— Prove!
— Estamos provando. Mas sabe o que é mais importante do que isso? É que no final, mesmo depois de todas essas maldades, Santana e eu nos casaremos. – Exibiu seu anel em seu dedo. – Porque nós nos amamos de verdade e eu farei de tudo pra te apagar da vida dela e fazê-la realmente feliz.
— Você nunca vai amá-la como eu a amo. Nunca fará o que eu fiz por ela.
— Nesse último ponto você tem razão. Mas eu serei a mulher que esteve ao lado dela pra tudo. E você, como alguém que quase arruinou a vida dela. Quem você acha que ela vai amar mais? Eu aposto na que salvá-la hoje.
— Senhora Pierce! – A advogada exclamou surpresa ao sair do banheiro. – Não acredito que essa seja uma conversa apropriada.
— Não se preocupe, eu já estou de saída.
Brittany retornou com a água de Santana.
— Acho que finalmente perdi meu medo da loira do banheiro.
— Como?
— Nada, vamos voltar pra lá.
Logo depois foi retomado o interrogatório.
— Senhorita Lopez, não vou mais encher a senhorita com perguntas que todos já estão cansados das respostas. Como seu advogado de defesa, eu apenas quero que me diga, como acha que seria sua vida hoje se seus pais estivessem vivos?
— Provavelmente eles estariam viajando pelo mundo, como mamãe sempre quis. Juntos teriam levado Samara, porque não desistiriam dela. Eu seria a presidente da empresa e estaria morando com Dani.
— Então, a morte dos seus pais em nada te trouxe benefícios?
— Eu teria que ser muito burra em acreditar que matá-los seria vantajoso. Ainda mais sendo a única herdeira com capacidade pra assumir tudo. Eu não tenho um motivo.
— Repito as palavras da minha cliente. Ela não tem um “motivo”. Todos aqui se anteciparam em julgá-la, muitos da empresa a chamaram de ambiciosa. Mesmo sem saber que ela já possuía tudo e não teria nenhuma vantagem a mais, pelo contrário. Minha cliente foi só mais uma vítima. Sofreu abusos, perdeu a memória e teve que retomar sua vida sendo perseguida por pessoas que diziam que ela era um monstro por matar os próprios pais. Quando na verdade, seu único “erro” foi aceitar a proposta do pai de ficar ao lado dele. É essa mulher que vocês chamam de monstro? É essa mulher que vocês querem condenar?
— O povo chama agora Samara Lopez.
— Antes que me perguntem qualquer coisa, sim, eu sou culpada. Eu estou cansada desse papinho todo e das pessoas virem aqui dizer o quanto a minha irmã é boa e eu sou má. Eu quase vomitei quando ela começou a dizer que amava nossos pais e ama aquela velha que está pouco se lixando pra ela. Eu aceitei o plano, entrei no carro com a noiva amorosa da minha irmã e me passei por Santana Lopez. Fui eu que entreguei o dinheiro ao mecânico, fiz com prazer. Apesar de querer ter pensando em plano tão brilhante, a ideia não foi minha. Mas eu aceitei, porque eu sabia que um dia minha irmã descobriria e iria preferir a morte do que saber que se deitou com a assassinas de seus papais queridos. Então acabem com esse teatro logo. Me levem de volta pra clínica, qualquer lugar é melhor do que esse drama familiar idiota. Eles morreram, fim de caso. Vida que segue.
— Eu odeio você! – Santana se levantou e ameaçou sair de seu lugar, mas foi segurada por seus advogados. – Eu te odeio! Você sim é um monstro! Você sim!
— Se controle, senhorita Lopez. Se controle!
— Ela matou os meus pais! – O choro dela era dolorido e profundo, todos podiam sentir a carga de dor que a voz dela tinha, o que machucava principalmente Brittany, que queria ajudá-la, mas não podia. – Ela tirou eles de mim.
— Vocês também tiraram tudo de mim, as pessoas que mais deviam me amar. Como se sente, irmã? Sabendo que as pessoas que deveriam te amar roubaram parte de sua vida também? É sufocante não é?
— A julgamento está suspenso por uma hora!
O anuncio da juíza veio tarde demais. Santana sentia-se atordoada, ver o rosto da irmã, em seguida as expressões de desespero de Dani. A falação interminável dentro da corte, suas lembranças fazendo um redemoinho dentro de sua mente. Tudo ficou preto e a última coisa que ela pode ouvir foi a voz assustada de Brittany gritando o seu nome. Quando ela recobrou a consciência, estava deitada em uma maca de enfermaria.
— Senhorita Lopez, grandes emoções, não? – Um enfermeiro simpático auferia sua pressão.
— Onde eu estou? O julgamento... – Tentou se levantar, mas sua cabeça pesada a impediu.
— Você sofreu um desmaio. Vai ficar em observação, o julgamento foi suspenso. Eles estão decidindo o que farão.
— Isso precisa acabar, eu não vou aguentar um terceiro dia.
— Mas...
— Me leva, nem que seja de cadeira de rodas, isso precisa acabar. Meus pais precisam ter sossego.
O enfermeiro soube que se não a ajudasse, ela iria por conta própria. Desta forma, ajudou ela se sentar na cadeira e assim que saíram do consultório, deram de cara com um guarda e com Quinn, que tinha ficado para saber notícias de Santana, enquanto os demais voltaram para o julgamento.
— Quinn, eu preciso voltar.
— Você tem certeza?
— Agora eu sei de tudo, eu lembrei de tudo também. Eu só preciso por um fim nisso.
— Então vamos lá. – Quinn deu a mão para Santana e a segurou com força, enquanto o enfermeiro ia empurrando a cadeira.
Quando elas estraram de volta a sala de julgamento todos se surpreenderam.
— Senhorita Lopez, sente-se em condições de continuar com o julgamento hoje?
— Sim, meritíssima. Já até me deram um calmante, não vou voar no pescoço de ninguém.
— Todos em seus lugares!
Dani foi levada para interrogatório, até mesmo o promotor que se esforçou em acusar Santana, agora tomou outro rumo.
— Declare a essa corte tudo o que sabe, senhorita Daniele.
— Eu conheci Santana anos atrás, foi amor a primeira vista. Ela foi minha naquela mesma noite e juntas construímos um relacionamento. Nós tínhamos nosso apartamento, nosso trabalho, nossos planos e sonhos. Eu queria me casar com ela, ter uma família, tudo o que sempre quis. Eu a pedi em casamento e foi mágico. Aí, quando chegamos aqui, o pai dela achou que poderia me comprar? Eu a amava, mais do que eles. Uma avó que a abandonou só porque a sexualidade não a agrada, isso é amor? Um pai que tenta comprar a própria nora pra não se casar com a filha, isso é amor? Ele se aproveitou por saber que meu pai estava doente e precisava de um tratamento caro pra me comprar. E eu sou a má? Será que sou só eu? Eu me doaria por ela, eu daria todo o amor. Eu aceitei o dinheiro, mas não por falta de amor, eu jamais abandonaria Santana. Eles planejaram a viagem, eu achei um cartão da oficina que eles levariam o carro e eu tive a ideia. Era dia de visita da Samara, Glória estava ocupada arrumando as malas pra viagem, Santana e Roberto estavam acertando os últimos detalhes da posse dela frente os negócios de família. Então, sobrou pra eu ir buscar a gêmea louca. Não fora a primeira vez, Samara já era acostumada a mim. E naqueles poucos momentos que eu tinha passado com ela, durante o trajeto de buscá-la ou levá-la de volta pra clínica, eu pude perceber que nada tinha mudado na cabeça dela. Só a família não queria ver isso, ou via e ignorava... eu apenas me aproveitei. Naquela mesma tarde eu propus o plano a ela e ela aceitou prontamente. Eu a levei até a oficina e ela entregou o dinheiro que o pai havia me dado, ao mecânico. Depois disso fomos pra casa, era só esperar. Agimos normal, celebramos a união da família. Ela pegou as malas da Santana e as arrumou como se fosse viajar com eles, colocou etiquetas com seu próprio nome e outras com o nome de Santana nas malas, para fazer cena, dizendo que não queria que houvesse erros e enganos, porque ela estava feliz em viajar com os pais. Mas ela sabia que não ia, que ela ficaria com Santana. No dia seguinte, houve o acidente. Santana já tinha terminado comigo, mas íamos voltar juntas pro Canadá, porque ela tinha que resolver uns últimos detalhes da mudança definitiva pra Albany. E eu tinha a chance de reconquistá-la. Mas ela não apareceu no aeroporto. Ela simplesmente desapareceu. Quando saiu a notícia sobre seu sumiço, eu me assustei. Eu pensei que Samara tivesse se unido a alguém, então eu voltei pro Canadá sozinha. Mas fiz o possível pra encontrá-la. Quando eu recebi a ligação de que haviam feito um boletim de encontro de pessoas, que poderia ser Santana, eu voltei pra cá. Me informei de quem estava tomando conta dela e fui atrás. Empresa Pierce Evans. Fui recepcionada pela secretária do dono, Tina. Eu disse a ela que era a noiva de Santana e ela riu na minha cara, contou que Santana estava tendo um caso com a dona da empresa, que ela mesma havia presenciado um beijo entre as duas. Eu fiquei possessa. A minha vontade era quebrar tudo, mas eu precisava ter certeza. Fui aconselhada por Tina a seguir as duas, ou achar quem o fizesse. E assim foi, eu me alimentei de cada informação que surgia das duas, até receber as fotos em minhas mãos. Quando eu tive certeza do romance, fui buscar o melhor amigo de Santana para que pudesse me apoiar, ajudar na minha imagem de noiva dedicada. Sem saber de nada, ele topou. Foi então que apareci na vida dela novamente. Agora disposta a tirar minha inimiga de campo. Eu a subornei com as fotos, achei que isso seria o suficiente pra assustá-la e afastá-la de vez de Santana. Mas não, ela fez tudo ao contrário. Então pedi pra que Tina entregasse o dinheiro ao mecânico. Eu daria um jeito de que Santana fosse presa, só pra que depois eu pudesse salvá-la, jogando a culpa na irmã. Porém, mais uma vez ela me dispensou, ela não me amou como eu a amei. Ela desprezou tudo o que fiz para que pudéssemos ser felizes juntas. Só nós duas, como costumava ser. Como deveria ser. Iludida por essa outra que diz amá-la mais do que eu. Mas não é assim. Porque eu sou a única que a amo, está me entendendo? – Dani se levantou e começou a gritar. – Sou eu que a amo! Apenas eu!
— Ordem! Controle-se, senhorita!
— Ela está totalmente fora da casinha! – Noah sussurrou para Kitty.
— Eu te amo, Santana! Eu fiz tudo por você, por amar você demais!
— Detenham-na, por favor! – Ordenou a juíza. – Bem, mediante os fatos. Acredito que o juri já tem condições o suficiente pra deliberar.
Santana sentia-se assim como Samara desejava, como se parte de sua vida tivesse sido roubada. Estava totalmente despedaçada.
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