Who are you?
6 A Primeira Lembrança.
Notas iniciais
Na manhã seguinte Santana despertou com o forte barulho que vinha da parte de fora da casa, após praguejar alguns longos minutos enquanto rolava na cama tentando recuperar seu sono, empurrou as cobertas do lado oposto de seu corpo na cama e se levantou um tanto sonolenta indo até a janela. Da mesma pode observar um bom grupo de homens montando equipamentos, mais especificamente brinquedos como pula-pula, piscina de bolinhas, escorrega inflável e outros típicos de festas de crianças e então veio em sua mente que era aniversário de Luca.
– Ótimo! Mais um bando de pessoas estranhas circulando na casa para me ajudar. – Bufou para si mesma.
Ela deu a costas a janela e saiu de seu quarto, ao chegar às escadas pode notar que na parte de baixo da casa mais pessoas ocupavam o que costumava ser a sala e agora decoravam tudo para a festa com o tema de “circo”, para o desespero de Santana que ao ver tantas palhaços pendurados começou a se atordoar. Suas mãos e seu rosto suavam frio, seu coração começou a palpitar e um gelo inexplicável subiu por sua costela dando origem a um longo e alto grito da parte da latina.
– Oh meu Deus, Santana! Quem foi que morreu?
Brittany surgiu a sala um tanto assustada e eufórica devido a sua pequena corrida e parou observando as expressões indecifráveis de terror da morena. Ela estava imóvel na metade da escada, com os olhos realmente marejados e isto despertava mais a agonia da loira que tentava compreender o que se passava com ela.
– Santana? – Estralou os dedos algumas vezes na frente da latina assim que chegou até ela. – O que foi?
– Pa-palhaços... – Gaguejou um pouco.
– O que tem os palhaços? – Olhou ao redor e depois voltou a sua atenção a ela, podia ver as mãos dela tremer. – Você tem medo de palhaços? – Um riso inevitável surgiu em seus lábios, afinal aquela mulher toda forte estava com medo de algumas decorações. – Eu não acredito que você tem medo de uma coisa tão inocente quanto palhaços, por favor, Santana.
– Não deboche de mim, Pierce.
– Debocho sim, isso é patético e é bom poder dar o troco a você.
Uma lágrima escorreu dos olhos negros e Brittany pode ver que não era brincadeira da parte dela. Santana deu as costas e voltou correndo em direção ao seu quarto.
– Santana, qual é? Me desculpa, por favor. – Respirou fundo, tendo que se render a ir atrás da mulher até seu quarto. – Santana? – Pode vê-la sentada no carpete ao lado da cama, ela estava com as pernas dobradas deixando seus joelhos para cima de forma que seus braços apoiavam-se nos mesmos, abaixou-se e sentou-se do lado dela. – Ei, me desculpe. Eu fiz uma brincadeira chata com você, não pensei que fosse levar tão a sério. Mas não há o que temer, está certo? Não é um livro de Stephen King em que na verdade o palhaço que parece bonzinho é um assassino de criancinhas. Vamos, se anima. – Bateu com seu ombro no da morena. — É apenas uma festa com muitas guloseimas e músicas da galinha pintadinha, não vai querer perder pra ficar encorujada em seu quarto por um medo bobo, não é? – Santana deu um pequeno sorriso e balançou a cabeça negando.
– No momento, estou mais me perguntando do que eu devo ter medo e não sei. – Moveu os ombros para trás e após apoiou seu queixo sobre um de seus braços que está sobre seus joelhos. – Será que eu senti muito medo da pessoa que me atacou naquele dia? Será que ele já tinha me feito muito mal?
– Acredito que não, pelo menos os médicos me garantiram que você não tinha qualquer evidencia disso. – Britt delicadamente colocou algumas mechas do cabelo da latina, que insistiam cair em seu rosto, para trás de sua orelha. – Eu queria poder te ajudar, Santana. Mas eu estou fazendo todo possível por você, mas o trabalho maior é seu.
– Eu sei, eu estou me esforçando. Mas eu não consigo, nada, é tudo um branco completo. Isso me dá tanta raiva. – Levantou sua cabeça e bateu em sua própria perna com a mão fechada, demonstrando seu nervosismo.
– Calma, também não vai ser do dia pra noite. Não tem nem uma semana, talvez o problema seja esse, você está se cobrando tanto, isto pode estar te deixando mais nervosa.
– Mas não tem outro meio. Enquanto isto eu tenho que ficar aqui, com medinho de palhaços. – Revirou os olhos.
– Quer saber um segredo meu? – A loira sussurrou em tom de confidência e isso chamou a atenção da latina para ela. – Quando eu era pequena eu morria de medo da escola.
– Escola? Ata, por favor.
– Sério, é serio. Olha, meus pais prezaram desde sempre a minha educação, por isso eles me colocaram no colégio mais tradicional, onde meu pai e meus avos também estudaram. Acontece que o colégio era tão antigo que mais parecia uma daquelas grandes casas mal assombradas.
– E daí? – Cerrou os olhos e tentou acompanhar a narrativa da loira.
– E daí que todos os dias eu chorava para ir pro colégio, eu pensava que em algum momento a professora diria que era uma bruxa e iria nos cozinhar.
– Isso é patético. – Começou a rir.
– Sim, é. Mas eu era nova e sentia medo até de descer as escadarias de madeira porque podia ouvi-las ranger. E ir no banheiro então? Eu quase tive problemas urinários, pois me recusava a ir até o toalete. As garotas diziam que na última cabine havia a “loira do banheiro” e bem, eu sou loira não é? Vai que ela quisesse uma substituta. – Santana não se conteve e riu ainda mais.
– Você era uma criança, não está me ajudando a me sentir melhor. Eu sou uma mulher de sei lá... Seus vinte e tantos anos? Como posso ainda ter medo de palhaços?
– Pode ser, mas o fato é que eu nunca uso a última cabine de um banheiro público. Na verdade, eu evito em ir a toaletes desacompanhada. E bom, sou uma mulher adulta com filho e tudo.
– Tudo bem, agora eu me sinto melhor. Palhaços podem mesmo serem maníacos carniceiros, mas loira do banheiro é ridículo.
– Ah para, o colégio pode deixar traumas em todos. – Disse se levantando.
– O colégio...
Santana fechou os olhos e sentiu sua cabeça latejar, foi obrigada a segurar a mesma com as duas mãos, enquanto pequenos suspiros de dor saíram de sua boca. Flash rápidos invadiram a sua mente, como uma memória, não tão nítida, não tão doce, mas era uma lembrança, tinha que ser.
Ela estava num carro e podia ver pela janela uma enorme placa escrito: “Bem-vindo ao Padre Vita”. A contra gosto a garotinha era arrastada para dentro da edificação enquanto gritava por todos os corredores que a soltassem.
– Não pode me deixar, eu não fiz nada. Não pode me deixar.
A garotinha morena, olhos e cabelos escuros, com seus aproximados oito anos dizia irritada, verdadeiramente furiosa, enquanto que aqueles que aparentavam ser seus pais a olhavam com receio.
– Tudo isso é uma loucura, ela é apenas uma criança. Não podemos abandoná-la aqui. – A mulher, também com traços latinos, a mesma que Santana já havia visto em seus sonhos, dizia com os olhos cheios de lágrimas.
– Você tem que ficar longe dela. Vamos embora, as duas, agora. – O homem que devia ser o pai ordenava.
– Santana. Santana? Você está bem? – Brittany agora estava abaixada em frente a morena e tentava trazê-la a lucidez.
– Eu, eu me lembrei de algo. Quer dizer, está confuso. – Apertou os olhos em sinal de desconforto.
– O que foi que você se lembrou? – Segurou o rosto da latina com as duas mãos e a fez a olhar.
– Eu acho que eu estudei num colégio interno chamado Padre Vita, meus pais me deixaram lá.
– Padre Vita? – Mordeu os lábios se demonstrando pensativa. – Eu não me lembro de nenhum colégio com esse nome, mas eu vou ligar pro Noah e passar essa nova informação pra ele. Eu não disse? Eu não disse que você iria conseguir? – Disse animada e no meio de sua empolgação acabou por selar seus lábios com o da morena, que para chamar a atenção da loira para o que ela havia feito, deu uma pequena mordida no lábio inferior da mulher.
– Está se aproveitando do momento para abusar de mim, Pierce? – Seus rostos estavam frente a frente, próximas demais. – Não leve isso como uma reclamação. – A morena disse com um sorriso notando a súbita paralisia da mulher a sua frente.
– Eu não abusaria de você. – Soltou lentamente o rosto da latina.
– Que pena, eu queria tanto.
Brittany observou bem a mulher a sua frente, podia muito bem beijá-la agora e juntas rolarem naquele tapete em mais uma deliciosa sessão de amasso, mas isso era o que a latina esperava que ela fizesse com todas aquelas provocações. Mas depois do fiasco no provador, Brittany decidiu que devia dificultar as coisas.
– Você quer mesmo, Santana? – Disse com um ar surpreendentemente inocente para a latina, que ia contrária as ações de suas mãos que deslizavam maliciosamente pelas pernas da mulher, fazendo com que o fino pano da camisola subisse revelando mais a tentadora pele morena.
– Você sabe que eu quero. – A voz dela saiu ainda mais rouca do que o comum, o desejo estava evidente nos olhos negros.
– Bom, quando eu quiser e puder venho cuidar disso. – Deu um beijinho no queixo da latina e se levantou rapidamente pra se afastar.
– Que? Como? – Respirou fundo frustrada. – Por que não dá agora? Eu sei que você quer. – Levantou-se também e cruzou os braços.
– Eu tenho um filho pra cuidar, uma festa para armar e um telefonema pra dar. – Dizia com um ar vitorioso ao ver as expressões de Santana, mas ainda queria mais. – Agora por que não vai tomar um banho e depois desce para tomar café? Tem que ser na cozinha, ta? Bem pertinho da Berta, estão ocupando o salão de refeições.
– Isso vai ter troco. – Moveu os ombros para trás.
– Não, esse é o meu troco. – Mandou beijos antes de sair pela porta, já na parte de fora comemorava sozinha. – Parabéns, Pierce. Você se saiu bem. – Dizia animada para si mesma.
– Tá ficando louca? Rindo sozinha agora? – Sam disse atrás dela o que a fez se assustar um pouco.
– Pois é, estou animada. – Respondeu se virando para ele.
– Posso saber com o que?
– Santana acabou de ter a sua primeira lembrança.
– Isso é momento de festa?
– Pra mim sim, significa que ela logo-logo encontrará a sua família e poderá voltar pra casa. Mas o que é que tem? O que te incomoda a minha felicidade?
– Na verdade nada, apenas acho que você anda estranha nesses dias, eu não te entendo.
– É a vida, né Sam? Além do mais hoje é aniversário do nosso filho. Pra você ele pode significar a garantia do seu império, mas pra mim ele é tudo.
– Não seja boba, sabe que ele é importante pra mim também.
– É, eu noto. – Murmurou enquanto virava sua cabeça para o lado um tanto entediada daquele papo.
– Olha, enfim... Eu só quero te dizer uma coisa.
– Manda, eu sabia que tinha algo para você estar aqui se dignificando a dirigir a palavra a mim.
– Minha mãe está uma fera com você.
– Ah Sam, por favor, eu pensei que fosse algo mais importante. A sua mãe? – Fez uma careta após revirar seus olhos.
– Sim, a minha mãe sim. Você sabe como ela é.
– É? Sei? E sabe quando eu me importe? Nunca. Agora faz um favor, seja útil uma vez na vida e ligue pro pessoal do bufe porque eles estão atrasados. Não queremos que os amigos da sua mãe passem fome, queremos? – Ela saiu o deixando sozinho, entrou em seu quarto rindo. – Idiota.
Brittany jogou seu corpo em sua cama e estendeu seu braço alcançando seu celular no criado, precisava falar com Puckerman antes que se esquecesse, mas suas primeiras tentativas de comunicação foram frustradas.
Santana seguiu o que Brittany havia dito, tomou seu banho e após desceu para tomar café. Ao vê-la entrar na cozinha Berta foi logo se agarrando em uma panela.
– O que faz aqui criatura do mal?
– Missão de paz, vovó. – Levantou seus braços para cima em sinal de rendição. — Eu apenas quero um copo de iogurte.
– Coisas como você não sentem tanta fome?
– Na verdade sim. – Parou após servir o seu copo. — Nós gostamos de velhinhas torradas durante a madrugada, por isso acordamos sem tanta fome. Se eu fosse você trancava bem a sua porta esta noite e olhava de baixo da cama antes de dormir. – Abriu um sorriso ao ver a cara de pavor da senhora. — Buh! – Começou a rir sem parar ao ver o pulo que a mulher deu, mas saiu rápido ao ver a mulher erguer a panela que tinha nas mãos. – Ok, to indo, estou indo. – Ria mais consigo mesma. – Santana você é terrível. Brittany tem razão, você deveria ter vergonha
Já Brittany estava quase desistindo de falar com Noah quando ele finalmente atendeu ao telefone.
“- Fala gata da minha vida.”
– Eu já estava pensando que eu teria que ligar para a recepção do seu prédio e pedir pra que alguém verificasse se você está vivo.
“- Estava no banho, eu sou um cara bem cuidado e você sabe disso.”
– Sei, mas antes que você comece a se achar aí, eu te liguei porque tenho novidades, a Santana se lembrou de uma coisa que pode te ajudar.
“- O que? O paraíso de onde saíram mais gostosas como ela?”
– Deixa de ser safado, não, não é isso. – Disse rindo. – Ela se lembrou que estudou numa escola chamada Padre Vita, ao que parece é um internato, pois os pais dela a deixaram lá. Eu nunca ouvi falar de uma escola com esse nome, não creio que seja por perto.
“- Padre Vita? Tem certeza que ela disse que isso é uma escola?”
– Tenho, a gente estava falando sobre tempo de colégio e ela se lembrou que foi deixada nesse. Mas por quê? Acha que ela pode ter se confundido?
“- É que na verdade, o que eu conheço pelas redondezas como Padre Vita não é bem um colégio, internato ou algo do tipo e sim uma...”
– BRI-TTA-NY! – Santana invadiu o quarto aos gritos, totalmente apavorada. – Sujou, sujou. Código vermelho. Problema. Palhaço.
“- Mas o que é isso? A sua casa está pegando fogo?” – Começou a rir do outro lado da linha.
– Sim, o incêndio responde por Santana Lopez. Olha, eu tenho que desligar pra ver o que ela quer. Eu te espero mais tarde na festa e assim conversamos melhor.
“- Festa? Eu não sei não, Britt...”
– Por favor, Puck. Você precisa vir, é o seu afilhado.
“- Eu sei, mas o Sam já me tira do sério, agora com a família dele.”
– Eu sei, por isso que você tem que estar aqui pra me ajudar. Além do mais, eu chamei a Quinn e a Rachel, não pode se recusar em vê-las.
“- Você é uma chantagista.”
– Brittany! Eu pensei ter dito que estamos com um problema. – A latina disse ainda mais impaciente e apreensiva.
– Eu te espero aqui, não se atrase. – A loira finalizou a ligação. – Tudo bem, pode me dizer qual é o problema? Pensei termos entrado em acordo quanto aos palhaços.
– E entramos, com relação aqueles enfeites. Mas a campainha tocou e eu fui gentilmente abrir a porta porque aquela troglo... troglo... troglo qualquer alguma coisa. – Se embolou na palavra e Brittany riu. – Estava ocupada na cozinha. E sabe quem era? Um palhaço! Um palhaço de verdade que disse que veio pra festa.
Brittany levou a mão a testa lembrando-se da equipe que havia contratado para animar as crianças convidadas.
– Eu tinha me esquecido disso, eu os chamei. Mas não se preocupe, eu pedirei que eles fiquem em uma sala específica e você ficará a salvo para transitar no restante da casa, tudo bem?
– Não, não estou nada bem. Eu não saio do meu quarto até essa festa terminar. E tenho dito. – Saiu batendo o pé enquanto Brittany ria mais das cenas dela.
– Medrosa. Dramática. Gostosa. — Sorriu ainda mais com a última fala.
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