Who are you?

26 A Irmã.


Notas iniciais
Aproveitem a leitura!

— O quê? O que o senhor disse?

Essa história de ter uma irmã era confusa demais. Como até aquele momento ela não havia sido informada que tinha uma irmã? Um tio postiço tudo bem, mas uma irmã? Por que ela não estava procurando por Santana? Por que ela não assumiu a empresa da família? Nem Noah, nem os investigadores ou até mesmo a sua avó tinham lhe contado sobre esse membro tão importante de sua família.

Como ela tinha passado despercebida? E por que todas as acusações apontavam unicamente pra ela e não pra sua suposta irmã? Essas eram as questões que bombardeavam sua cabeça, todas ao mesmo tempo.

— Isso mesmo que a senhorita ouviu. Você tem uma irmã, Santana. Não uma irmã qualquer, você tem uma irmã gêmea.

— Gêmea? – Santana repetiu quase que sem ar.

Desde que havia sofrido o acidente, tudo o que ela mais queria era poder reencontrar a sua família e abandonar o sentimento de solidão. Muito embora Brittany tivesse ocupado grande espaço em sua vida, ainda tinha o vazio de não saber quem era e não ter nenhum familiar por perto. Desse modo, a notícia de ter uma irmã e gêmea, podia ser a notícia mais fantástica de todos os tempos. Mas o golpe de saber da existência de sua “outra metade”, a sua irmã gêmea, a abalou mais do que tudo.

Suas memórias com sua irmã se revelaram como um flash, uma atrás da outra foram surgindo em sua mente e construindo uma linha do tempo.

FLASH BACK

Primeiro ela se viu ainda bem pequena, por volta de uns cinco anos, correndo em um tablado de madeira que chegava à represa, logo atrás vinha sua irmã, com expressões enfezadas por perder a corrida. Assim que chegaram a ponta, Santana comemorou a sua vitória.

— Eu sou a melhor do mundo! – Se gabou.

— Você roubou!

— Eu não roubei!

— Roubou sim! – Disse ainda mais furiosa empurrando a irmã para o lago e depois assistiu com diversão o afogamento da irmã.

— Socorro! Socorro! – Gritava desesperada, pois aquele lado da represa era fundo demais para uma criança nadar sozinha.

— Você não é a melhor do mundo? Sai daí agora.

— Socorro! – A agonia era nítida, sua voz estava rouca, por sentir a água começar a invadir sua garganta e pulmões.

A irmã que havia jogado Santana na água, ria internamente enquanto caminhava de volta pelo tablado, quando foi surpreendida por um caseiro, que ao ver Santana na represa gritando por socorro, pulou na água e a salvou. O casal Lopez que vinha de dentro da luxuosa cabana de campo, ao verem a cena se desesperaram e correram o mais rápido possível pra onde as filhas se encontravam.

— Mamãe, eu tentei ajudar! Eu tentei ajudar! – Dissimulou a pequena.

O caseiro saiu com o corpo de Santana de dentro da água, sua pele estava começando a ganhar a cor roxa, precisou que ele a reanimasse fazendo massagem e respiração boca-a-boca, para que ela pudesse expelir a água de seus pulmões. Longos segundos de agonia os abateram até que a pequena latina cuspiu um tanto considerável de água e voltou a respirar.

— O que foi que aconteceu aqui? – O patriarca se virou para a filha que estava de pé assistindo a cena sem qualquer reação de abalo.

— Um acidente, papai. A Santana veio correndo e escorregou. – Mentiu ao pai.

— Acidente? Tem ocorrido acidentes demais por aqui. – Ele se demonstrou nervoso.

— Por favor, Roberto. Foi um acidente, não foi, cariño? – A mãe alisou os cabelos molhados de Santana.

— Si, mama. Foi como a Samara falou, foi um acidente. – Abraçou a mãe e por cima de seus ombros pode ver o olhar ameaçador da irmã.

FIM DE FLASH BACK.

— Samara? É esse o nome da minha irmã. Samara. – Repetiu pra si mesma, tendo uma sucessão de lembranças desde então.

Primeiro ela se viu chorando diante da irmã que roubava seus brinquedos e tinha o prazer de queimar as suas bonecas preferidas. Depois, em muitas das suas lembranças, a irmã lhe arranhava, lhe batia de deixar hematomas pelo corpo, colocava objetos pra que tropeçasse. Mentia aos pais dizendo que Santana havia quebrado, estragado ou perdido algum objeto, quando na verdade era ela. Tinha prazer em ver os pais repreendê-la e os manipulava sempre que a colocavam de castigo. Adorava testar a paciência dos pais e sempre, sempre se demonstrava indiferente a qualquer sentimento deles, a não ser que a bajulassem e lhe dessem presentes. "Uma era mais sentimental que a outra", respondia Glória, sempre que Roberto tentava dizer que o comportamento de Samara não era normal.

Santana lembrou-se da irmã abrindo um passarinho com uma lamina de apontador de lápis por puro prazer e que a ameaçou com essa mesma lamina antes de dormir para que não contasse nada aos pais. E à medida que cresciam, suas rixas se tornaram pior. Santana sentia pavor de ficar sozinha com a irmã, queria sempre ir para o trabalho com a mãe, mas nem sempre era possível.

No colégio seu comportamento frio e calculista não passou despercebido por seus professores e nem pela orientadora pedagógica que sugeriu que a menina fizesse algumas sessões com a psicóloga da escola. Mas antes que pudesse ir a primeira consulta, foi surpreendida pelos pais tentando asfixiar Santana com um travesseiro, após tê-la convencido que brincariam de polícia e ladrão e a amarrou com panos pelo pulso. Depois desse dia, por mais que Glória quisesse defender a filha, não pôde.

Não foram poucos os profissionais que os pais procuraram para sua irmã. Lembrou-se do tempo triste em que Samara teve que ficar trancada no próprio quarto, pois o pai não confiava no comportamento da filha. E a cada diagnóstico, a cada exame, em cada análise, os médicos eram enfáticos ao deliberar quanto o transtorno da menina. Após passar pelo conselho de psiquiatria, foi permitida a internação e então a lembrança de Santana se encaixou. Não era ela que via em sua lembrança, tudo não passou de uma confusão de sua mente, era sua irmã. Ela estava lá, ela viu o dia em que Samara foi internada no Padre Vita, não ela.

E sua primeira lembrança com sua avó também veio a sua cabeça. Anos mais tarde, os seus pais tentaram trazer Samara de volta pro seio da família, após um longo tratamento. Porém sua convivência com a irmã era insuportável e a avó era a única que parecia compreendê-la naquele momento e ver que Samara ainda usava de sua manipulação com os pais, principalmente com a mãe e que foi por isso que Santana se mudou pra Lima com a avó.

E por fim, a frase que sua avó havia lhe dito mais cedo:“Não acredito que faria mal aos seus pais, não você. Mas há outra face.”

— A minha outra face, Samara é a minha outra face.

Santana não aguentou o choque e a força com que essas lembranças voltaram, sua cabeça doía de uma forma que nunca havia doído antes. Ela precisou se escorar na parede quando tudo começou a rodar e estava prestes a ficar preto. Otto a segurou pelo braço e Brittany que voltava até eles após atender seu celular, viu quando a latina deu sinais de que iria ao chão.

— Santana! – Correu até ela e a segurou pelo outro braço.

— Samara... Samara... – Disse antes de apagar de vez.

Os outros membros do conselho ajudaram a socorrê-la, mesmo a contra gosto de Santana, Brittany a levou até o hospital local para passar por exames, o que na vista da morena era absurdo, ela tinha outras prioridades.

— Por que me trouxe aqui? – Olhou ao redor do quarto, principalmente pra agulha enfiada em seu braço ligada a um soro controlado. — Eu já estou bem.

— Isso é o que o médico vai dizer, porque a sua pressão caiu. O que aconteceu com você? O que aquele homem te disse que te deixou tão mal?

— Ele... Ele me disse que eu tenho uma irmã.

— O quê? Irmã? Como assim? – Perguntou perplexa.

— Isso mesmo, uma irmã gêmea, Samara. E eu me lembrei dela, lembrei da nossa infância e adolescência conturbada. É ela, Brittany, é ela a filha dos Lopez internada no Padre Vita. Não fui eu. É ela.

Lentamente Brittany se sentou na cadeira que estava ao lado da maca de Santana. Se era difícil pra ela assimilar aquela informação, quem diria pra Santana que recebeu todas as lembranças de uma só vez.

— Eu não entendi de início quando ele me disse que eu tenho uma irmã, porque ninguém nunca falou dela. Quando ele falou a palavra “gêmea”, todas as minhas recordações com ela voltaram. Ela era cruel comigo, ela tentou me matar mais de uma vez. Ela tem o distúrbio de personalidade, Brittany. Por isso a internaram uma vida toda e quando saiu não se readaptou.

— Motivo também de ninguém tocar no nome dela, se ela está trancada num lugar assim... É capaz que nem todas saibam que ela existe. – Concluiu por fim. – Isso parece coisa de filme. Sério!

— Eu preciso ir até o Padre Vita. Eu preciso confirmar. Eu tenho que ver a minha irmã.

— Não, Santana. Eu entendo a sua aflição, mas se lembra do que o doutor Parker te disse? Que era perigoso demais suas lembranças voltarem com intensidade? Você pode ter um colapso, sabia?

— Colapso eu vou ter se não me liberarem daqui logo.

— Olha, a médica que te atendeu já vem vindo. Vamos perguntar pra ela sobre seu estado.

— Boa tarde, senhorita Lopez. Eu sou a doutora Smith que te atendeu. Eu olhei os seus exames e está tudo controlado. Provavelmente o que você sentiu foi uma tensão do seu tecido cerebral ao receber tanta informação tão rapidamente. Não foi sério, porém tem que tomar cuidado Santana, essas alterações são perigosas e pode ter consequências ainda mais graves que uma perda de memória.

— Não é como se eu pudesse controlar, doutora.

— Eu sei. Mas pode se preparar para esses eventos. Eu já prescrevi um remédio para sua dor de cabeça, mas é essencial que volte ao seu neurologista para terem uma conversa.

— E quando ela receberá alta?

— Amanhã bem cedo já será liberada, vamos só esperar esse soro terminar.

— Amanhã? Não, não posso, eu preciso sair agora!

— Você me escutou, Santana? Precisa desacelerar e isso requer repouso. – A doutora disse de forma mais dura antes de abandonar o quarto.

— Sabe quando que eu vou receber ordem de uma doutorazinha esnobe dessas? – Disse enquanto puxava a seringa de seu braço.

— O que você pensa que está fazendo?

— Dando o fora daqui. Você pode ficar aí observando, ou pode vir comigo.

— Santana, é arriscado!

— É arriscado de qualquer forma. Cadê aquela mulher forte e corajosa de mais cedo? — Brittany bufou estressada, não pela provocação de Santana, mas por saber que nada impediria aquela determinação. – E então?

— Vamos! Eu vou te ajudar, vou ficar de olho pra ver se tem alguma enfermeira ou a médica. – Santana sorriu vencedora para ela.

— Mas apenas com uma condição. Depois que sairmos do Padre Vita você vai pro hotel descansar.

— Eu aceito!

Após a pequena fuga do hospital, Santana fez com que Brittany dirigisse até Padre Vita. Brittany não se sentia segura quanto aquilo, mas sabia que se não fosse ela a ajudar a latina, ela faria tudo por conta própria e sozinha.

— É aqui, eu reconheço o local.

— Tá, mais vai com... – Não teve tempo de terminar de falar, pois assim que parou o carro a latina saltou do mesmo e subiu as pressas a escadaria do prédio antigo, mas preservado. – ...calma.

Quando chegou a grande porta principal, uma das enfermeiras já a empurrava para fechar.

— Moça, não, espera. – Impediu com os braços que a porta fosse fechada.

— Sim? No que posso ajudá-la?

— Eu preciso de um arquivo, eu preciso confirmar uma informação.

— Desculpe, senhorita, mas já passa das sete da noite, eu preciso fechar. Voltaremos a atender o público na segunda-feira.

— Por favor, senhorita. É urgente! Minha... – Brittany não soube direito que palavra usar para se referir a Santana e usou a que mais lhe trouxe confiança. – A minha namorada sofreu um grave acidente de carro em que perdeu a memória, hoje pela tarde veio a descobrir que tem uma irmã que provavelmente está internada aqui. Ela já sofreu demais com essa angustia, é sua única família. Abre essa exceção pra gente, por favor. – Suplicou e a enfermeira acabou cedendo.

— Tudo bem. Entrem que eu vou ver o que posso fazer. – Esperou que elas entrassem para fechar a porta. – Qual é o nome da paciente?

— Samara Lopez.

— Samara Lopez? Parece que eu já mexi nesse arquivo recentemente.

— Um amigo nosso veio até aqui, mas como ele não era da família, não teve acesso aos arquivos e pensou que ele fosse meu.

— Aguarde um momento, eu vou ver se o encontro. – Saiu as deixando sozinhas na recepção.

— Esse casarão me dá arrepios! – Disse enquanto observava a decoração barroca e o branco pálido das paredes. – É o tipo de lugar que teria medo de ir ao banheiro sozinha.

— Num lugar assim, Pierce, dá medo de ir pra qualquer lado.

— Vocês deram sorte que ainda não tinham o decido pro arquivo. – Entregou a pasta a Santana.

— Obrigada. – Santana começou a folhear as páginas e o nome de Samara e de seus pais estavam nelas. Apesar de não entender os termos técnicos, lembrou-se da explicação mais simples que Quinn havia lhe dado. – Eu posso vê-la? Eu posso falar com o médico dela?

— Sinto muito, mas agora só temos os plantonistas. O médico dela só retorna na segunda e sem a permissão dele, não posso deixar que a veja.

— Mas eu sou a irmã dela, eu...

— Eu sei. Eu entendo. Mas é pro seu próprio bem e da paciente. Mas se retornar na segunda, eu terei o prazer de recebê-la novamente.

— A gente pode ter uma cópia dos arquivos? – Solicitou Brittany, já que Santana estava atordoada demais pra se lembrar que aquilo seria de grande valia mais tarde.

— Claro, eu vou providenciar.

Assim que saíram do prédio, Santana se encostou no carro e puxou o ar com força, como se tentasse recuperar o fôlego.

— Você está bem? – Brittany a olhou, estava preocupada.

— Não esquenta, eu estou bem, são só emoções demais... Eu estive tão preocupada em ser uma louca que matou os próprios pais, minha única família... E agora eu sei que eu tenho uma irmã gêmea que está trancada em um desses quartos aí. Minha vida deu um giro de 180º em um único dia.

— Bom, pelo menos não foi uma de 360º em que voltaria para o mesmo ponto, pro mesmo lugar. Você veio até Albany pra assumir quem era e junto com isso assumiu o risco de qualquer consequência. Meteu a cara e deu tudo de si. Eu tenho certeza que foi um dia excepcional, em que as emoções variaram entre as mais tristes até as mais recompensadoras. Mas sabe o que mais? – Santana negou a cabeça. – Provou que Santana Lopez é a pessoa mais forte que eu conheço e que valeu a pena ir contra todas as minhas razões pra estar ao seu lado nesse momento.

— Quanto a isso, nós precisamos conversar.

— Sim, e nós vamos. Mas só depois de você descansar, eu estou morrendo de medo de você cair dura aqui mesmo.

— Mas Brittany...

— Eu fiz o que você quis, eu te trouxe até aqui, eu te ajudei. Agora é hora de cumprir a sua parte, entrar nesse carro e ir pro hotel repousar.

— Tudo bem. – Aceitou exausta demais pra retrucar, mas certa de que a noite não havia acabado ali. Assim que estivessem no hotel, elas iriam conversar. Sem mais delongas.

Assim que chegaram ao hotel, Brittany tratou de enfiar Santana em um banho enquanto pedia uma refeição reforçada para ela. Assim que saiu do seu banho, a latina viu a comida na mesa, mas não sentiu a menor vontade de mexer na mesma. Brittany estava sentada em um dos sofás falando ao telefone, aparentemente com Lisa.

— Tudo bem, dê muitos beijos nele por mim. – Desligou o celular e o guardou em sua bolsa, logo se pondo de pé diante da morena que a observava.

— Luca está bem?

— Sim, apenas com saudades, como eu estou dele. – Sorriu de canto. – Bom, eu pedi algo bem levinho pra você. Tenta fazer um esforço pra comer tudo. – Caminhava em direção a porta enquanto falava. — Eu vou pro meu hotel, eu também estou precisando de um banho. Viajo bem cedo amanhã pra Rochester. – Se colocou do lado de fora do quarto e Santana se encostou no batente a observando tagarelar. – Mas qualquer coisa que acontecer você pode me ligar, principalmente se si sentir mal. Não hesite, por favor. Tenha uma boa noite, tá?

— Acabou o discurso de mãe?

— Desculpa, eu só estou preocupada e... – Dizia de forma confusa.

— Brittany...

— O quê? – Suspirou sabendo que estava fazendo de novo.

— Cala boca e volta aqui. – Santana levou uma das mãos a cintura de Brittany e a puxou para perto de seu corpo. Rapidamente tomou posse de seu corpo a agarrando entre seus braços, ao mesmo tempo em que colou seus lábios ao dela, dando inicio a um beijo que parecia confuso, mas que aos poucos começou a tomar gosto. Suas línguas se procuravam com certa urgência, fazendo com que o corpo descarregasse um pouco de suas energias.

Sem que Brittany percebesse, Santana já havia conseguido trazê-la de volta pra dentro do quarto. Aquela sensação gostosa de ter as mãos ágeis da latina agindo por seu corpo a entorpecia de uma forma que ela não tinha controle. Quando deu por si, uma de suas mãos estava perdida em meio aos fios negros que apertava em meio aos seus dedos, enquanto a outra mão deslizava com prazer entre as costas e a bunda da morena, que reagia apertando a cintura da loira contra a sua.

— Santana... – Conseguiu chamá-la pra razão quando seus lábios se desgrudaram para que pudessem tomar ar.

— Você não quer? – Perguntou enquanto começava a desabotoar os botões da blusa social que Brittany vestia.

— Muito! – Precisou de forças pra se desvencilhar do cheiro estonteante que vinha da pele da morena, que ela beijava com tanta vontade e para segurar as mãos dela que estavam quase nos últimos botões. – Mas eu preciso falar com você antes. É importante.

— Eu pensei que não quisesse conversar. – A loira a lançou um olhar sério. – Tudo bem, vamos conversar. Mas eu começarei fazendo as perguntas.

Notas finais
Espero que estejam curtindo o mais novo mistério, Samara Lopez. haha Até o próximo, amores.