Who Are You ?
2 Two
Notas iniciais
O quão insano é isso?
Você gostar de uma pessoa que nunca viu na vida?
Não tinha como confiar se a conversa era verdade, nem sabia se esse nome era verdadeiro. Só que, se fosse verdade, estaria apaixonada por uma garota; se não, estaria apaixonada por uma fantasia.
Mas me recusava a pensar em não ser verdade.
Suspirei me virando de barriga para cima entre os lençóis, me esticando para pegar o celular.
Eu tinha uma conta falsa para observar a verdadeira reação das pessoas não só para com meu trabalho, mas para ter uma visão básica com o tipo de pessoas que estava lidando e acabei me aproximando de um usuário desconhecido. Quando percebi, já estava em minha rotina conversar com Demi mas tudo estava contra isso e estava cansada de mentir sobre quem eu era ou o que fiz na noite que não pude entrar.
A verdade foi não aceita no começo. Enquanto tentava convencê-la de quem realmente era recebia respostas irônicas e retóricas, mas logo entrei em minha conta original provando tudo. Isso facilitou muito nossas conversas diárias, mas também tornou mais forte minha necessidade de estar “perto”.
Ela sabia de tudo quando se tratava de mim e conquistou a confiança para isso, mas me senti mal quando deduzi não fazer o mesmo.
Queria tanto ouvir sua voz, mas quando tomei coragem para pedir seu numero de contato a resposta foi um mascarado: não; em desculpas aleatórias.
Tentei não parecer muito ferida a ignorar as provas de que a pessoa que gostava não existia, mas lembro exatamente do quão alegre fiquei ao receber uma mensagem com um numero aleatório. Ela confiava em mim!
Claro, era sempre muito difícil nos encontrarmos disponíveis ao mesmo tempo para uma conversa longa por telefone como nossa primeira. Sorri lembrando o susto que levamos ao perceber termos ficado quase duas horas só ouvindo uma a voz da outra.
Era engraçado o jeito esquisito que percebíamos o andamento do “relacionamento”. Nossos próximos passos eram coisas ditas como regras em até mesmo amizades e me recordo plenamente de quando decidimos ter nossa primeira conversa-video.
Foi, de longe, uma das melhores sensações do mundo ao confirmar a figura só conhecida em fotos. Um cabelo preto mais que escuro, a pele pálida e de aparência fria, os olhos castanhos escuros e aquele sorriso que me fazia imitá-la todas as vezes que o exibia. Foi quando terminei com Justin.
Não me julguem mal. Ele era maravilhoso, sempre tentando de alguma forma provar coisas que não precisava, mas já não sentia o mesmo de antes e tive a mesma experiência com outro garoto em minha vida. Na situação que decidi me modificar para a perfeição em seus olhos, mas, graças a Deus, percebi meu nível de idiotice. Isso não aconteceria novamente. Não ficaria presa com outro alguém para o bem de um único sujeito na relação.
Digitei a senha simples no touch do aparelho puxando mais os cantos labiais quando li a pergunta mandada a menos de cinco minutos no campo de mensagens diretas:
“Posso te ver?”
“Não.” respondi claramente ao prever o mínimo choque do outro lado da conversação, era difícil negar algo a ela.
“Não!? Porque?” ri com a indignação.
“Porque acabei de acordar e estou horrível.” expliquei.
Era tão estranho trocar palavras intimas com uma pessoa sem ver reação alguma, o que não privava minha imaginação ao interpretar cada frase a um tom para a imagem bonita a minha mente.
“Aposto que fica ainda mais linda ainda pós-sono.” brincou ainda na tentativa de me convencer. Mal sabia ela já ter recebido um sim de resposta na primeira tentativa.
“Me ligue.” aceitei ativando a opção de vídeo chamada na preguiça de deixar a cama.
Passei as mãos no cabelo ajeitando-os ao tomar um gole rápido da água a meu criado-mudo para normalizar minha voz ainda inutilizada.
Logo o toque familiar do violão da saber ser sua canção preferida da banda Green Day soou com o começo baixo.
Respondi positivamente para o convite de vídeo observando uma mínima luz vermelha se acender ao lado da câmera frontal no aparelho e a tela se dividiu em duas.
- Bom dia. – a voz um pouco mais eletrônica que uma simples chamada telefônica faria saiu da figura sonolenta na divisão superior do iPhone.
- Bom dia. – sorri me amaldiçoando por não ter tomado mais água. – Pelo jeito não sou a única que acordou agora.
- Hm, ok, me pegou. – a assisti coçar com um charme inconsciente o cabelo ligeiramente bagunçado notando a blusa de alças finas que sabia ser o pijama. – Esta na cama?
- Sim e queria alguém para abraçar. – reclamei apoiando a pequena base quadrada do celular na barriga.
- O Justin esta mais perto. – brincou rindo.
- Cale a boca! – ordenei ao ser contagiada. – O que esta fazendo?
- Hm, tomando suco – pareceu pensar ao desviar os olhos da câmera, mostrando o grande copo do liquido laranja. –, e checando meu e-mail.
Mudou de posição na cadeira fisioterápica para computador, sentando em forma indiana ao dar vários clicks no mouse.
- Muito trabalho na faculdade? – perguntei interessada.
- Ooh sim, concerteza. – concordou com ênfase. – Eles querem nos matar. Mas eu adoro.
- E por fala nisso, cadê o Oliver?
- Nossa, verdade, vou ali buscá-lo. – lembrou-se ao sair do alcance da câmera.
Por um momento rápido foi possível ver a parte de baixo do pijama simples, cobrindo gentilmente o corpo trabalhado até um pouco acima do joelho.
Sua voz baixa pela distancia do microfone era ouvida, chamando o nome do animal de estimação.
- Aqui esta ele. – comemorou ao se sentar pesadamente da cadeira, o pequeno cachorro peludo em seu colo. – Diga oi para Selena, Oli.
Assisti com riso o cachorro animado demais em seu colo, pulando na tentativa de lamber o rosto da dona.
- Continua sempre elétrico de manhã. – afirmei diante da prova.
- Algumas coisas nunca mudam. – confirmou ao soltar-lo no chão. – Acho que estou abusando muito dele.
- Ainda o usa de cobaia? – questionei indignada. – Pensei que tinha te convencido deixar o coitado em paz.
- E convenceu mas eu precisava de uma, hm, ajudinha na pagina sessenta e quadro. – tentou justificar-se. – Não sei se agora ele acha tão bom ter escolhido veterinária.
- É o que eu diga; coitado. – ri. – Estou com saudades.
- Eu também. – suspirou pesadamente, cansada dessa nossa bagunça de horários. – Mas agora minhas provas acabaram e vou voltar para minha rotina antiga, daí poderemos conversar mais. Ou não; depende do seu horário livre.
- Era exatamente sobre isso que queria falar. – mordi o lábio nervosa com meu pedido. – Você não é obrigada a dizer sim, só para deixar claro!
- Você esta vindo para o Canadá, não é? – sorriu divertida com meu embaraço. – E acho que estamos pensando o mesmo.
- Quero muito te ver. – soltei na esperando que realmente estivéssemos falando da mesma coisa. – Vou fazer um show e tirar mais ou menos duas semanas, daí pensei em ficar por ai... você sabe, te abraçar todos os dias.
Meu coração gelou sabendo que nunca havíamos nos conhecido pessoalmente.
- Pensei nisso também ontem quando comentou na entrevista. – falou me fazendo rir pela animação explicita e ao claro rosto obvio. – Deus, finalmente ver você? É tudo que quero.
- Fala sinceramente? – corei.
- E mentiria pra você? – retrucou com outra pergunta. – Não consigo. Você é a menina dos meus olhos.
- Sou? – voltei minha linha de questões retóricas.
- Bem, só se quiser ser. – respondeu alguns segundos depois, fazendo-me sorrir largo ao detectar a duvida no tom baixo.
- Eu quero.
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