White Walls

10 Capítulo 9


A primeira coisa que faço quando acordo é jogar uma água no rosto. Preciso me preparar para sair novamente. Preciso me preparar.

Me olho no espelho. E lembro por que evito fazer isso. Meu cabelo castanho gruda nos cantos molhados do rosto. Meus olhos estão inchados, minha boca, rachada. Quem dera eu fosse uma estrela.

Saio de casa carregando o coração nas mãos e o estômago nos pés. Olho para os lados diversas vezes quando deixo meu coração cair e chuto meu estômago para longe.

Alguém pegou meu pulso.

Alguém pegou meu pulso.

Olho para trás e vou desmaiar tenho certeza de que vou morrer aqui mesmo. Quem pegou meu pulso foi o mesmo cara que vi outro dia na feira.

Minha cabeça virou uma grande placa sinalizadora de perigo. Ela grita grita e grita para eu sair correndo o mais rápido possível mas minhas pernas são feitas de chumbo e meu corpo de aço.

– Ei ei ei — ele fala, sorrindo — aonde pensa que vai, mocinha?

Ele sorri como um vilão. Seu sorriso alerta meu cérebro a ponto de fazê-lo explodir.

Não consigo falar uma palavra.

– Precisa de ajuda? — ele fala, provavelmente percebendo que estou prestes a morrer de medo — Você ao menos sabe falar?

Ele ainda não soltou meu pulso.

– Me solte. — eu sussurro o mais alto que minha voz consegue.

– Calma gatinha, não sou um assassino em série — o sorriso voltou ao seu rosto.

Lentamente ele solta meu pulso. Meus pés se recusam.

Se recusam a dar dois passos.

– Você precisa de ajuda? — ele repete. E quase posso sentir um pouco de verdade por trás disso. Como se ele se importasse.

Meu corpo acorda de supetão e me viro para sair dali.

– Por que não quer falar comigo? Só mordo se você quiser...

– Qual o seu problema? — eu grito, atraindo a atenção das pessoas que passam na rua. Ele se assusta com minha voz, mas o sorriso não demora a dar as caras.

– Era isso que eu queria.

Saio caminhando colocando o capuz na cabeça. Meu coração se recusa a voltar pro lugar.

– Aonde você vai? — ele pergunta, me seguindo.

– Não te interessa.

– Roubar comida de novo? Porque se for, eu posso lhe ajudar — e dizendo isso ele tira uma espécie de prato da bolsa. Posso sentir o cheiro. Posso sentir a fumaça.

Posso jurar que estou babando.

– Só tenho esse, então se não quiser... acredite em mim, tem quem queira.

Retorno a caminhar.

– Não preciso da sua ajuda. Eu nem te conheço.

Ele corre para ficar na minha frente e estende uma mão.

– Prazer senhorita, meu nome é Dimitri. Se preferir, Lorde Dimitri — bufo e ignoro sua mão continuando a andar.

Percebo que ele não me seguiu quando o ouço falar mais baixo atrás de mim.

– Perdão por ter agido daquela forma antes. Não era minha intenção. Eu só queria.

O arrependimento em sua voz me faz parar.

...

Após dizer isso me viro para voltar pelo caminho de onde venho. Silenciosamente, conto até três.

Um...

Dois...

Três.

– Espera — ela fala. Não posso controlar o sorriso.

Visto minha melhor cara de pau e me viro para trás.

– Sim?

– O que você tem aí? — ela diz, segurando com força as mangas do casaco grande demais.

– Nada. Apenas uma lasanha. Quentinha. O cheiro está maravilhoso... — posso vê-la engolir em seco. Está faminta.

Ela dá um passo em minha direção, desconfiada como um gato.

– Como posso saber que não tem veneno aí dentro?

– Me diga um motivo para eu querer te matar.

– Me diga um motivo para você querer me ajudar — ela responde prontamente.

Droga. Rápida demais.

– Caridade? — eu rebato com a mesma rapidez.

– Caridade não existe nos dias de hoje.

Olho ao redor tentando pensar rápido.

– Olha só, estou tentando ser gentil, tá legal? Se você não quer aceitar, então tudo bem, há outras pessoas que precisam mais que...

– Abby — ela me interrompe.

– O que? — digo, sem entender nada.

– Meu nome. Abby.

– Ah. Ah sim. Prazer abby. — sorrio — Então... vai aceitar a lasanha?

...

Estou sentada nos degraus de uma casa desconhecida com Dimitri ao meu lado. Não posso acreditar na burrada que fiz. Não posso acreditar que aceitei comida de um estranho.

Meu coração ainda não conseguiu achar o caminho de volta para seu lugar. Mas... algo dentro de mim repentinamente sabe. Ele não é perigo. As lembranças que ele trouxe... elas continuam dançando em minha cabeça.

– Então... não vai me contar sobre você, vai? — ele pergunta sem olhar para mim.

– Não — falo de boca cheia.

Ele solta uma risada.

– Simpática...

Paro de comer por um segundo.

– O que você quer? — pergunta errada.

– Como já disse, quero ajudar. Vi você esses dias e pensei... Bem, pensei que você me lembra muito eu mesmo há uns anos atrás. — ele com certeza deve estar maluco.

Termino de comer em silêncio e me levanto. Deixo o prato ao seu lado e saio sem me despedir.

Meu coração palpita e eu entendo o recado. Preciso voltar para casa.

– Ei, espera! — ele grita.

– O que foi? — respondo, me virando em sua direção.

– Posso conseguir mais se quiser. — diz, se aproximando. Ele me olha de cima a baixo — Posso conseguir umas roupas também.

– Eu não preciso de sua ajuda — falo, irritada.

– Ah, precisa. Porque se não fosse por mim, você estaria morrendo de fome. Sabe, Abby, algumas vezes você pode confiar em outras pessoas a não ser em si mesma.

Minha cabeça é um turbilhão de pensamentos e eu preciso correr preciso correr eu preciso

correr.

Estou em casa antes que eu possa sentir medo.