White Walls

9 Capítulo 8


Estou sentada no parapeito da janela olhando as estrelas. Elas brilham tanto mesmo estando literalmente sozinhas no espaço. Por que eu não posso ser assim?

Eu queria ser como as estrelas.

Me jogo na cama sentindo o peso do que aconteceu hoje se jogar comigo. Algo dentro de mim queima queima queima e se recusa a parar.

Eu tenho certeza de que o conheço. O homem da feira. Os olhos, o cabelo, o jeito despreocupado de se portar, como se nada nada mais importasse a não ser o agora.

Nesse momento posso jurar que sou uma estrela, queimando.

Queimando ardentemente na escuridão.

...

– Um perfeito empregado ate hoje pelo que ouvi dizer.

– Como... – eu engasgo com as palavras – como você sabe?

– Ora, Dimitri... eu estou em todos os lugares. Quem você acha que sou? – ele se move para as sombras.

– O diabo, suponho – falo baixo.

Ele surge das sombras e grita a centímetros do meu rosto:

– Eu sou pior do que o diabo!

Não posso deixar de soltar uma risada.

– Tá falando sério? Olha só, tenho coisas mais importantes a fazer do que essa palhaçada.

– Não se preocupe, Dimitri. Não pretendo me demorar com você – o riso em sua voz me dá ânsia de vomito. – Tenho uma... proposta a lhe fazer. E o pagamento... bem, digamos que é generoso. E generoso nesse caso, não passa de um eufemismo.

Agora sim ele está falando minha língua. E isso me assusta.

– Do que se trata? – pergunto, tentando parecer desinteressado.

– A moça que você viu ontem mais cedo... eu a quero em minhas mãos – ele torce os dedos.

– Ah, então você é um pedófilo? Desculpe mas esse tipo de serviço é em outro departamento... – mais um tapa. Eu levo mais um tapa na cara.

– Silêncio! – ele grita, e partículas de cuspe podre voam em meu rosto – O que vou fazer com a garota não diz respeito a você. Faça o que mando... do contrário... meus homens terão mais um petisco para o café da manhã.

E com isso um cheiro terrível toma conta do recinto e o homem, seu carrasco e as cordas que me prendiam somem, deixando uma nuvem negra em seu lugar.

Ando para casa o mais rápido possível. Minha alma está congelada. Minhas mãos estão congeladas. Que diabos foi isso? Paro na porta da pensão e, no último degrau, vejo um pequeno papel escrito apenas:

“O valor é mais do que você jamais irá ganhar. Mais do que suas crianças jamais verão”