White Walls

8 Capítulo 7 - Dimitri


– Quando vai voltar Dimitri? – pergunta Kate, uma das meninas mais velhas entre meus amigos.

– Não sei. Mas acho que com essa comida vocês conseguem viver por uma semana, não acha?

Ela ri em resposta. Kate tem 14 anos. Com essa idade, deveria estar fazendo amigos, se divertindo. Fazendo coisas que qualquer adolescente normal faz. Mas ao invés disso ela está morando em uma casa caindo aos pedaços, tendo que dividir comida com mais 15 crianças esfomeadas. Sem pais. Sem amigos.

Sem família.

Esse pensamento toma conta de minha cabeça enquanto caminho para casa. Está escuro e frio do lado de fora. A rua está deserta, tranquila, por isso me permito relaxar um pouco. Amanhã tudo começa de novo.

Estou distraído quando no final da rua vejo um homem usando um sobretudo que cobre seu corpo inteiro. usa um capéu na cabeça e está parado na calçada. A noite é a amiga dos solitários.

Continuo caminhando em direção a pensão quando ouço o som de uma arma sendo engatilhada. Ergo meus olhos do chão em busca do homem que estava na esquina há 2 minutos atrás e que agora não está mais lá.

Burro. Como sou burro.

O mundo escurece quando sinto uma dor terrível em minha nuca.

Sinto minhas mãos amarradas atrás das costas e meus pés firmemente presos juntos. Estou em um cômodo escuro, com apenas uma lâmpada que brilha acima de minha cabeça. Um homem entra por uma porta no canto do quarto. O mesmo homem que estava parado feito uma estátua na esquina. Desgraçado.

– Sinceramente, se você quer dinheiro não é comigo que vai achar... – levo um tapa na cara antes de terminar a frase.

O homem me circula.

– Ah, fala sério. Isso aqui não é um filme não, você não sabe falar? – falo e no mesmo instante mordo a língua.

Não posso ver o rosto do homem. Ele está envolto em sombras.

Eu poderia jurar que ele é a própria sombra.

Uma batida na porta e então um homem alto entra e se move para a luz.

Perco o ar assim que o vejo.

Horrível. Não existe outra palavra para descreve-lo melhor. Seu rosto é enrugado, seu nariz, pontudo. Seus dentes são podres e o cheiro parece um chicote que me atinge no rosto. Os olhos são saltados para fora com um brilho maníaco, assassino. Não duvido que me comeria vivo sem pensar duas vezes.

– ora, ora – diz ele sorrindo – se não é o velho Dimitri!

Pela primeira vez estou sem palavras.

– Ah sim, — continua ele, juntando as mãos com unhas como garras. – você cresceu, não? Mas aos meus olhos parece o mesmo empregado patético de sempre.

Meu coração congela. Assim como o resto de meu corpo. E de minha mente.