White Walls
4 Capítulo 3
Notas iniciais
O sol aquece minha pele enquanto caminho tranquilamente em direção a feira no centro da cidade. As ruas estão começando a ficar cheias e a névoa da noite já se dissipou quase totalmente quando eu a vi.
Vinda das sombras como um gato, se escondendo da luz com um capuz cobrindo a cabeça. Os olhos fogem de um canto para o outro, desesperados, procurando por algo que não conseguem ver. Eles passam por mim mas, aparentemente, não demonstro perigo pois não demoram mais de 1 segundo antes de se virarem em outra direção.
Conheço bem o tipo. Uma mendiga. Sim, uma mendiga provavelmente. Ou algo do tipo. Muitas vezes já estive no mesmo lugar que ela, procurando por dinheiro ou comida. Solto um riso abafado e continuo meu caminho.
Em uma cidade grande, pessoas tentando se aproveitar de outras são extremamente comuns. Seguro a bolsa que pende de meu ombro mais apertado. Não posso perder o que demorei semanas para encontrar.
E lá está ela, na feira, a mesma mendiga que vi alguns minutos antes. Dessa vez ela está com um pão debaixo do braço e surrupiando uma maçã da banca de frutas próxima, enquanto o comerciante está distraído arrumando algumas caixas do outro lado.
– Ei! — eu grito.
Ela vira a cabeça rapidamente, pega com a boca na botija e, antes mesmo que eu possa pensar em dizer qualquer outra coisa, ela está correndo rua abaixo dentre uma multidão de pessoas.
. . .
Uma maldita multidão de pessoas.
Por mais rápida que eu tente ser sei que o homem vai me alcançar. Sei que ele vai chegar cada vez mais perto e mais perto e mais perto.
Não posso deixar isso acontecer.
Corro tropeçando pela calçada apinhada, empurrando pessoas que estão em meu caminho, tentando desesperadamente encontrar um lugar seguro longe dali.
Justo hoje. Justo hoje quando eu finalmente consigo uma comida descente. Uma maçã fresquinha é muito mais do que eu geralmente consigo pegar. Meu estômago ronca em resposta.
Enquanto estou correndo meu cérebro começa a raciocinar com mais clareza, sem o desespero inicial que senti, alguns segundos atrás.
Quase no fim da rua.
Ele não pode ser um Deles. Não se parecia com um. Sim, estava vestido com roupas pretas, mas seu jeito despreocupado não era de modo algum característico Deles. E ele havia falado. Isso nunca havia acontecido. Não, ele certamente não era um Deles. Não podia ser.
Ele falara.
Paro no fim da rua, no fim da feira. Não há quase ninguém aqui. Tento acalmar minha respiração. Meu coração bate descompassado. Sinto o suor se acumular nos cantos de minha cabeça, ainda encoberta pelo capuz.
Olho para trás. Como eu sou idiota.
Ele está correndo, correndo atrás de mim e está rindo. Como ele pode estar rindo?
Era impossível ele ser um Deles.
Meu coração para.
Meu coração
Para.
Algo estranho puxa meu peito para dentro e um turbilhão de lembranças afloram, vindas do fundo da minha mente. Do fundo do baú. Eu quase posso ver as teias de aranha que elas trazem junto.
Vestidos. Um salão de festas. Um salão enorme. Paredes brancas, quadros, tapeçarias, pessoas dançando, felizes.
Eu estou dançando.
Eu me sinto livre em meu vestido como se isso fosse certo. Como se isso fosse normal. E, ao meu lado, está um menino. Não está usando roupas chiques como todas as pessoas no salão, ele quase se parece com um... um...
Empregado.
Eu mergulho de volta para a realidade. O relógio parou. Eu nado de volta para o tempo presente, para o estranho que está me encarando.
E, por um momento, eu quase posso ver o mesmo reconhecimento que senti em seus olhos.
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