White Walls
3 Capítulo 2 - Abby
Não consegui dormir depois daquele pesadelo. Estou sentada no parapeito da janela quando o sol nasce, iluminando meu quarto. Pensando em como conseguir comida. Preciso correr se quero conseguir pelo menos um pão dormido nas feiras da cidade.
Prendo meu cabelo num rabo de cavalo alto e coloco o capuz de meu moletom. Sinto meu coração e meu estômago congelarem. Não sei se vou voltar. Não sei se vou conseguir comida. Não sei se eles irão aparecer.
Cada vez que o sol nasce novas incertezas nascem junto com ele. Tento pensar que é assim para todo mundo. Tento pensar que não é possível viver de certezas.
Mas seria mais fácil se fosse.
Desço as escadas fazendo os degraus velhos rangerem. Cuidadosamente, observo por um buraco num intricado de madeira e tábuas que tapam o que costumava ser uma grande porta. Ainda está um pouco escuro lá fora, apenas um ou dois trabalhadores saindo de suas casas. De seu conforto. De sua família.
De suas certezas.
Volto para dentro. Depois de todos esses anos, seria de se esperar que eu estivesse acostumada com isso. Mas não estou. E nem sei se algum dia irei estar.
Tento mais uma vez. Respiro fundo. Fecho as mãos. Abro as mãos. Saio pela pequena passagem escondida, discreta. Uma vez na rua, olho para os lados mas não há ninguém por perto. Com as mãos ainda tremendo, os flashbacks de meus pais voltando enquanto respiro o ar da rua eu corro. Corro e eles estão caindo e batendo no chão e eu não sei pra onde ir.
Preciso me controlar. Preciso me controlar.
Entro em um beco escuro e respiro. Uma. Duas. Três, quatro vezes. Tento me acalmar.
Eu posso fazer isso. Sei que posso.
Volto para a rua enquanto o sol aos poucos descongela meu estômago.
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