White Walls
11 Capítulo 10
Não consigo esquecer seu olhar de assustada antes de sair correndo. O que eu fiz de errado? É impossível esquecer as lembranças que sua mente plantou na minha.
Sera que ela se lembrava? Sera que sabia de seu passado?
Eu esperava que não.
Mas seria mais fácil se lembrasse.
...
Meu coração bate bate bate bate bate.
Meu coração bate contra meu corpo e não sei como fazê-lo parar. Por mais que eu tente dizer que não, eu gostaria muito de ter continuado naquele lugar, de ter entendido quem era aquele cara.
Aquele cara que eu agora sabia o nome.
Dimitri.
Dimitri tinha olhos e cabelos ambos castanhos. Tinha cílios compridos e era alto. Mais alto do que eu. De alguma forma toda essa imagem me fez... lembrar de algo mais. Eu tentava segurar com minhas mãos minúsculas de criança nas mãos de minha mãe. A multidão que nos cercava era imensa para uma noite fria de dezembro. Lembro de caos e terror. Lembro de medo. Mas não lembro para onde estávamos indo.
Memórias são tudo o que tenho agora.
...
Ao invés de ir para a pensão sigo caminhando sem rumo, pensando no que aconteceu ontem a noite. Pensando em como fui aceitar.
Tento dizer a mim mesmo que só fiz isso pelas crianças. Elas precisam de ajuda, e, para ajudá-las, preciso de dinheiro. Mas em algum lugar de minha mente, sinto que parte de mim só aceitou isso pela chance de voltar a vê-la após ter passado tanto tempo acreditando que estava morta. Preciso saber o que aconteceu com o resto da família. Seus pais. Se ela sobreviveu, eles também devem ter sobrevivido. E isso ocupa minha mente pelo resto do dia.
...
Acordo e todo o lado de fora está branco. O céu o chão as pessoas que passam na rua. Tudo é branco.
Está nevando.
Um sorriso nasce no meu rosto.
Visto minhas luvas velhas e meu gorro. Coloco meu casaco e botas de sempre e corro para fora pela primeira vez sem me preocupar em dias.
A neve geada cai em meu rosto como uma velha amiga.
Rodopio no meio da calçada. Sempre gostei de neve. Ela faz eu me sentir quase especial. Caio de cara no chão e percebo o quanto especial sou.
Levanto depressa e vou em direção a minha verdadeira amiga. A feira da cidade. Paro e mudo de direção quando vejo Dimitri vindo até mim do outro lado da rua.
De novo não...
– Ora, ora — ele fala, atravessando a rua — se não é minha grande amiga...
– Não sou sua amiga.
– Mas deveria ser. Aposto que sou o único com o qual você conversa.
Deixo um riso breve escapar. Você não imagina o quão certo está.
– Com fome? — ele pede, enquanto observa meu gorro.
– Precisamos esclarecer umas coisas — falo, erguendo as mãos.
– Certo.
– Primeiro...
– Vamos lá.
– Pare de me interromper.
– Se você prefere assim...
– Se você quer ser mesmo meu amigo, vai ter que entender uma coisa: você fica do seu lado e eu do meu. — como ele não fala nada, continuo — Isso quer dizer que se quiser me trazer comida é livre. Mas não deve me tratar como coitadinha. Ou querer saber muitos detalhes sobre minha vida.
Ele fala com um sorriso:
– Por mim tudo bem...
– Ótimo.
– Ótimo — ele diz e tira mais um prato de dentro da bolsa. Dessa vez o cheiro é melhor ainda.
...
Ela pega o prato de minhas mãos sem mesmo pedir licença.
Abre a ampa laminada e se senta no cordão da rua. Me sento ao seu lado.
Afasto com a mão uma mexa de seu cabelo que ameaçava cair no prato. Ela me olha perigosamente pelo canto dos olhos.
– Que foi? — pergunto.
– Não toque em mim.
– Ah, desculpe mas eu só... — um olhar de puro terror em seu rosto me faz parar. Ela olha fixamente atrás de mim. Quando viro para trás, dou de cara com o cano de uma arma apontando em nossa direção.
Fale com o autor