White Walls
2 Capítulo 1 - Abby
Acordei assustada com o barulho de um raio. O mesmo pesadelo. O mesmo maldito pesadelo.
Quando tudo isso começou a acontecer? Eu costumava ter sonhos bons como toda pessoa normal, mas de uma hora para outra eles sumiram. Se dissiparam em nevoa escura e fria e no lugar de sonhos felizes e coloridos, um único pesadelo frio e sombrio ficou no lugar.
Gostaria de saber o que ele significa. Mas como seria possível? Tudo nele é falso. É uma mentira. Eu, lutando por alguma coisa, lutando por amigos?
Eu não tenho amigos, lembrei a mim mesma. Eles me deixaram para trás quando as coisas estranhas começaram a acontecer. Coisas como ser perseguida por homens desconhecidos, vestidos de preto e armados. Perseguida por todos os lugares. Esses homens sabiam. Eles sentiam quando eu estava para chegar e apareciam. Não sei como, mas eles apareciam. E desapareciam com a mesma facilidade.
Surgiam de névoas escuras e fedorentas do nada. Em uma hora, a rua estava deserta, e na outra, eles estavam lá, apontando suas armas geladas para mim, para meus antigos amigos. Meus antigos amigos que corriam o mais rápido possível, sem se importar em como eu estava, em como iria ficar. Sem se importar se eu iria sobreviver.
Mas eu não podia culpa-los. Se estivesse em seu lugar faria a mesma coisa, penso. E isso me assusta.
Tomo coragem e levanto da cama. Foi só um sonho, tento me tranquilizar. Sem sucesso.
Meu coração ainda bate descompassado enquanto desço as escadas para a cozinha. Moro em um orfanato desde que consigo lembrar. Na verdade, me escondo em um orfanato abandonado desde que consigo lembrar. Ninguém mora aqui. Ninguém além de mim.
Pego um pouco de agua na pia da cozinha e tento ficar calma. Mas é difícil. É difícil quando não posso sair daqui sem correr o risco de morrer. E é difícil sair quando não sei se vou voltar.
Imagens surgem como em um flashback na minha cabeça. Meus pais. Meus pais perseguidos pelos mesmos homens que hoje me perseguem. O medo. A dor. Tudo isso não é novidade para mim.
Eu os vi morrer quando era muito pequena. De alguma forma, isso e os sentimentos ruins são a única coisa que consigo me lembrar de minha infância. Pessoas de 17 anos deviam se lembrar de mais coisas do que isso, não deviam? Eu não sei.
Passos rápidos se tornando em uma corrida perigosa. Ainda consigo ouvir minha mãe gritando para eu fugir, implorando para eu me esconder. E eu o fiz. Estava assustada com tudo aquilo, afinal, aqueles homens nunca haviam chegado tão longe ao ponto de encostarem suas armas na cabeça de meus pais. Eu fui mais rápida do que eles pensavam.
Enquanto corria para longe daquela cena de terror ouvi minha mãe gritando meu nome no vazio.
“Abby!”
E o som. O som ensurdecedor que decretou o fim de tudo o que eu conhecia de bom no mundo.
O som de duas armas sendo engatilhadas.
Eu consegui olhar para meus pais a tempo de vê-los batendo no asfalto gelado.
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