White Summer
1 Piloto
Eu sempre achei muito legal a forma como as pessoas investigam, interpretam e até justificam mundos, dimensões, paralelos além do que conhecemos de verdade. Algumas dessas pessoas sabem explicar tão bem como haveria um céu, um inferno, um limbo, um purgatório, um nirvana, um valhalla, que é quase um dom... enfim, qualquer lugar que esteja nos esperando depois da vida. E chega a ser fofo também como muitos afirmam que nada disso existe... pessoas assim são como crianças que acham que de dia as estrelas não existem só porque são incapazes de vê-las. Eu gostaria que pessoas assim pudessem ver o que eu vejo.
No começo foi muito assustador. Achei que tivesse sido jogado para fora de meu mundo e eu senti muito frio. Era estranho estar ali, sem conseguir me localizar, sem reconhecer ninguém, sem ao menos saber como voltar. Cheguei a pensar que estava louco e tentei contar para meus pais [e também ao psicólogo que me fizeram visitar], no fim disseram que eu era muito imaginativo e perceptivo, e que não deveria mais continuar andando de olhos fechados. Me sinto mal por eles só conseguirem enxergar com os olhos do meio da cara, mas muitas coisas desse mundo só acreditamos vendo [e às vezes nem isso é o suficiente para nos convencer], mesmo assim, de alguma forma recebi um dom, e tenho praticado ao longo desses anos.
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-Julie?
-Sim?
-Como acha que seria o mundo se pudéssemos ver as pessoas por dentro?
-Nojento! ... *pensa*... mais nojento...
-Não acha que tenham pessoas que possam se bonitas por dentro?
-Acho que todos são vermelhos do mesmo jeito...
-Entendo...(ela não deve ter entendido o que quis dizer).
∞
Lembro-me de um dia, não ocorreu nada de particular [que pudesse contar aos outros], mas me marcou pelo que vi em segredo. No meio do ginásio da escola, estávamos em infinitas fileiras de cadeiras frente a um pequeno palco com um homenzinho careca falando sobre como deveríamos viver... palestras sempre eram chatas e os que faziam perguntas só queriam alguns pontos bônus para compor a nota de filosofia e sociologia. Percebia-se pela idioticidade das perguntas [sim! Eu crio palavras, engula isso!], tentar ludibriar um filósofo sobre um assunto que ele passou anos estudando, principalmente quando quem pergunta é um adolescente revoltado, pode tirar ele do sério, e foi o que aconteceu... por causa de um estudante engraçadinho que perguntou “se não tivermos os pobres para trabalhar e manter nossas ruas limpas, o que vamos fazer?” [rude, não?], ficamos mais uma eternidade ouvindo sobre algumacoisaLândia e carros que limpam sozinhos... se não me engano... *pensativo* ...BOM! Não era isso de que me lembrava para contar. Na verdade, aconteceu depois que aquele homenzinho careca, já muito suado e vermelho de raiva por algum motivo, saiu do pequeno palco e se sentou. Um homem cabeludo e cacheado subiu e suas cinco primeiras palavras prenderam minha atenção... “Você enxerga diferente dos outros?...”. Quando eu notei que tinha um ser humano interessante lá, aquela pessoa falou com uma tranquilidade e uma certeza que me tocou de uma forma que eu nunca me esqueci, suas palavras pareciam de sabedoria de um monge [hippie] e no momento que mencionou que o mundo precisaria de cada um de nós e nossos pontos de vista para se tornar um lugar que realmente sentíssemos como um lar, eu calmamente fechei meus olhos e tudo ficou em silêncio...
O ginásio se tornou uma caixa branca e gelada e tinham mil bolhas cinzas flutuando atrás de mim, dez mil bolhas cinzas flutuando a minha frente, e lá na frente, acima de todos, havia uma bolha maior e amarela, quase dourada, como uma grande gema, e era tão agradável aos olhos! Era como um sol que me esquentava naquele grande cômodo... ao fim daquele dia voltei para casa, em silêncio, arranquei minhas roupas da escola, e caí na cama. Pensei em fechar os olhos mas decidi me enrolar no cobertor antes, então os fechei e fiquei lá observando flocos de neve caindo em meu rosto, ouvindo o som do vento forte passar pelos furos da parede. Nenhum outro dia foi tão relaxante ficar naquele estado.
∞
-E você, Lucas?
-Se desse para ver dentro da roupa das pessoas, seria tanto uma maldição quanto uma bênção. Eu teria que escolher bem para onde olhar...
-Nunca dá para falar sério com você...
-Você sempre fala isso!
-...
-Runf!...
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