White Ghost
1 8 Anos Atrás
- Eu não consigo! – eu disse inspirado pela minha baixa autoestima. – Já sei que não consigo aprender magia, não adianta insistir.
- O que te faz pensar que não consegue pensar Ren-chan? – o velhote com uma barba longa e branca que eu chamava de avô me perguntara enquanto esticava seu braço para puxar a linha de magia que formava seu arco. – Muitos magos começaram tarde. Você é muito novo. – ele deu aquela risada engraçada dele e me deu uns tapinhas na cabeça depois de atirar a flecha no alvo (de olhos fechados), gesto comum e carinhoso.
- Não consigo Kazumi-sensei. Só isso. Todo esse trabalho para nada. – eu disse chutando uma pedrinha do quintal de nossa casa. – Aquela velha nariguda me disse, lembra? Quando nós estávamos voltando daquele trabalho.
- Ah. Sim. Me lembro bem. – ele respirou fundo e caminhou tão lentamente para a ponte do jardim que esqueci de terminar a história, somente quando ele começou a falar novamente que me lembrei do que eu estava falando. – Mas aquela velhota não sabe o que diz. Ela é uma antiga mestra da nossa guilda inimiga. – respirou fundo de novo e pulou tão rápido para o campo de treino que eu me perdi no meio da ponte. Tive que voltar correndo. – Gente como ela não sabe reconhecer um mago forte quando vê um.
- Não acho que você esteja certo vovô!
- Muito bem, muito bem, chega de histórias e vamos voltar pro treino. Tome. Pegue seu kimono e ataque o boneco de palha com tudo o que tem. Vou usar uma Flecha Lenta. Tente acompanhar o ritmo dela!
- Certo. Entendi. – e me virei para a árvore no lado oposto da ponte.
- Mas você não poderá atravessar a ponte. Tenha cuidado para não molhar seu kimono. Os tempos de sol estão em falta para secar e você vai precisar dele amanhã.
Olhei atônito para o velhote com um roupão florido e brega e então ele desparou a flecha que ia tão rápido quanto uma pessoa correndo. O alvo mágico (a mira de Kazumi-sensei) estava flutuando pra cima e pra baixo o mais rápido que a própria flecha. Eu corria para acompanhar sua velocidade, preparei o soco que ia dar no boneco de palha do outro lado do riacho que cortava nosso jardim e então, ao dar um pulo, algo, ou alguém me puxou para trás.
- VOVÔ!
- Ren-chan. Analise bem o seu ritmo, seu terreno e seu inimigo.
Olhei para a flecha que em instantes ia atingir o... espantalho?!
- Essa foi por pouco! – eu disse enfim.
- Você está muito distraído hoje Ren-chan. O que houve?
- Kazumi-sensei... eu quero mesmo aprender magia. Mas não consigo tirar a velha da minha cabeça. — Fechei os olhos e deixei minhas lágrimas escorrerem enquanto ouvia e via em minha mente a cena da velhota.
“Esse trabalho foi fácil né vovô? Lembra daquele soco que dei na porta pra te ajudar a derrubar a porta?” eu dissera pra ele. “Um dia você vai ser muito mais forte que esse soco Ren-chan.” ele respondera gargalhando enquanto carregava nossos jewels num saquinho. “Um dia eu quero ser um mago igual ao senhor vovô!” e então aquelas risadas agudas de gelar a alma da velhota da guilda inimiga. “Você? Um mago igual ao fracote do seu avô?” ela dissera curvando sua cara feia e pontuda pra mim. O cabelo emaranhando preso num coque por dois palitinhos feios e velhos e o bafo de quem comera peixe cru e não escovara os dentes. “Você nunca vai ser igual a ele queridinho. Você nunca vai conseguir fazer magia!” e mais uma risada maléfica e eu comecei a chorar? Como alguém pode conseguir estragar sua felicidade e arruinar seus sonhos tão rápido quanto uma Flecha Rápida do vovô? Eu era fraco. O velhote passou a mão magra na minha cabeça e olhou feio para a velha que mostrou a língua e saiu dali rindo. Vovô muito paciente, não disse nada além de “vamos mostrar pra ela que ela está errada, Ren-chan!”, mas eu estava muito ocupado chorando pra falar qualquer coisa.
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