White Christmas

1 Natal em branco.


Notas iniciais
É uma fanfic oneshot que eu estou planejando há meses, mas a época necessária para postá-la só chegou agora :}

Já olhou pro calendário? Hoje é dia 25 de dezembro. De acordo com um livro de capa negra que está mofando na prateleira mais alta do meu quarto, um menino, nesta mesma data há poucos milhares de anos, nasceu de uma virgem. Graças a ele, anualmente temos de nos reunir com pessoas desagradáveis e desejá-las um dia feliz e um próspero ano novo, embora no fundo torçamos pelo contrário.

Felizmente, não há nenhuma pessoa desagradável aqui para me desejar um feliz Natal com suas palavras vazias. E eu também estou bem longe da tal prateleira do quarto, e do meu quarto, e da casa onde fica meu quarto, e da rua onde fica minha casa. Estou no hospital do bairro, um lugarzinho deprimido e que cheira a álcool em gel. Os únicos que estão aqui para me desejar um feliz Natal são as enfermeiras gordas e as quatro paredes brancas que me cercam. Acho que, inicialmente, o chão era branco também, mas está quase preto de tantos pés que já pisaram aqui.

Vejo pela janela que lá fora neva. E há um bocado de neve se acumulando nas janelas também. Ver a neve lá, rebolando pelos ares até se espatifar e virar água, me faz pensar em como tudo isso é fútil. Tá, alguém nasceu há 2000 anos, e temos de comemorar. É isso? Os flocos de neve não estão comemorando. Creio que as nuvens também não, já que estão tão escuras quanto o chão. O pessoal que está morrendo e perdendo seus lares na televisão também não parece estar dando festa.

E os africanos arrumando treta com as diferenças de etnias? Acho que eles nem sequer ouviram falar do tal menino nascido há muito tempo. Nem os índios, que estão fazendo alguma dança da chuva neste exato momento. Quando paro pra pensar que há mais de 7 bilhões de vidas, sem contar com os animais, vivendo e chorando e morrendo lá fora, enquanto estou deitado e dopado nesta cama branca e fria, percebo como um nascimento milenar é insignificante. O menino nasceu, cresceu e morreu, mas isso não mudou o rumo das coisas. Morte, tragédia, alguns momentos de felicidade e então o ciclo recomeça. Se é assim, por que considerar o dia de hoje tão especial e esperançoso? Há uma árvore de natal do tamanho de um monitor na escrivaninha ao meu lado, e de acordo com as vendedoras da televisão, ela devia transmitir a esperança, a paz e a felicidade com esse monte de luzes e enfeites. Não sinto nada disso. Só depressão, frio, fome e talvez um pouco de satisfação.

De acordo com uma das enfermeiras gordas que vêm trocar o soro, eu estou sozinho. De acordo com ela, uma onda grande e forte detonou a minha casa e carregou minha família. Talvez ela diga a verdade, já que não há ninguém à minha direita ou esquerda. Que merda. Sozinho, recentemente encharcado por água do mar, e dopado em pleno Natal. Opa! Ouviu aquilo? É a ambulância. Faz algumas horas que não param de chegar ambulâncias. A enfermeira obesa só disse que eu me perdi do pai e da mãe e da chatinha da minha irmã, mas não disse se eles morreram. Talvez mamãe e papai estejam discutindo sobre a ceia de Natal que a água salgada com certeza estragou, enquanto minha irmã berra por algum doce. Espero que os caras da ambulância tenham paciência com eles da mesma forma que eu tenho.

Ah, uma das enfermeiras enormes entrou no meu quarto agora. Por força do hábito, eu sempre ergo meu braço pra ela enfiar a agulha. Mas nem sinto muita dor, de tão dopado que estou. É como se meu braço estivesse congelando de tão frio, mas eu ainda o movo, e já é o suficiente. Aí você se pergunta: Pra quê dopar tanto o nosso pobre narrador? Bem, acontece que, de acordo com um médico que eu só vi uma vez enquanto estava na maca, eu estava em estado gravíssimo. Sim... eu me lembro. Ele berrava pro pessoal: O que é isso? E ele continua vivo? . Um homem qualquer que me carregou na maca berrou de volta: É um pedaço de madeira! Deve ser de uma árvore ou um destroç... sim! Ele tá vivo! Leva ele logo pra uma cirurgia, porra! Ele tá vivo!. Eu ainda dou risadinhas doloridas quando lembro desse desesperado que me carregava. Sem esse monte de anestésicos, eu estaria me contorcendo de dor de cabeça, já que uma maldita madeira entrou direto no meu crânio quando eu bati em qualquer coisa que a água carregava.

Pode chamar alguma das enfermeiras gordas, por favor? É que a dor está voltando. Nem ouse me ignorar. Obrigado. Enquanto ela não chega, eu te conto sobre uma história que a mamãe me contava quase todo dia, quando eu lhe perguntava o motivo de nevar e fazer tanto frio na Europa. De acordo com a mamãe, no norte mora um cara chamado Jack. Jack é a personificação do inverno, e por onde ele passa, faz muito frio e neva muito. Ele faz nossos dedinhos e nossos narizinhos ficarem vermelhos e ardentes com o frio maldito, mas de vez em quando é bonzinho e faz uns lagos congelarem para as crianças patinarem. E desenha nas janelas. Será que ele vai desenhar nessa janela horrorosa ao meu lado? Eu duvido. Ele só aparece pra quem crê nele, e eu passo longe disso. Assim como não acredito no Papai Noel, no Bicho Papão, na Fada dos Dentes, no Coelho da Páscoa, no Peter Pan, na Sininho... da mesma forma que não creio em você. Não pode ser real. Ninguém vem me visitar. Ninguém quer ouvir minhas histórias. Você é ninguém. Devo estar tendo alucinações por causa das drogas que eles apelidam de "anestésico".

Ah, olhe lá. É a enfermeira chegando. Opa, tem mais um cara com ela... é o tio que berrava palavrões! Que saudade. Vamos, berre algo para me fazer rir! Digo, eu riria se minha boca não estivesse tão dolorida. Mal posso movê-la para dizer oi. Claramente trazem notícias, então desembuchem logo.

.... puxa. Ouviu o que eles disseram? Não? Idiota, você nunca ouve o que eles dizem. Peça para te internarem também, talvez você fique na cama do lado e aprenda a ouvir o papo das enfermeiras. Eles disseram que acharam o corpo da mamãe e do papai boiando perto de algum rio. Minha mana está viva, mas em estado grave, assim como eu. E, como eu ainda sou de menor, vão mandá-la pra um orfanato quando ela receber alta. Que trágico, não? Separados pela morte e pelo juíz. Espero que deem doces para ela.

Ah... a dro... anestesia está fazendo efeito. Sim... a dor está passando... tá tudo esfumaçado... mas me diga, pessoa estranha... o que faz aqui? Ninguém vem me visitar. Ninguém ouve minhas histórias... Você parece interessado. Ali, olha lá? Pra eu poder te contar o que está havendo aqui... precisa saber a data...

Já olhou pro calendário? Sim... Hoje é dia 25 de dezembro. Há um livro de capa negra criando mofo na prateleira alta do meu quarto que diz o seguinte...

Notas finais
Feliz Natal e um próspero ano novo a todos.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!