Como sentia falta do Salão Comunal de sua casa! O azul e dourado das paredes a reconfortavam. Era dolorido pensar que seria seu último ano ali, tinhas tantas boas lembranças do lugar que, se pudesse, reviveria tudo novamente.

Os calouros da Corvinal já estavam amontoados no meio do salão admirando a beleza e elegância da decoração e mal ouvindo o que o monitor tinha a dizer. Os outros vinham chegando aos poucos e enchendo o lugar de conversas e risos. Nina se sentou no parapeito de uma das janelas e deixou os olhos percorrerem as montanhas no horizonte que se mesclavam com as cores do céu noturno.

– Matando a saudade?

Ela quase saltou com o susto e riu em seguida. Maurice se sentou ao seu lado e soltou o ar ruidosamente.

– Vou sentir saudades daqui. – ela murmurou sem desviar a atenção da paisagem.

– Eu sei, também vou. Não queria deixar Hogwarts e as lembranças dos meus melhores anos. – encostou a cabeça no vidro e fitou o perfil da amiga. – Bom, mas você não precisa se preocupar tanto com isso, tenho certeza que conseguirá se tornar professora!

O assunto caiu como uma pedra entre os dois, fazendo-os lembrar da pequena discussão no trem e tornando o clima tenso.

Desde o terceiro ano Nina e Maurice tinham um sonho em comum: se tornarem aurores. Eles não queriam que uma profissão separasse a amizade que tinham, e pensar em trabalhar para o Ministério juntos os fazia abrir os dentes. Fizeram até uma pequena promessa de que era isso que se tornariam quando acabassem os estudos, por mais difícil que fosse alcançar a profissão. Mas foi no início do ano passado, quando eram sextanistas, que os sonhos mudaram.

O último professor de Defesa Contra as Artes das Trevas pedira aposentadoria porque não suportava mais lidar com crianças e queria viajar o mundo, coisa que nunca teve tempo de fazer antes. Seu cargo logo foi ocupado por um professor mais novo: Jon Selvig. Alto e largo de rosto triangular, queixo pontudo, barba fina e falha e lábios bem vermelhos. No dia seguinte seu nome já estava soando por todos os cantos e, principalmente, pelas bocas femininas. Quase todas as garotas do castelo ficaram apaixonadas pelo novo professor e Nina não era uma exceção. A diferença era que, após duas semanas quando o professor já deixara de ser novidade, ao contrário das outras alunas, ela continuava se sentindo diferente. E não era por causa do cabelo bem cortado dele que caía na testa ou de seus olhos pequenos o faziam parecer um filhotinho que chamava a sua atenção para ele. Nina se derretia mesmo nos pequenos detalhes dele: seu sorriso tímido e o leve recorte no queixo, a sonoridade suave da sua voz e a coloração de sua pele pálida.

A paixonite que nunca tivera por nenhum outro garoto, teve pelo professor e isso mudou completamente suas visões para o futuro. Queria desesperadamente imaginar um futuro onde aqueles olhos dóceis poderiam ser vistos diariamente. Seu sonho em tornar-se auror dera lugar a vontade de ser professora em Hogwarts, onde nunca mais deixaria de estar perto de Selvig. Uma vontade extremamente infantil e boba da parte da garota, mas que nunca deixou de existir. No dia em que contou seu novo plano para o melhor amigo, ele não compreendeu o porquê a garota subitamente mudara de ideia. Nina nunca explicou à Maurice, sabia que ele a julgaria tola e ingênua.

– Você tá bem? – a voz amigável dele soou mais perto do seu ouvido e ela balançou a cabeça para despertar dos pensamentos.

– Eu... – ela respirou fundo e finalmente olhou nos olhos dele. – Maurice, eu nunca me desculpei...

– Pelo o quê?

– Por ter desfeito a nossa promessa.

– Ah. – ele abaixou a cabeça e balançou os joelhos. – Eu já disse que está tudo bem. Não posso lhe impedir de ser o que quer.

– E se eu também quiser ser auror?

– Você quer? – seus olhos brilharam para ela como dois topázios polidos.

– Nunca deixei de querer.

– E o que tanto faz você querer ser professora? Todos nós temos que deixar Hogwarts um dia! Não é possível que você... – ele se cortou quando percebeu que sua voz começava a ficar mais aguda e algumas pessoas olharam para trás.

– Que eu o quê?

– Esquece. – ele suspirou. – Desculpe.

– Maurice?

Ele não disse mais nenhuma palavra, deu as costas e saiu em passos largos para o dormitório masculino. Nina engoliu o nó que se formou na garganta durante a conversa e também foi se refugiar no seu dormitório. Trocou-se rapidamente e se jogou embaixo da colcha felpuda. O travesseiro parecia nuvem e fez seus olhos se fecharem lentamente e sua respiração se acalmar. No momento nada era mais confortável que sua cama e a luz prateada da lua clareando o dormitório. Cochilou de cansaço por, provavelmente, uma hora, porque quando abriu os olhos todas as camas estavam ocupadas e o silêncio reinava.

Não conseguiu dormir mais, então levantou-se, enrolou a capa negra no corpo e desceu até o salão para aproveitar o calor da lareira. Sua cabeça latejava e não conseguia parar os pensamentos que iam de sua preocupação com Maurice até a vontade de rever Jon mais de perto. Será que ainda se lembraria dela? Depois dos meses de férias, será que não teria ele arranjado uma namorada? Ouviu falar que ele passou as férias de verão na costa, em Brighton, mas não teria sido esse o mesmo destino da professora Dorsey? A vontade de vê-lo era maior, mas resolveu escrever. Buscou papel, tinta e pena e deitou de bruços ao lado do fogo para sentir o calor aquecer as bochechas.

Querido professor Selvig,

Não sei se depois de todo esse tempo ainda se lembra de mim ou de tudo o que lhe disse no final do meu sexto ano antes das férias começarem. Sei que fui imprudente e tola, mas fui sincera. Só gostaria de ter recebido uma resposta, mesmo que negativa. Não sei...

Enfim, não importa mesmo. Quero apenas que souiba que senti saudades e temi que o senhor nunca mais regressasse à Hogwarts, por qualquer motivo que fosse. É muito bom revê-lo.

Espero que tenha tido boas férias, sua pele está mais corada! E bonita.

Com carinho,

N.

Selou a carta e a guardou no bolso da capa. Voltou ao dormitório para ter certeza que todas dormiam e saiu para o castelo silenciosamente, quase sem pensar muito na sua falta de prudência. Andou na ponta dos pés descendo até as masmorras do castelo, tentando evitar a claridade das tochas e apurando o ouvido para qualquer ruído. Durante o trajeto se assustou algumas vezes com sua própria sombra e baques que ela mesma fazia.

Se aproximou devagar da sala de D.C.A.T. mantendo-se escondida no escuro, chegou bem perto da porta e ficou atrás de uma pilastra grossa e quase deu um passo em direção à sala, mas a porta abriu-se e de lá saiu Eliza Dorsey com olhos curiosos que rondavam todos os lados. Ela parecia ainda mais bonita no vestido de veludo preto que vestia, o cabelo preso deixava os ombros magros à mostra e o pescoço fino carregando uma pedra dourada. O rosto parecia ter ganhado um pouco de cor com uma delicada maquiagem cinza nos olhos e pêssego nos lábios. Ela fechou a porta atrás de si sem fazer barulho e Nina prendeu a respiração sentindo as pernas tremendo de frio, medo e fraqueza – estava de cócoras e sentia as coxas começando a doer. A professora passou tão perto da pilastra que a garota quase sentiu sua pulsação parar e o sangue gelar. Se fosse vista ali, com certeza ganharia detenção da professora. E se achassem sua carta... Não queria nem imaginar.

Depois que Eliza virou a esquina ela voltar a respirar e decidiu que voltaria correndo para o dormitório. Não entregaria a carta. Estava tão óbvio! A professora estava linda e tinha acabado de sair da sala de Selvig com olhos que não paravam quietos. Com certeza não queria ser vista, já que sua fama com relação aos homens já não era as melhores.

Nina ia dar meia-volta nos calcanhares, mas congelou feito estátua quando sentiu algo gelado tocar-lhe a bochecha. O coração estava batendo tão acelerado que era quase possível ouvi-lo a dez metros dali. Virou-se lentamente para a direita e enxergou um focinho longo e um par de olhos muito intensos. Queria gritar – não importa se ficasse em detenção –, mas a voz não saía do peito. Tropeçou nos próprios pés e caiu no chão batendo as costas do mármore frio. Sentiu doer as omoplatas, mas apressou as pernas para sair correndo dali – literalmente –, mas infelizmente não foi mais rápida que o cachorro. Ele a encurralou no chão com suas patas enormes de Husky em cada lado dos ombros da menina, os olhos brilhantes focados nos dela e os dentes à mostra prontos para morder. Nina fechou os olhos com força e sua mão direita apalpava loucamente o bolso à procura de sua varinha, e procurou rapidamente na mente um feitiço que espantasse o cachorro, mas não o machucasse, acabou não precisando pensar muito além.

O cachorro parecia rir com voz humana e não com latidos, grunhidos ou algo do tipo. Ela abriu um olho antes do outro, bem devagar e tomou um susto maior ainda que fez o coração dar uma cambalhota no peito: o cachorro tinha se transformado no professor Selvig! E Jon Selvig estava ali na mesma posição do cachorro: de quatro encima de Nina, o rosto mais perto do que nunca estivera antes. Ela quase desmaiou ali mesmo. Desmaiaria, com certeza, se o professor estivesse nu, mas ele tinha suas roupas coladas ao corpo.

– Perdão! – ele segurou a risada e se levantou num pulo, estendendo a mão para a aluna. – Mas você deveria ter visto a cara que fez quando... – ele franziu o cenho. – O que a senhorita está fazendo fora da cama à essa hora?

– E-E-Eu? – gaguejou tanto quanto as suas pernas tremiam. – Caramba! Eu tinha esquecido que o senhor era animago!

– Senhorita Gregor, por que está fora do dormitório?

– Desculpe. – ela abaixou a cabeça e se encolheu embaixo da capa. – Eu... Eu só...

– Sim?

– O que o senhor estava fazendo aí? Eu poderia ter gritado!

Ele revirou os olhos percebendo que a garota fugia à sua pergunta.

– Bem, você estaria mais encrencada que eu, certamente. – ele cruzou os braços. – E eu só estava... Estava me escondendo da professora Dorsey.

– Se escondendo? – foi a vez da garota franzir a testa. – Eu pensei que ela tinha acabado de sair da sua sala.

– E saiu. Ela estava me procurando, mas eu não estava lá, então me transformei quando a vi. – ele parou de falar mais uma vez e espiou a garota de cima a baixo com aqueles olhos azuis idênticos aos do cão. – Volte logo para seu dormitório antes que mais alguém te veja.

– O senhor... Não vai contar para ninguém?

– Não.

Ela sorriu e deu as costas para correr de volta ao Salão Comunal, mas sentiu algo cair do seu bolso e se virou para pegar, mas já estava nas mãos do professor e seus olhos já corriam pelas poucas linhas. Suas mãos começaram a tremer de medo e vergonha. Tinha escrito para ele, obviamente, mas de última hora decidira não entregar à sua porta. Era tão constrangedor! E se fosse para que ele lesse, certamente não queria estar presente para ver seu rosto sério olhando para ela e suas mãos... Suas mãos guardando a carta no seu bolso interno do casaco?

– Professor... – a voz dela saiu rouca e baixa roçando a garganta como se não tivesse falado em anos.

– Sim, minhas férias foram muito boas, senhorita Robble. – seu rosto ainda estava sério, a boca não fazia nem uma curva sequer. – Agora... – ele levantou o braço apontando para o fim do corredor. – Para o seu quaro, por favor.

Ela assentiu com a cabeça devagar e finalmente deu as costas para sair com passos curtos e rápidos. No meio do ruído da sola das pantufas no chão pensou ter ouvido um sussurro do professor que soara como um tilintar suave. Também senti saudades... Ela olhou para trás por um segundo sem parar de andar, mas ele não estava mais lá e só restara a escuridão. Sua cabeça já estava criando ilusões provavelmente pelos sustos que passara e pelo cansaço que tomava seu corpo. Chegou na torre oeste do castelo e caiu na cama sem pensar duas vezes.