Levou cerca de duas horas para as luzes abaixarem e os alunos se dispersarem pelo castelo. Nina já tinha ouvido toda a história das irmãs e ficara levemente arrependida por nunca ter dado espaço para as duas entrarem em seu círculo de amizade – que nem mesmo era um círculo, na verdade. E enquanto ouvia as meninas acabou deixando seus olhos curiosos percorrerem a mesa dos professores e em nenhum momento achou Jon por lá.

Às quase dez da noite subiram todas para o Salão Comunal, as irmãs ainda davam palpites com relação ao desentendimento de Nina e Maurice, mas logo se despediram para dormir. A garota se deitou ainda vestida e não conseguiu fechar os olhos por nenhum minuto. As horas se arrastavam lentamente e ela ficava mais impaciente a cada minuto, tentava fazer de tudo para não pensar no que viria a acontecer dali a pouco tempo, mas não conseguia controlar a imaginação. Estava gelada por dentro e sua colcha não conseguia a aquecer. A mão direita estava fechada em punho guardando o pedacinho de papel.

Quando ouviu as badaladas da meia-noite sentiu todo o seu corpo revirar por dentro, o incômodo no estômago era tão grande que ela quase confundira com uma má digestão. Se levantou num pulo mal conseguindo conter os barulhos que seu pé fazia no chão, desceu ao salão e olhou o papelzinho uma última vez e jogou-o no fogo. No silêncio do início da madrugada desceu para as masmorras, fazendo a mesma rota da noite anterior, tomando cautela em não ser vista pelo zelador, algum professor ou mesmo por um dos fantasmas do castelo.

Chegou a porta da sala de DCAT e não sabia o que fazer. Bateria à porta? E se houvesse o perigo de ser atendida pela professora Dorsey? Que desculpa teria para aquilo? Não foi preciso se preocupar. Ela mal acabara de respirar fundo e ele apareceu para atende-la.

– Pensei que não viria. – sua voz era sempre tão suave que parecia estar sempre sussurrando. – Entre, por favor.

A sala era a mesma de sempre, escura e abafada, mas ele continuou a andar para o fundo e ela o acompanhou. Subiram ao segundo andar ao escritório do professor e ela quase saltou de susto com o baque que a porta pesada fez ao fechar-se sozinha. Olhou ao redor. Não era muito grande nem muito pequeno e estava bem vazio para um escritório, mas parecia aconchegante e tinha uma temperatura amena mesmo sendo uma sala sem lareira. A decoração era muito simples e tão escura quanto a sala de aula.

– Alguém sabe que você veio aqui? Alguém a viu? – ele puxou a cadeira e acenou para ela sentar-se à sua frente.

– Não.

– Ótimo. – ele fez uma pausa e soltou todo o ar dos pulmões. – Nina...

Ela franziu a testa juntando as sobrancelhas negras. Nunca a chamara pelo primeiro nome. Outros professores sim, mas Jon nunca.

– Nina, o que está fazendo?

– Desculpe. – ela continuou com a mesma expressão. – Como?

– Você! – ele alterou o tom de voz subitamente, assustando-a. – Quão louca você é?

– Professor!

– Você manteve sentimentos por mim durante um ano! De repente encontro nas minhas coisas uma carta de duas páginas de declaração... vinda de uma aluna! – sua voz soou debochada e Nina sentiu o rosto esquentar.

No último mês de aula, após um ano se apaixonando cada dia mais por ele, decidira escrever tudo o que pensava, tudo o que passara pela sua cabeça durante aquele ano. Sempre se sentia melhor e mais leve escrevendo e, apesar de não ter sido sua primeira intenção, optou em deixar a carta escondida entre alguns livros na mesa do professor, imaginando que, apesar da vergonha que sentiria, o lugar mais seguro para suas palavras era nas mãos dele.

– Professor Selvig, – sua voz estava estranha como se algo arranhasse sua garganta, mas seu peito batia muito rápido e ela sentia que se não dissesse tudo naquele momento ela nunca mais teria a coragem de dizer. – não foi uma carta de declaração ou brincadeira! Eram sentimentos que eu não queria mais guardar só para mim, eu precisava escrevê-los. Se o senhor achou a maior bobeira receber uma carta de uma aluna, não poderia simplesmente jogá-la fora ou queimar? Por que a guardou e ficou me tratando de modo tão estranho nas aulas finais? E por que está me chamando aqui hoje? Você não pode me fazer deixar de gostar de você e eu não preciso que o senhor me chame aqui para rir de mim e me chamar de louca!

Ele ouviu tudo de cabeça baixa com as mãos nos cabelos e os cotovelos apoiados na mesa. Seus olhos se ergueram quando ela parou a fala e eles pareciam, pela primeira vez, assustadores. Ele parecia analisa-la por cada centímetro. Na verdade, parecia ter tomado outra personalidade, parecia outro. O rosto, sempre com uma expressão suave, parecia obscuro e indecifrável. Ela estremeceu mal podendo desviar seus olhos dos dele e foi se sentindo cada vez mais desconfortável com o silêncio da sala, decidiu quebra-lo, mas com a voz mais baixa e delicada.

– Eu não te pedi nada. Eu já esperava que você ignorasse a carta e talvez risse da minha infantilidade, mas não na minha cara... Eu sei que é errado... quero dizer, não há nenhuma regra contra, mas sei que não é certo ter esse tipo de sentimento por professores, mas não foi proposital. Eu simplesmente não-

– Não pode evitar. – ele completou, agora com a voz doce de sempre. – Eu sei. – o olhar continuava perfurando-a.

Ele bufou pelo nariz e rodou a cadeira dando as costas para a menina.

– Esse é o problema.

– Problema? Não há nenhum problema, professor, eu nunca mais escreverei ou farei algo que possa...

– Não. – ele era uma silhueta no escuro da sala e ela o admirava. – Não é você o problema, sou eu.

Ela engoliu em seco, mas não sabia explicar o porquê. O que ele queria dizer? Por que estava se escondendo no escuro e deixando tudo mais estranho?

– Eu também não posso evitar, Nina. – ele fez uma pausa e se levantou devagar, saindo das sombras para mais perto da mesa. Contornou-a, passo após passo, e se aproximou da cadeira dela. – Eu não pude evitar desde o primeiro dia.

Nina voltou a espremer a testa. Estava ficando extremamente nervosa com a aproximação cautelosa do professor.

– O que quer dizer?

– Que eu não entendi o que aconteceu comigo no primeiro dia de aula em Hogwarts, a primeira aula de Defesa Contra a Arte das Trevas para os alunos do sexto ano... Não entendi que aconteceu quando vi você na primeira fileira, mas eu... – ele apoiou as mãos nos braços da cadeira dela e se esticou por cima da garota, o rosto a vinte centímetros do dela e os olhos focados. – Eu quis abraça-la como se você já fosse minha! Como se nos conhecêssemos há anos e passamos anos sem nos vermos.

Nina já estava perdendo o fôlego e se encolhendo na cadeira. Não sabia nem o que estava se passando no coração, provavelmente tinha parado de funcionar por um momento porque ela mal o podia sentir bater.

– Isso é loucura. – ela sussurrou.

– Sim. Imagine como não me senti no momento! Extremamente confuso. Como eu podia olhar para uma aluna desconhecida e... – ele cortou a frase bruscamente, levantou o rosto e inspirou o ar com o nariz em pé como um cachorro farejando. – Ah, droga!

Joe puxou a garota da cadeira pelo braço e a empurrou até o fundo escuro da sala.

– Se esconda! – sussurrou. – E fique quieta.

A porta do escritório vibrou com três batidas seguidas. Nina pensou que ia morrer ali. Seria expulsa nesse exato momento e obviamente seria causa da expulsão do professor também. Se encolheu o máximo que pôde atrás de uma estante velha de madeira e prendeu a respiração quando a porta rangeu ao abrir.

– Boa noite Jon. – a voz rouca e amigável do diretor ressoou como eco pela sala.

– Professor Ernest, boa noite! – a voz de Jon parecia tremer. – Algo em que posso ajudar?

– Não vai me convidar para entrar?

– Ah sim, por favor.

– Selvig?

– Sim?

– Você confia em mim, meu caro?

– Obviamente, não poderia confiar mais.

– Agradeço. – o velho fez uma pausa. – Mas você sabe que não se guardam segredos em Hogwarts, sim? Segredos de qualquer espécie.

Nina sentiu cada pedaço do corpo congelar.

– Sim senhor. – Jon falava baixo e mexia os dedos em inquietação. – Jamais guardaria segredo.

– Bom, muito bom. Mas estou falando sério meu caro, eu sei muito bem o que se passa aqui. – o diretor bateu no peito do professor com o dedo enrugado e sorriu. – Pode parecer errado, mas... Bem, eu sou mais velho e se me permite dizer, sinto-me como um pai para você, Jon. Você pode vir a mim para qualquer dúvida ou... ajudinha que eu possa oferecer. Sei que certas coisas a magia não pode interferir e eu certamente não deixarei que algo traçado pelo destino seja desfeito por medo e insegurança. – ele sorriu novamente e deu dois tapinhas no ombro do mais jovem.

Jon estava rígido e imóvel, mas o sorriso do diretor o tranquilizou. Ele reconhecia a bondade, genialidade e perspicácia de Ernest Filventor Tate, compreendeu todas as palavras e sorrisos do diretor. Ele sabia. O diretor sabia o que estava acontecendo ali. Talvez soubesse até mais além do que o próprio Selvig e aquilo era aterrorizante, mas estranhamente reconfortante.

Ernest se despediu com seu olhar cinzento e amável sem deixar mais nenhuma palavra no ar e deixou a sala tranquilamente. Selvig esperou até o diretor passar pela porta da sala para soltar o ar dos pulmões ruidosamente. Nina saiu detrás do móvel ainda tremendo com a mistura de adrenalina e medo que corria pelas veias. O frio não saía de dentro do peito.

– Eu preciso ir. – ela falou baixinho como se o diretor ainda pudesse estar por ali ouvindo-os.

– Espera. – ele a agarrou pelo pulso. – Ele já sabe. E... – balançou a cabeça. – Eu não faço ideia como, mas é o Tate. Você o ouviu: “certas coisas a magia não pode interferir”. Eu tenho certeza de que ele sabe muito mais do que nós.

– Eu entendi! – ela mordeu o lábio de frustação. – Mas não posso ficar aqui, de verdade Jon, eu tenho que ir agora.

– Não te disse metade do que planejava. – era tão estranho o quanto dóceis os olhos voltaram a ser. Como se antes pertencessem à um lobo caçador e agora a um cão amável.

– Bem, talvez você possa escrever. – ela balançou os ombros e fixara a atenção involuntariamente em seus lábios.

– Talvez. – os lábios se esticaram e ela adorou vê-lo o sorrir. – Mas tem uma coisa que não dá para esperar nem mais um dia.

Ela levantou os olhos para os dele enquanto ele se aproximava. A mão que ainda segurava o pulso dela pousou na base das costas e o outro braço envolveu seus ombros pequenos. Por um momento ele teve medo de quebra-la nos braços por ser pequena e teve até de se curvar para enfiar o rosto no seu pescoço. Embriagou-se no cheiro delicado dela, parecia ser feita de mel e flores, e sentiu-se completamente confortável. Sua pele era quente, mas não o queimava, era macia e morna como um bolinho recém-saído do forno, ele poderia dormir ali tranquilamente. Seu cabelo escuro e liso parecia um manto em que ele encaixara o rosto.

Nina não estava raciocinando, mas seu corpo se movia sozinho, o que foi bom, porque em caso contrário ela perderia aquele momento único por não corresponder ao abraço. Ela passou os bracinhos pela cintura dele e apertou com força, dando-o coragem para abraça-la com mais força também. Ficou na ponta dos pés para alcançar o pescoço dele e arrepiou-se por inteira quando pôde sentir a pele dele encostando na sua. Ele era único em todos os sentidos. Sua pele parecia lençóis brancos e frios e isso a fez querer aquecê-lo nos braços. Seu cheiro era de sabonete e nada mais e ela quis arrancar um pedaço dele para guardar consigo para sempre, ou simplesmente não se soltar daquele abraço nunca mais. Podia sentir seu corpo todo pinicando e queimando onde ele tocava.

Soltaram-se depois de um tempo e sentiram-se como se tivessem saído de uma cabana quente para o temporal gélido. Silas quis prendê-la novamente e explorar mais pedacinhos da quentura dela, sumirem juntos para um mundo paralelo onde o tempo não passava, mas não podia realizar seu desejo. A garota encarou-o sem medo com os olhos quase negros e ele viu seu peito subir e descer devagar.

– Boa noite. – ela sussurrou engolindo com os olhos uma última gota da beleza do rosto dele e virou-se para sair.

Ele teve de observá-la ir embora mordendo os lábios com muita força e quase machucando-os para se reprimir de correr atrás da garota. Encheu os pulmões quando ela saiu pela última porta e procurou pelo escritório uma bebida forte, encontrou uísque e deu dois goles grandes direto da garrafa. O uísque de fogo o queimou por dentro e ele foi deitar-se com aquela mistura de prazeres inundando o corpo e mexendo com sua cabeça.

Notas finais
Gente! Eu sei que vocês estão aí, por que não comentam? Eu não mordo. Nem o Jon! ;)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.