Where is my mind?
2 Capítulo 1
Notas iniciais
“Você apareceu na minha vida quando
eu mais precisava de um anjo.”
— Londres, 1995.
Três anos depois.
Harry Stormblood
Acordo com um sobressalto, me sentando na cama rapidamente. Eu suava frio, meu coração estava acelerado, eu me sentia tonto e eu tenho certeza que não estava assim pelo tanto que bebi na festa de aniversário de Alice, que havia acontecido algumas horas atrás. Eu realmente acabei bebendo de mais... Mas o álcool nunca fazia isso comigo. E se fazia, era só no dia seguinte.
Mesmo assim, não é desculpa para os pesadelos que ano tendo desde o Natal de três anos atrás.
Arrumo o cabelo, respirando fundo e fechando os olhos. Pude sentir Alice se mexendo ao meu lado e logo sua mão gelada e macia acaricia minha bochecha.
-Harry... -ela sussurra e logo me abraça. Abro os olhos, repousando a cabeça na curva de seu pescoço. Ela respira fundo, mexendo no meu cabelo — Calma... Era só um pesadelo, você sabe disso.
Eu não conseguia falar ou me mexer. Eu tremia, as palmas das minhas mãos doíam pelo fato de eu ter machucado as mesmas enquanto dormia... Mas nada era pior do que a dor em minhas coisas. Dois pontos no começo da mesma, paralelos e pequenos. A dor era insuportável, eu sentia pontadas de dentro para fora, como se algo tentasse rasgar minhas costas com uma lâmina cega.
A única coisa que podia me acalmar era Alice. O jeito como ela mexia no meu cabelo, fazendo cafuné, sussurrava palavras tranquilizadoras e me acomodava em seus abraços parecia uma droga. E eu estava viciado.
Passo as mãos por sua cintura, a puxando mais para perto de mim.
-Eu te amo... -ela sussurra, beijando o topo da minha cabeça enquanto massageava minha nuca.
—Eu também te amo... Obrigada por tudo. -a olho nos olhos e ela sorri, me beijando. Alice separa o abraço, colocando os dois travesseiros atrás de sua cabeça e deitando. Sorrio também, deitando com a cabeça apoiada em seu colo, a abraçando. Ela empurra as cobertas para o chão e começa a contornar minhas tatuagens. Pouco depois, já estava dormindo, torcendo para não ter mais pesadelos.
No dia seguinte, acordei com meu despertador tocando ao lado da minha cabeça. Abri os olhos lentamente, sentindo minha cabeça latejar e os olhos ardendo. Ressaca, óbvio. E ainda teria que trabalhar hoje, já que meu único dia de descanso era domingo. Sento-me na cama, conseguindo ver Alice dormindo com a boca entra aberta, meio babando. Seguro a risada e aproximo meu rosto do dela.
-Anjo... Vai querer ficar dormindo? -sussurro e ela franze a testa, concordando com a cabeça. — Okay. Já estou indo para o trabalho... Volto duas horas. Te amo. -beijo a testa dela.
-Também te amo — ela murmura, se virando e ficando de frente para o armário. Sorrio e vou em direção ao banheiro.
Ligo o chuveiro e enquanto me despia, minha cabeça começa a doer, e tudo a minha volta começa a girar. Gritos de horror atingem meus ouvidos, abafados como se eu estivesse embaixo d'água. Minhas mãos começam a tremer e eu me seguro na pia para não cair.
As vozes estavam cada vez mais perto. "Meu filho!". "Christopher!". Fecho os olhos com força, colocando uma mão na cabeça e um tempo depois tudo para. A dor em minhas costas volta e eu abro os olhos, encarando meu reflexo no espelho. Eu estava pálido, suor frio escorria por minha testa, pescoço e ombros. Meus olhos estavam negros e as veias em volta dos mesmos estavam saltadas. Respiro fundo e, ainda tremendo, entro no banho, ligando ainda mais forte a água fria.
No começo um choque se espalha por todo meu corpo, mas em seguida meus músculos relaxam. Lavo meu rosto e tomo banho rapidamente, indo para o quarto me trocar em seguida. Coloco uma blusa branca de manca curta e jeans, além dos mesmos coturnos velhos e gastos de sempre. Tomo café e escovo os dentes, pegando as coisas e me despeço de Alice, indo para o hospital.
Chegando lá, vejo Anthony estacionando sua moto e tirando o capacete. Como era calor, ele não estava comas jaquetas de sempre, na verdade usava uma regata preta e jeans gastos, além dos tênis cinza. O monte de colares em volta de seu pescoço, cada um com uma utilidade, brilhavam ao sol da manhã. Ele me vê e sorri, acenando. Aceno de volta, trancando o carro e indo até ele, caminhando para a entrada dos funcionários.
-E ai, Stormblood? -ele dá dois tapinhas nas minhas costas — De ressaca por ontem?
-Não, geralmente sangue ajuda. -falo mais baixo e sorrio — Mas continuo com aquelas dores de cabeça que comecei a ter naquele Natal, e parece que os sintomas de seja o que for estão piorando.
-Todos os exames que fiz em você, até mesmo experimentos... E já faz três anos daquilo, Harry -ele começa, cumprimentado uma enfermeira, que sorri de um jeito malicioso para ele.
-Eu sei, deram negativo para qualquer tipo de coisa, seja humano ou demoníaco. -respiro fundo, indo até meu armário, que era ao lado do de Graywolf e de Owlnight. Abro o mesmo, guardando as chaves do carro e de casa e minha carteira. Pego o jaleco e o estetoscópio, colocando os mesmos. Anthony faz o mesmo, guardando o capacete.
-Talvez seja algo que eu nunca tenha visto. -ele fala, ajeitando o cabelo e fechando o armário — Os exames de sangue, de ambos os lados... Bem, a máquina simplesmente queimou, e o pingente que estava usando explodiu. Isso não é normal...
-Harry não é normal, Tony — Oliver chega, abrindo a porta do armário. O anel de namoro que usava brilhava na luz — Da pra ver a diferença clara entre ele e um normal.
-Nossa, valeu, pulguento — reviro os olhos e pego meu celular, vendo a mensagem da Alice.
"Estou indo para o primeiro estágio, meu professor disse que alguns alunos podem conseguir emprego nesse hospital. Me deseje sorte! XxAli”
Sorrio de canto, respondendo a mensagem.
"Que bom, anjo. Estou muito feliz por você :) Sei que você vai ser uma das escolhidas. xxH."
Guardo o celular no bolso e me junto aos outros dois, que tomavam café e se preparavam para o trabalho. Tínhamos uma cirurgia simples em poucos minutos, braço quebrado.
-Alguma notícia do Darkhunter? -falo, me encostando na parede.
-Nenhuma... Isso é muito estranho. -Oliver começa, tomando um gole do café. Ele estava morando com Melody no apartamento dele, e parecia realmente feliz. -Ele é meu protetor, deveria sentir alguma coisa. Alice não sente nada?
-Não... Quem vem sentindo sou eu mesmo. -suspiro — Está tudo pior... Olhem.
Ergo a manga do jaleco cinza, mostrando meu braço, onde as veias saltavam e estavam mais claras. Quer dizer... Estavam douradas. Enquanto Alice ainda tinha as veias escuras e até meio macabras no rosto e pescoço, eu tinha essas. Como Oliver havia falado, a diferença entre eu e um demônio normal era notável... O que era estranho, já que eu sou um demônio normal e sempre fui desde que Oliver me transformou.
-É, isso é um problema... Mas você é um demônio normal. Eu que te transformei! Sei que é normal. Anthony, alguma explicação? -Oliver o olha, meio confuso e meio preocupado. Anthony respira fundo, arrumando o jaleco.
-Ainda nenhuma. Vou tentar sei lá, pesquisar mais sobre isso. Em algum daqueles livros velhos deve ter alguma coisa. Harry, sangue dourado não é coisa de normais, feiticeiros ou híbridos.
-Mas ai sobram os... -minha respirção falha e minha cabeça começa a latejar. Com a profissão que escolhi, acabei aprendendo sobre sangue. O dos humanos era escuro, vermelho. O dos híbridos era quase preto, e grosso. Feiticeiros possuíam o sangue claro como água. Normais tinham o sangue escuro, bem líquido. Mas nenhum desses tinha o sangue dourado. Apenas demônios alados, mais conhecidos como anjos. E isso eu com certeza não era. Eu espero... Tenho más lembranças com anjos. Eles sempre eram perfeitos em tudo, não tinham quase nenhum defeito. Eu não era isso. Além do mais, anjos estão extintos a mais ou menos vinte e seis anos.-Não, sem chances... Você está errado. Eu sou normal, anjos não existem!
Saio dali, indo em direação ao banheiro. Tranco a porta, me olhando no espelho. Minha pele estava pálida, e meus olhos escuros. Respiro fundo, fechando os olhos e abrindo a torneira. Imagens começam a se formar na minha mente. Um vale, um penhasco, imagens brilhantes e borradas. Olhos dourados, o abraço quente de uma mãe.
Minha mãe morreu quando eu tinha apenas três anos, assim como meu pai. Minha irmã mais velha foi assassinada, assim como minha irmã mais nova e todos morreram juntos no mesmo incendio. Aquelas imagens não diziam nada... Não faziam sentido, não eram minhas memórias.
Lavo o rosto, olhando o relógio. Hora da cirurgia. Suspiro, abrindo a porta e encontrando Anthoy e Oliver já colocando as roupas próprias para fazer a cirurgia. Começo a colocar estas em silêncio. Eles me olhavam preocupados, mas não falavam nada. Depois de poucos minutos, vamos para a sala onde o procedimento aconteceria. Ali um menino de não mais que onze anos estava detiado na maca, já anestesiado e dormindo. As enfermeiras começam a falar como ele havia quebrado, como estava o raio-x entre outras informações importantes.
-Espera, ele simplesmente queria ver o que acontecia e enfiou o braço na roda da bicicleta? -Anthony começa, me ajudando a abrir o braço dele. Ao ver o estado do osso, nós três prendemos a respiração. Estava quase que triturado.
-Puta merda... Não vejo um osso assim desde que atendi um velho de oitenta anos que caiu da escada... — Oliver começa a tirar os pequenos fragmentos que só iriam atrapalhar.
-Que ótima comparação, Graywolf. -reviro os olhos.
A cirurgia foi realmente bem rápida. Colocamos duas hastes de ferro ali, que ajudariam no processo de cicatrização e imobilizamos o braço. Simples, pelo menos pra mim. Sempre gostei dessas coisas, o que foi uma das razões de eu ter virado médico.
Depois da cirurgia ter sido feita, levaram o menino para o quarto. Eu, Tony e Oliver voltamos para a sala. O hospital ficava praticamente vazio no sábado, por incrível que pareça. Tiramos as roupas de cirurgia e nos jogamos nos sofás da sala dos médicos. Pego meu celular, vendo mais uma mensagem da Alice.
"Meu estágio por hoje acabou. Estou indo pra casa, não sei se vou conseguir emprego aqui. Fiquei nervosa na hora de atender o cara. Vou me resolver segunda, na faculdade. xxAli"
Respiro fundo, negando com a cabeça. Desde que conheço Alice sei que finalmente se formar em psicologia era seu sonho. Quando essa oportunidade de estágio sumiu ela passou semanas apenas estudando como seria melhor para atender os pacientes. O professor estaria lá para auxiliá-la caso algum problema acontecesse, e sei que ela estaria muito frustrada por não ter conseguido se sair tão bem de primeira. Claro, era só o nervosismo e no próximo dia naquele hospital seria mil vezes melhor, mas no momento os erros que ela cometeu deviam estar rodeando sua cabeça.
"Já estou indo pra casa, anjo. Me liberaram na hora do almoço. :/ Sinto muito. xxH"
Não demorou muito para que a hora do almoço chegasse. Oliver é o primeiro a ir embora, eu e Anthony saimos ao mesmo tempo. O dia estava nublado, e parecia que ia chover. Me despeço dele, indo pro carro. Minha cabeça ainda doía, mas eu estava conseguindo ignorar. No caminho pra casa, paro em um fast-food, pegando dois hambúrgers, refrigerante e batata frita com cheader, sabendo que era a favoria da Alice. Depois disso vou pra casa.
Estaciono e pego as coisas, indo pro elevador. Chegando no meu andar e na frente da porta do meu apartamento, toco a campainha, já que estava carregando muita coisa pra pegar as chaves. Logo a loira aparece ali na porta, com uma blusa velha e um shorts jeans. Ela me olha nos olhos e sorri, me ajudando a levar a comida pra dentro de casa. Fecho a porta atrás de mim e sinto ela me abraçando por trás, fazendo-me sorrir.
-Então, como foi hoje?- ela fala baixinho, separando o abraço e me olhando.
-Foi... Normal. Nada de mais, até muito parado. -sorrio, a beijando. Ela me olha nos olhos, meio preocupada. -O que foi, anjo?-coloco uma mecha do cabelo dela atrás de sua orelha.
-Anthony descobriu o que está acontecendo com você?
-Não... -respiro fundo, olhando para baixo -Ainda não. Ele disse que vai pesquisar mais um pouco, mas eu acho que não é nada de mais... Eu estou bem, são só alguns pesadelos.
-Não são não, pesadelos não se repetem por três anos... Mas tudo bem. Quero que você melhore logo. Não gosto de te ver mal assim, tá te destruindo... E não fala que eu estou errada porque eu sinto quase exatamente o que você sente. Te conheço a três anos, Stormblood.
A olho nos olhos e sorrio. Ela estava... diferente. Não era mais aquela menina que eu atendi ha três anos atrás. Não era mais a menina de dezenove anos. Agora era uma mulher de vinte e três anos. O cabelo dela estava mais comprido e meio ondulado, e os olhos mais escuros. As veias que possívelmente iriam ficar aparentes ali para sempre estavam mais claras. Ela não usava mais piercings e suas feições eram mais adultas. E tudo nela estava perfeito. De um jeito único. Ela podia estar jogada, de pijama, cabelo parecendo um ninho de ratos e sem maquiagem nenhuma. Mas mesmo assim ela estava linda.
Além do mais... Ela apareceu na minha vida quando eu mais precisava de alguém, quando eu não aguentava mais estar sozinho. Eu posso ter salvado a vida dela, mas ela fez muita coisa por mim e mal sabe disso. Eu nunca pensei eu fosse amar alguém como amo ela. E eu sabia, que se um dia Anthony descobrisse que eu não sou mesmo um normal ou que alguma coisa grave está acontecendo comigo, ela vai estar do meu lado, aconteça o que acontecer.
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