Where are you?
1 Capítulo único - pensamentos
Notas iniciais
não sei se está bom para você que está lendo agora, mas gostei muito de escrever e o considero uma das minhas melhores criações
Naquele dia nós saímos juntos da escola, como todos os dias, eu te acordei várias vezes durantes as aulas, você fez brincadeiras com minha altura, baguncei seu cabelo e você reclamou comigo quando larguei minhas coisas em sua mesa. Um dia perfeitamente normal.
Chegamos em nossas respectivas casas na hora do almoço e trocamos mensagens enquanto comíamos, até a minha avó me mandar desligar o celular enquanto comia. Liguei novamente o aparelho enquanto lavava louça e recebi uma mensagem sua.
“indo pro shopping com meus pais, quando eu voltar, quer jogar um pouco?”
“devo chegar antes do jantar, dá tempo de uma partida.”
Sorri enquanto respondia, aceitando seu convite.
No final daquela tarde liguei o computador e esperei por ele em um jogo online qualquer, duas horas de espera se passaram e tive que jantar, não sem antes enviar várias mensagens pedindo notícias, embora todas as mensagens tenham sido entregues, elas não foram lidas. O que me deixou um tanto irritada, pois acreditava que ele havia esquecido do jogo e dormido (algo que já havia acontecido outras vezes). Então havia uma certa raiva em minhas ultimas mensagens.
Durante o jantar a televisão ligada, apenas para quebrar o silêncio, noticiava um tiroteio que ocorreu pela região. Eu e meus pais não nos importamos muito com a reportagem, já era algo recorrente, após anos morando no Rio de Janeiro não é muito difícil se acostumar com esse tipo de acontecimento. É sempre a mesma coisa; brigas de facções por ponto de venda de drogas, polícia interfere, motoristas e pedestres baleados, acidentes de carro e longos congestionamentos por causa disso.
As imagens mostravam os familiares sobreviventes chorando em desespero por causa de seus parentes feridos ou mortos enquanto os policiais faziam a contagem de vítimas, nesse momento uma cena me chamou a atenção. Uma mulher berrava com as autoridades implorando para que eles salvassem seu filho e seu marido, demorei alguns segundos para reconhecer pois sua maquiagem estava completamente arruinada pelas lágrimas e sua face contorcida pelo desespero, de uma forma que eu nunca havia visto antes. Mas era ela. A mãe do meu namorado.
Meu coração falhou uma batida.
Ao notar que meu olhar estava fixo na televisão meus pais passaram a prestar mais atenção ao que estava sendo noticiado. Ao perceber a razão da minha atenção minha mãe cobriu os lábios com a mão.
Como se nada demais tivesse acontecido, o repórter mudou o foco do programa para algum escândalo relacionado aos políticos do país.
Voltei a comer, não tinha mais gosto, mas eu mastigava e engolia. Talvez eu tenha me confundido, podia ser uma coincidência, o áudio não estava tão bom, ninguém poderia garantir que era a voz dela e... nem se parecia tanto. Devo ter me confundido, talvez seja por causa do estresse por não ter minhas mensagens respondidas antes. Embora esse tipo de coisa aconteça todos os dias aqui, nunca afetou ninguém que eu conhecia antes, eu só me confundi, foi só uma coincidência que aquela mulher se parecia tanto com um rosto familiar.
Foi só um engano meu.
Era nisso que eu queria acreditar.
Não lembro mais como eu dormi naquela noite, acho que minha mãe queria falar comigo, mas ignorei e fui para meu quarto, sinto como se apenas tivesse me deitado e no instante seguinte já era outro dia. Nem me lembrava mais da reportagem da noite anterior. Estava completamente convencida de que se tratava apenas de uma coincidência.
Entrei na sala de aula, como sempre joguei minha mochila em uma mesa e me sentei da do lado, garantindo que ninguém, além dele, pegaria o assento, já que ele sempre chega em cima da hora. O tempo passou enquanto eu mexia em meu celular, ele ainda não havia visualizado nenhuma das minhas mensagens, por insistência mandei mais algumas, não chegaram nem a serem recebidas.
Eu encarava a porta da sala ansiosa, toda vez que era aberta meu coração dava um salto. E toda vez que era aberta eu me decepcionava e a ansiedade aumentava, este ciclo durou até a porta ser aberta por um adulto. Nosso professor, sentenciando o intervalo deste ciclo por cinquenta minutos, tempo até o começo do próximo período, quando os atrasados que não chegaram à tempo de entrar no primeiro são permitidos de entrar na sala.
Tudo bem.
Ele deve ter dormido tarde, como sempre, e perdido a hora novamente. Não seria a primeira vez que algo assim acontece.
Mas o tempo passou, o sinal do segundo período tocou e apenas um grupo de meninas que sempre perde a hora entrou na sala antes de, novamente, a porta ser fechada por um professor que ensinou algo que vou precisar que me expliquem mais tarde por falta de atenção.
Tudo bem.
Ele deve ter passado mal ontem e os pais permitiram que ele falte hoje. Não seria a primeira vez que algo assim acontece...
Comecei a me preocupar, a saúde dele nunca foi das melhores e ele constantemente ficava doente. Levei o resto das aulas no piloto automático. Nem lembro mais dos acontecimentos em sala de aula. Apenas de um acontecimento especifico que ocorreu no recreio.
Eu já havia decidido que assim que eu saísse da escola passaria na casa dele (ou, na pior das hipóteses, no hospital) para lhe fazer uma visita e saber do que aconteceu, então resolvi mandar uma mensagem para o pai dele, que sempre foi muito gentil comigo e certamente me contaria tudo que aconteceu e me deixaria fazer a visita.
Peguei meu celular e entrei em sua página do facebook para mandar a mensagem. Nesse momento percebi que algo estava muito errado. Diversas fotos, que eu já havia visto antes em suas redes sociais, com filtro preto e branco. Esta foi a primeira coisa que vi e me chocou, todos que usam esses sites sabem o que algo assim geralmente significa. Sentindo uma mudança abrupta nos meus batimentos cardíacos, li as legendas.
“um homem, que carregava a felicidade consigo para todos os lugares que ia... triste saber que sua vida foi levada de tal forma.”
“alguém de tão bom coração, um grande amigo, que Deus cuide de sua alma.”
Senti o mundo se inclinar. Eu não o via muitas vezes, mas certamente ele se mostrou uma ótima pessoa todas as vezes que o vi, sem contar que meu namorado tinha extrema admiração por ele. Não é de se surpreender que sumiu daquela forma, perder o pai deve ter sido um enorme choque para ele.
Fui para o perfil de sua mãe, agora estava ainda mais decidida a fazer uma visita para o consolar, ele sempre foi do tipo de pessoa que precisa de um bom abraço para superar algo. Mas nesse momento que eu sofri o maior golpe.
Eu já esperava que o perfil dela estivesse lotado de postagens de lamentação e apoio, logo, as fotos com filtros escuros não me chocaram tanto quanto antes, porém, foi uma frase em uma foto que me atingiu como um soco no estômago.
“deve ser horrível perder marido e filho desta forma tão trágica [...]”
Comecei a ler as outras postagens, meus dedos embaçavam a tela do celular devido ao suor frio que molhava minhas mãos. Mesmo suando, sentia meu corpo gelado e termia, dificultando a leitura.
Fiz questão de ler todas as postagens, torcendo para que fosse apenas algum erro de quem escreveu. Quem sabe a pessoa não recebeu a notícia modificada, afinal, quem conta um conto aumenta um ponto, não é mesmo?
Todas confirmaram a informação.
“fiquei em choque quando vi a reportagem...”
“a cruel realidade de viver nesta cidade tão perigosa, onde há balas perdidas por todos os lados...”
“uma tarde em família destruída apenas por estar em um carro nesta cidade onde não há o direito de ir e vir.”
Reportagem... tiros... carro... as peças iam se encaixando em minha mente caótica. A mulher no noticiário era realmente ela, então...
Então...
O suco que eu bebia ficou amargo em minha boca. Eu queria fazer algo, mas não sabia o que. “O que eu faço?” tinha vontade de falar com alguém, mas, falar o que? Talvez eu devesse ir ao banheiro, lavar o rosto, quem sabe?
Levantei e fui ao banheiro, sem razão alguma, lavei minhas mãos. Eu precisava fazer algo, isso foi a primeira coisa que passou pela minha mente confusa. Eu não achava certo ficar parada, tinha a necessidade de estar fazendo alguma coisa, mesmo que não tivesse nada para fazer.
Andei até a porta da nossa sala e entrei. Sinal ainda não havia soado, mas a porta estava destrancada e já haviam alunos ali dentro, ao entrar senti que muitos olhavam para mim, mesmo que eu não estivesse olhando para eles.
Era como se eu não estivesse vivendo algo real, parecia uma espécie de sonho... faltava muito para minha mãe chamar meu nome e, como sempre, eu acordar para a escola e encontrar aquele garoto que está sempre do meu lado, fazendo brincadeiras bobas e trazendo um pouco de alegria para os meus dias entediantes. Eu iria lhe contar sobre esse sonho maluco e ele responderia algo como: “vaso ruim não quebra.” Com um enorme sorriso...
Eu quero ver esse sorriso de novo...
Abri a galeria do meu aparelho e busquei por suas fotos sorridente, como sempre, sorri lembrando de como ele me culpava por seu sorriso permanente. Observava carinhosamente suas fotos, até que parei em uma onde nós dois estávamos abraçados, morrendo de frio no metrô. Nesse dia havíamos combinado de ir para a praia, mas choveu e ventou horrores, no fim os dois ficaram resfriados.
Ri com essa lembrança antiga, os dois adolescentes idiotas esqueceram de ver a previsão do tempo antes de sair. Na semana seguinte teria um feriado, poderíamos aproveitar para refazer esse passeio da forma correta.... ah é... não vai dar...
Assim como não vai dar para tirarmos outras fotos juntos, não vou mais poder sentir o cheirinho do seu shampoo quando o abraçasse... eu não poderia mais abraça-lo... nunca mais.
Respirar tornou-se uma tarefa difícil.
Encarava a carteira ao meu lado pensando em como nunca mais teria meu companheiro ali rabiscando minha mesa, babando em seu próprio braço, bagunçando meu cabelo ou fazendo carinho na minha mão.
Aquilo parecia tão errado, ontem mesmo eu estava ouvindo sua risada rouca neste mesmo lugar e hoje descubro que isso nunca mais vai acontecer.
Como algo tão comum em nosso cotidiano pode simplesmente desaparecer assim?
No período seguinte, em vez do professor entrar em sala, foi a psicóloga que passou por aquela porta, ela comunicou oficialmente os alunos do que tinha ocorrido e explicou a verdadeira história, provavelmente para evitar boatos. Enquanto aquela mulher, que nunca sequer olhou para o rosto dele, falava que ele faria muita falta ali na escola e que era um jovem especial, eu me perdia em memórias.
Todos nossos momentos juntos não paravam de passar pela minha mente, eu queria fixa-los em minha memória para que nunca fossem esquecidos, afinal, eu não poderia fazer novas lembranças. Mas parecia que quanto mais eu pensava, menos eu lembrava desses momentos. O cheiro dele era como, mesmo? A voz dele realmente era assim, ou mais grossa? Como era a sensação de sua pele? Comecei a me desesperar.
Era horrível não lembrar de coisas que, para mim, eram tão importantes. E mais horrível ainda era saber que eu não poderia mais saber, informações que foram completamente perdidas.
Meus olhos estavam transbordando, estava no meio da sala de aula, mas sem me importava. Eu só queria eu ele estivesse aqui e me abraçasse como sempre fazia quando eu chorava. Um amigo meu deu tapinhas no meu ombro, enquanto uma amiga, chorosa, me abraçava.
Acho que a escola ligou para meus pais me buscarem, provavelmente pelo estado em que me encontrava. Só sei que quando dei por mim, estava deitada na minha cama, confusa. Sem saber se tudo aquilo fora um terrível pesadelo ou realidade. Com o rosto e olhos inchados, assim como o nariz totalmente entupido, peguei meu celular.
Queria ligar o aparelho e me deparar com sua mensagem de bom dia usual, mas o que realmente encontrei foram dezenas de mensagens perguntando se eu estava bem, falando o quanto estavam tristes pela morte do meu namorado e oferecendo ajuda. Não respondi ninguém, e muitos nem me dei o trabalho de ler.
Abracei o ursinho que ele havia me dado de dia dos namorados ano passado e tentei voltar à dormir, mesmo sem sono. Dessa vez acordei apenas na manhã do dia seguinte, que não teria aula pois a escola estava de luto.
Normalmente ficaria extremamente feliz por ter menos um dia de aula, mas dessa vez não me animei, estava inclusive querendo ir para aula. Queria me forçar a pensar em qualquer coisa que não fosse aquele quem eu amo.
Decidida, peguei meu notebook e comecei a escrever uma história de ação, com cerca de quinhentas palavras apaguei tudo e comecei a escrever sobre ele... não sei o que fazer.
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