When you're dreaming with a broken heart
1 Aula, bar, sotaque britânico, praia.
Desde a minha adolescência já sabia que havia algo diferente dos demais em mim. As atrações físicas que os colegas de turma sentiam pelas meninas não faziam o mesmo efeito em mim. Pelo contrário, a minha atração física era referente aos rapazes da turma. Como o adolescente é inseguro, os anos foram passando e eu fiquei apenas na vontade de experimentar o mesmo sexo. Os anos se passam e as pessoas vão para locais diferentes, se formam em áreas diferentes e já estão com a mentalidade formada.
Escolhi a área da Educação, cursei Letras e me formei como professor de português/inglês aos 28 anos. Solteiro, com o tempo a atração ficou mais forte e digamos que incontrolável. Independente, com apartamento alugado e sem mulher ou homem na minha vida. A família não entendia, eu dizia que não tinha tempo para relacionamento – uma total mentira.
Each morning I get up I die a little
(A cada manhã que eu me levanto eu morro um pouco)
Can barely stand on my feet
(Mal consigo permanecer em pé)
(Take a look at yourself) Take a look into the mirror and cry
(Olhe para si mesmo, olhe no espelho e chore)
Lord, what you’re doing to me?
(Senhor, o que está fazendo comigo?)
I have to spend all my years in believing You
(Eu tenho passado todos os meus anos acreditando em Você)
— Estou atrasado! — Olhei no relógio um pouco apavorado, falando comigo mesmo.
Segunda-feira é sempre um problema. A insônia de domingo sempre me domina, independente do que eu faça no dia. Exercícios não funcionam, cansaço não funciona, parece que a segunda-feira está destinada a me atrapalhar, de verdade. O banho foi totalmente rápido, vesti a primeira roupa que vi dentro do armário e o meu café da manhã foi meio pão de forma.
O trânsito no Rio é ruim, quanto mais tarde a pessoa sai de casa, mais insuportável ele fica. Não teve jeito de chegar na hora, mal cumprimentei as pessoas quando cheguei à escola, já sabendo que provavelmente todos os meus alunos estariam na sala de aula me esperando. Sinceramente, nada era pior para a moral de um professor do que ser o último a entrar em sala, tudo piorava quando se ensinava adolescentes, que era o meu caso.
— Desculpem o atraso! — Entro na sala de aula correndo, com o cabelo mal penteado e a camisa social um pouco aberta.
— Professor? — Uma aluna levanta a mão.
— Um minuto, já lhe respondo! Apenas me deix...
— Sua camisa está aberta, consigo ver o seu peitoral. — A aluna me interrompe.
— E que peitoral! — Uma voz ecoa do fundo da classe.
— Desculpem! Hoje foi complicado. — Sorrio sem graça, abotoo a camisa e começo a aula. Ajeito minhas coisas sobre a mesa e tiro o celular do bolso. — Pessoal, hoje iremos trabalhar com tradução. Peço para que não utilizem os seus celulares, sabemos que hoje em dia todos têm acesso a internet, porém o aprendizado não vem de lá. Qualquer dúvida eu estarei à disposição. — Ligo o celular e, por Bluetooth, o faço tocar numa caixinha de som.
— Escutem a música com atenção e anotem o que estão ouvindo. Mesmo que não saibam como se escreve a palavra, tentem escrevê-la. Irei pausar a cada frase e repetir o que está sendo cantado para facilitar. — Logo a música começa. Presto sempre atenção nos alunos, se estão mesmo levando a sério ou não.
All the things that we've lost
(Todas as coisas que perdemos)
Breaking up comes at a cost
(Terminar sempre vem com um preço)
I know I'll miss this mistake
(Sei que sentirei falta desse erro)
Every word I try to choose
(Toda palavra que tento escolher)
Either way I'm gonna lose
(Não importa qual, perderei de qualquer jeito)
Can't take the ache from heartbreak
(Não consigo tirar a dor de coração partido)
Oh, but as you walk away
(Mas enquanto se afasta)
You don't hear me say...
(Não me ouve dizer...)
Where's the good in goodbye?
(Onde está a parte boa do adeus?)
Where's the nice in nice try?
(Onde está a parte boa de “boa tentativa”?)
Where's the us in trust gone?
(Onde estamos quando não resta mais confiança?)
Where's the soul in soldier on?
(Onde está a alma do soldado ativo?)
Now I'm the low in lonely
(Agora estou pra baixo e sozinho)
'Cause I don't own you only
(Porque não tenho apenas você)
I can take this mistake but I can't take the ache from heartbreak
(Posso consertar meu erro mas não tirar a dor do meu coração partido)
No matter how it falls apart
(Não importa como termine)
There's an art in breaking hearts
(Existe arte em partir corações)
But there's no fair in farewall, no
(Mas não há nada justo em adeus, não)
And when I see you in the street
(E quando vejo você na rua)
I pray to God, you don't see
(Peço a Deus que não veja)
The silent hell in "I wish you well"
(O inferno silencioso quando “te desejo o melhor”)
Oh, but as you walk away
(Mas enquanto se afasta)
You don't hear me say...
(Não me ouve dizer...)
— Agora irei escrever a letra no quadro e peço para que marquem as palavras que estão com a escrita errada. Façam a correção, coloquem o nome e me entreguem. Copiem a forma correta que será escrita no quadro e quando terminarem direi o que farão. — Me levanto, pego a caneta e começo a escrever.
Essa música me lembra de muita coisa... Ah! Que sentimento bom.
Termino de escrever, me sento e dou uma revisada rápida no que os alunos escreveram. Vejo que que estão indo bem, com poucos erros. Fico satisfeito que estão aprendendo, afinal, nada pode ser mais gratificante para um professor do que conseguir passar conhecimento. Quando olho o relógio, vejo que a aula já está para terminar.
— A aula já está terminando, iremos fazer o seguinte: o que vocês acabaram de copiar, será um trabalho para exercitar a capacidade de tradução e interpretação. Na próxima aula me tragam a tradução feita numa folha A4 e na página de trás escrevam o que vocês entenderam sobre o significado da música. O trabalho irá valer dois pontos. Mais uma vez, não utilizem o tradutor, até porque vou perceber se o fizerem. Dúvidas? — Olho ao redor para perceber se alguém se manifesta e uma aluna se levanta e vem até mim, com um jeito desnecessariamente provocante.
— Não é uma dúvida, quero apenas a sua opinião. — Ela diz, olhando nos meus olhos, me entrega um papel, com frases em inglês.
— Do que se trata? — Pergunto.
— Estou exercitando a minha capacidade de tradução e interpretação.
— Percebi que é uma música do The Police. Irei analisar e lhe aviso na próxima aula, ok?
— Claro. O que entendi sobre a música está no verso. — A aluna sorri e vai se sentar.
— Ok, people! Estão liberados. Me tragam o trabalho feito na próxima aula! Desejo uma excelente fim de tarde à todos vocês. — Me despeço e saio da sala.
I work hard everyday of my life
(Eu trabalho duro todos os dias da minha vida)
I work till I ache my bones
(Eu trabalho até que sinto dor nos meus ossos)
At the end of the day
(No final do dia)
I take home my hard earned pay all on my own
(Eu levo para casa meu pagamento suado sozinho)
I get down on my kness
(Eu me ajoelho)
And I start to pray
(E eu começo a rezar)
‘Til the tears run down from my eyes
(Até que as lágrimas escorram dos meus olhos)
Lord, somebody… Somebody…
(Senhor, alguém… Alguém…)
Can anybody find me somebody to love?
(Alguém pode me achar alguém para amar?)
Morar na zona sul do Rio de Janeiro é gratificante pela beleza que é proporcionada aos nossos olhos. Porém a despesa no fim do mês é imensa. Moro num apartamento pequeno, com um quarto e com esse valor eu poderia alugar um apartamento de dois quartos e sala em outro lugar. O salário de professor não é gratificante, muito menos pelo estresse que passamos com os alunos. Temos super poderes, mas ninguém os enxerga.
A caminho de casa, tem o que enfrento diariamente: ônibus cheio e o transporte público de péssima qualidade. Estamos em 2015 e não temos ônibus com ar-condicionado. Oh wait... Temos, mas custam o meu aluguel no final do mês. O valor é um absurdo. "Ônibus executivo"? Sério, o que é isso?
Quando chego em casa, mal tenho tempo de respirar e ao menos sentar para organizar meus pensamentos. Meu dia é sempre corrido, mas só de chegar atrasado, meu nível de estresse dobrou. Ouço batidas na porta e suspiro, mal posso acreditar. “Visita a essa hora? Já é quase noite!”, penso. Talvez pela hora e pela falta de aviso, imagino que possa se tratar de algo importante ou até uma emergência.
— Quem é? — Pergunto antes de abrir a porta.
— Sua irmã preferida! — Claro que é, reconheceria aquela voz em qualquer lugar.
Ok. Visita de família. Toda família passa por problemas, mas a minha? É constante! E a minha irmã é um caso perdido. Voltamos a nos falar recentemente, depois de 4 anos ignorando um ao outro. Uma pessoa arrogante, mimada e desleal seria a descrição dela.
— Fátima, que surpresa agradável! Entre! — Abro a porta um pouco desinteressado e finjo um sorriso.
— Nossa, mas que bagunça! — Ela joga a bolsa em cima da mesa e caminha até a cozinha.
“Meu Deus... Meu Deus.”, penso. Ela mal entrou, acabou de chegar e eu já estou irritado.
— Como vão as coisas? — Pergunto ignorando a total falta de educação e completa inconveniência dela aparecer sem avisar.
— Ai, Celo! Tive uma briga horrível com o meu namorado. Acho que o nosso prazo de validade já expirou.
— Vocês não estão juntos há... 2 meses? — Disse tentando não parecer desdenhoso, mas ela revirou os olhos.
— Você é o advogado dele? Me poupe! — Ela bufou, mimada como sempre.
— Ok, ok... — Comecei meio que a interrompendo. Sabia que se continuasse, uma discussão provavelmente se iniciaria. — O que você está fazendo aqui? — Novamente tentei não parecer ofensivo, mas era difícil pra mim disfarçar como eu realmente me sentia em certas situações. Dizem que a paciência é uma virtude. Será? E minha irmã me conhecia bem o suficiente pra saber que eu não gostava daquelas coisas.
— Eu preciso ficar aqui por um tempo. Papai diz que estou jogando o dinheiro dele fora por ter reprovado na faculdade. Ele não me dá apoio, sabe como é... Só sabem falar de você por lá, e, sinceramente, o que você tem? — Ela franziu o cenho quando perguntou, realmente não fez questão de esconder que não entendia “o que eu tinha de mais”. Cruzou os braços olhando ao redor do apartamento como se fosse difícil para ela compreender que aquilo não se tratava de ter cinco banheiros e oito quartos.
Every day – I try and I try and I try
(Todo dia – Eu tento e tento e tento)
But everybody wants top ut me down
(Mas todos querem me humilhar)
They say I’m going crazy
(Dizem que estou enlouquecendo)
They say I got a lot of water in my brain
(Dizem que tenho muito água no meu cérebro)
Got no common sense
(Ah, não tenho bom-senso)
I got nobody left to believe
(Não me sobrou ninguém em quem acreditar)
— O que eu tenho? — Segurei o riso, não sabia se ela realmente era ingênua a ponto de não entender a importância de tudo aquilo ou se só era futilidade mesmo. — Uma formação, independência, educação, uma boa moradia... — Quase contei nos dedos.
— Isso é o que chama de moradia? — Quando ela disse, eu realmente abri um sorriso. Era o tipo de comentário que viria dela e eu não me surpreenderia. Ela olhava ao redor com desdém.
É, realmente não tenho como descrever essa pessoa de outra forma.
— Fátima, me desculpe. Sinto muito por seus "grandes" problemas, mas não posso hospedá-la. Como você mesma disse, aonde eu moro não faz jus a sua pessoa. E mesmo que fizesse, não iria apoiar a sua imaturidade. Eles estão certos, estão sim jogando dinheiro fora. Se você não quer ter uma graduação, não o faça. — Não iria perder a oportunidade de usar a sinceridade como vantagem ali. E não usei as palavras como armas, ela precisava de um pouco de vida dura. Mas eu já sabia que ela iria surtar ao ouvir aquilo.
— Você é um ridículo! — Como já adivinharia, ela esbravejou feito uma criança de quatro anos. Permaneci com a mesma cara de paisagem, as atitudes dela já não me afetavam tanto. — Supostamente você teria que ser o meu espelho, já que é o irmão mais velho. Mas não! — Outra coisa que não funcionava comigo eram chantagens emocionais.
— Eu saí de casa quando tinha a sua idade. Se você quer que eu seja o seu espelho, faça o mesmo. Arrume um trabalho, invista na sua carreira e tenha um futuro. Do jeito que está hoje, vai depender dos nossos pais para sempre. Não fique acomodada. Enfim... — Esse era meu papel como irmão mais velho. Mas ela geralmente confundia com uma proteção cega e achava que tinha a ver com ter uma pessoa com quem contar mesmo quando a situação mais prejudicava que ajudava.
— Medíocre. Me recuso a passar fome. Se você chama isso de profissão, não posso te ajudar. — Ela gesticulava, apontando para os cômodos pequenos da casa.
— Quem precisa de ajuda é você. Já deu. Não tenho mais estrutura para isso. A porta é logo ali, boa sorte. — Abro a porta e a espero sair. Primeiro porque já tenho problemas demais e não preciso de mais e, segundo, porque não aprecio quem não valoriza a conquista alheia.
— Independência, me poupe... — Fátima ironiza e sai.
Essa situação chega a ser engraçada, porque sempre a vi como uma menina mimada, insuportável, metida e sem educação, mas hoje pude perceber como ela realmente é e sempre foi, o que ela veste dá uma dica não só para mim, mas sim para todos que a enxergam na rua, boate, praia, seja o que for. Logo que abri a porta já senti aquele cheiro do Chanel que ela usava desde a adolescência. Os sapatos com solado vermelho Laboutin e a bolsa Louis Vuitton fechavam o set perfeito da boutique de grife que ela era, ou ao menos pensava que era. Nunca entendi isso nas mulheres.
Fátima trancou a sua matrícula em Direito no primeiro período após reprovar em todas as matérias, foi quando nosso pai se conformou que ela era um caso perdido como universitária. Dificilmente assistia uma aula, os livros que foram comprados ainda estão com o plástico de proteção, a época de prova foi um caos. O seu próximo curso foi Moda, que aparentemente não está dando certo, me recuso a me conformar com essa irresponsabilidade, saí de casa aos 18 anos, com fardos pesados que carrego até hoje. Carrego uma culpa que é sim associada a mim, porém não havia o que fazer. Mágoa por palavras que me foram ditas em momentos de ebriedade. Vergonha por ter sido exposto quando não havia a necessidade para tal.
— Enfim... – Me sento pela primeira vez desde que cheguei em casa, já que o estresse aumentou com a visita inesperada da minha irmã.
Pego a minha pasta e começo a correção do trabalho passado em aula, mas havia um deles, em particular, que estava pendente por não ter sido feito sobre a tradução passada em sala de aula. – Mas o que??? – Me assusto com o que está escrito no verso da página. A música que ela escolheu é sugestiva, afinal é um clássico que descreve o romance proibido entre aluna e professor. Não sei o que farei e como falarei sobre o assunto, o dia de hoje foi cheio e eu não tenho condições de pensar ou corrigir algo. Preciso de distração.
— Bar! – Jogo todos os papéis em cima do sofá, me levanto e saio, por enquanto sem um destino certo, já que a cada esquina tem um bar.
Caminho devagar pela orla, pensando para onde irei. Lembro-me de ter sido um adolescente com receio de tudo e nunca havia frequentado algo que mostrasse quem realmente sou. A hora de tomar a devida coragem é agora, afinal, já deveria ter feito isso.
— Uma entrada masculina, por favor. – Peço gentilmente para a menina que está encarregada de vender os ingressos para o TV Bar após aguardar 10 minutos numa fila.
Não conhecia este lugar, a decoração é bem feita e o espaço é amplo, feito para quem quer sair para dançar ou para quem quer ficar sentado com amigos reunidos e beber algo, um ótimo lugar para distração. São dois televisores mostrando vídeo das músicas que estão tocando, a pista de dança é iluminada por um globo de luzes, próprio para discoteca.
Enquanto pego uma cerveja, olho ao redor e vejo que há uma forte concentração de pessoas bonitas. Uma, em particular, me chamou a atenção. Cabelos castanhos curto, corpo aparentemente definido, barba aparada e os olhos pareciam um mar, de tão azul. Ele percebe que estou olhando, realmente não fui nada discreto até por não saber me comportar nessa situação. Desvio o olhar vou até a pista de dança. Percebo que metade das pessoas que estão aqui já estão no estado de se jogarem contra a pilastra, a agressividade de dois homens juntos é um pouco assustador para quem está de fora. Pessoas desconhecidas puxam o meu braço, olho e não me interesso, eu já estava com um alvo na cabeça, mesmo que não houvesse possibilidade de dar certo.
A pista de dança começou a ficar insuportável, homens se jogavam em cima de outros homens para forçar que acontecesse algo, eu estava incluso. Perdi a conta das vezes que tive que me locomover de um lugar para outro, apenas para fugir da situação. Vejo que um dos poucos cômodos para se sentar ficou vago, o lugar perfeito para fugir disso tudo por um tempo. Sou fumante desde a adolescência, pego um cigarro do maço e coloco na boca.
Antes que eu possa alcançar o isqueiro no bolso das calças, percebo uma luz de fogo ao meu redor. Instintivamente, viro o rosto e então encontro aqueles olhos que, por causa do brilho da chama, pareciam refletir um fogo intenso dentro de um mar Azul. Difícil descrever o que vi, nem mesmo as luzes do lugar foram capazes de ofuscar o que eu via.
Ele se aproximou mais, colocando a chama na ponta do meu cigarro e eu traguei, acendendo o Carlton sem dificuldades.
Somebody
(Alguém)
Can anybody find me somebody to love?
(Alguém pode me achar alguém para amar?)
Got no feel I got no rhythm
(Não tenho nenhuma sensação, não tenho ritmo)
I just keep losing my beat
(Eu continuo perdendo o meu compasso)
I’m OK I’m alright
(Estou OK, estou bem)
I ain’t gonna face no defeat
(Não vou encarar nenhuma derrota)
I just gotta get out of this prison cell
(Eu só preciso sair desta cela de prisão)
Some day I’m gonna be free, Lord!
(Algum dia eu serei livre, Senhor!)
Tirei o cigarro da boca, expulsando a fumaça pelo canto dos lábios. Segurei-o entre os dedos e, por alguns segundos, como se esperasse alguma coisa, encarei de volta aqueles olhos azuis e pude perceber que é muito mais do que pude ver pela primeira vez. A única coisa que eu conseguia pensar naquele momento era de dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas não conseguia, nem mesmo um “Oi” saía da minha boca. Por um momento tive a sensação de que estávamos sozinhos, não havia mais ninguém. A música parou, as luzes do globo pararam de piscar, meu batimento cardíaco aumentou consideravelmente e, num piscar de olhos, tudo voltou ao normal.
- Obrigado. – Ainda não consigo acreditar que eu fui o destaque no meio de centenas de pessoas, não tive muita experiência para flertar com homens.
- Me chamo Victor. – Ele sorri, ofuscando ainda mais a minha visão.
- Marcelo, prazer. – Nesse momento percebi que ganhei na loteria, lutei contra o meu nervosismo e ansiedade me forçando a entrar nesse bar, com o objetivo de conhecer o local e observar o comportamento das pessoas. Mas, de certo modo, encontrei uma pessoa que me desestruturou apenas com um sorriso.
É impossível ter uma conversa decente numa boate, a distração é imensa e a música não me deixa pensar direito. Tento manter a conversa num padrão de respeito, por ser professor e lidar com situações constrangedoras praticamente toda semana, acho que consigo basicamente falar sobre qualquer assunto com qualquer um, talvez eu esteja errado por ter padronizado a minha vida social ou talvez eu ainda possua aquela vergonha de me expor, mesmo que a pessoa na qual eu estou conversando me conceda tal privilégio.
Ele me conta um pouco sobre o que faz e fico impressionado. Victor é formado em Direito e tem 40 anos. A conversa flui bem, apesar dele estar numa área diferente da minha, faz as coisas não parecerem tão óbvias. Nada poderia ser mais irritante em alguém – especialmente advogados – quando sustentavam aquela pose mostrando que todos deveriam saber do que eles estavam falando e, quando não sabiam, faziam você se sentir um completo idiota. Mas não ele, ele era realmente muito diferente.
Ele comentou que era de São Paulo, mas passava quinze dias no Rio e quinze em São Paulo, tudo em função do trabalho. Ele era sócio em um escritório de advocacia empresarial, trabalhavam apenas com causas trabalhistas e civis. Apesar de normalmente esse tipo de coisa soar bastante entediante aos ouvidos alheios, admito que ele me prendeu na conversa só pelo fato de esbanjar uma paixão pelo que fazia que certamente daria inveja a muita gente. É realmente bonito e raro quando alguém fala de algo com tanta empolgação, como se salvasse o mundo todos os dias, quando na verdade estava somente trabalhando há alguns meses em um contrato de fusão de uma empresa brasileira com uma multinacional europeia. Parecia coisa séria, por vezes ele se empolgava comentando coisas que me faziam sorrir mais pela formalidade excessiva dos termos do que pelo assunto em si.
Por vezes, ele se calava, esperando uma reação minha. Numa dessas vezes, suspirei e fixei os meus olhos nos dele, se houvesse uma escala de medida de percentual de interesse, o meu estaria disparado. Ouço atentamente a tudo que ele diz, estou acostumado por natureza a ter atenção no português alheio e, o dele, é impecável. Conto que sou formado em Letras e dou aula, era a única coisa que eu poderia dizer naquele momento. Não se aluga um desconhecido para ouvir os assuntos perturbadores de família, muito menos o que anda acontecendo com os meus alunos. Não numa boate.
Quando digo que sou professor de inglês, ouço uma gargalhada gostosa acompanhada de um sotaque britânico na seguinte frase: “Awesome! Can you teach me some?”. Victor é descontraído e apaixonado por sua profissão, não há a menor necessidade de ensiná-lo, porém isso sempre acontece quando digo que sou professor de inglês. Achei extremamente sexy só pelo fato dele ter feito aquilo pra jogar charme.
Olho o relógio e me assusto. As horas se passaram muito rápido no desenrolar da conversa e eu preciso ir para casa, levanto cedo para dar aula. Não quero deixá-lo, mas preciso.
– Victor, preciso ir. Gostaria de dar mais intensidade a nossa conversa, porém não posso ficar mais.
Me surpreendo com a sua atitude, mal terminei a frase e ele já estava me acompanhando até a saída do bar com a frase preparada e um olhar como o cintilar de um cristal.
- Eu lhe acompanho.
Caminho em silêncio e com as mãos no bolso. Apesar de sofrer com o calor do Rio, à noite é bem agradável caminhar pela orla. Quando saio e vejo que a temperatura irá diminuir bastante na parte da noite, eu pego um casaco ou algo do tipo. Hoje eu não planejei nada, estou com a roupa social desde o fim da aula. Poderia ter me trocado se eu não fosse presenteado pela surpresa agradável da minha irmã.
Victor está de terno, não sou o único que está com a roupa do trabalho. Sinto a temperatura do meu corpo aumentar com as suas mãos nos meus ombros, uma surpresa que eu não esperava. Ele percebe que estou com frio e me veste com o seu paletó. Meu rosto fica avermelhado e eu sorrio sem graça, essa atitude é digna de uma pessoa carinhosa e amorosa. Sua preocupação com um desconhecido me traz memórias do tempo que eu fui adolescente, quando morria de amores e não era correspondido, a incrível mania de se apaixonar por um heterossexual. Não importava o que eu fazia, como eu fazia, até por não ter a devida coragem de investir.
Chegamos ao meu apartamento. Me despeço e agradeço pela agradável companhia que me foi proporcionada. Toco em seu braço devagar e com precisão.
— Novamente, obrigado. Espero que te encontre por lá numa próxima vez. – Sorrio aberto quando digo.
Victor tira algo do bolso, estende a sua mão e me diz que ele também espera uma próxima vez, e que seja logo. Em sua mão há um cartão de sua firma, com o seu nome e endereço. Victor toca em meu rosto delicadamente e sorri, virando as costas deixando o prédio.
Somebody to love...
(Alguém para amar...)
Entro no meu apartamento e me jogo na cama e percebo que estou com o seu paletó. Não consigo parar de sorrir. Afinal, depois de tudo o que passei, chegou a minha recompensa. Levanto-me, tiro o paletó do corpo e o estico no sofá. Tomo um banho quente e me preparo para mais um dia que está por vir. Deito na cama e logo adormeço, com o sorriso estampado de ponta a ponta.
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